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O Mundo Agora

Pandemia de coronavírus está derrubando discursos extremistas sobre soberania nacional

Áudio 05:00
Não há dúvida de que depender da China ou da Índia para obter máscaras cirúrgicas, ventiladores, remédios básicos e insumos químicos para testes, é um baita problema.
Não há dúvida de que depender da China ou da Índia para obter máscaras cirúrgicas, ventiladores, remédios básicos e insumos químicos para testes, é um baita problema. AFP - STR
Por: Alfredo Valladão

No Norte desenvolvido virou moda bradar pela soberania nacional. A pandemia de coronavírus mostrou que uma economia que depende de produtos e insumos estrangeiros é um risco intolerável. Políticos e parte dos economistas culpam a “globalização”.

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Grandes empresas, buscando o menor custo e eficiência a curto prazo, teriam criado rígidas cadeias produtivas transnacionais, sem jogo de cintura para aguentar o tranco em caso de catástrofes sanitárias ou ambientais. O grande vilão é a deslocalização de importantes processos produtivos para os países em desenvolvimento com suas nuvens de empresas terceirizadas locais. A solução seria repatriar a produção e fazer tudo em casa, sob controle dos governos nacionais.

Não há dúvida de que depender da China ou da Índia para obter máscaras cirúrgicas, ventiladores, remédios básicos e insumos químicos para testes, é um baita problema. Sobretudo durante uma terrível pandemia imprevista.

Segurança alimentar e sanitária, como a segurança policial e militar, são funções imprescindíveis dos Estados nacionais. É claro que cada sociedade vai ter que definir prioridades estratégicas no momento de relançar a economia depois do Covid-19. E algumas cadeias de produção essenciais serão certamente desmanteladas e reconstruídas dentro dos territórios nacionais.

É o que está tentando Donald Trump na sua guerra comercial com a China e o que a França está abertamente promovendo na Europa. Hoje, está aparecendo uma estranha coalizão dos movimentos de extrema esquerda e de extrema direita – junto com parte dos ecologistas – defendendo um modelo quase autárquico: uma economia nacional administrada e dirigida pelo estado. Uma espécie de versão contemporânea dos países socialistas do século XX.

Obstáculos na repatriação de cadeias produtivas

Mas é doce ilusão pensar que é possível se fechar dentro de fronteiras soberanas, obrigando as empresas a repatriar suas cadeias produtivas. O primeiro obstáculo é o custo. Produzir bens ou componentes industriais na Europa e nos Estados Unidos é multiplicar o custo por dois. É dividir a renda e o salário das cidadãos pela metade. Uma pauperização geral.

Os soberanistas acham que não é um problema: basta o Estado distribuir mais dinheiro à população. Só que papel moeda não cresce nas árvores: alguém acaba pagando os bilhões de dólares da dívida pública. E são sempre as populações mais pobres e vulneráveis que ficam com a conta.

O segundo problema é a eficiência da produção. O que os países ricos deslocalizaram foi a produção de baixo valor, resguardando em casa os processos de alto valor agregado.

Trazer toda a tralha de volta só pode diminuir barbaramente a produtividade e competitividade da economia nacional, com graves consequências sociais. Alguns ecologistas acham que é uma boa coisa: o seu ideal é que as populações aceitem um modo de vida frugal e simples. Faz bem à saúde. Só que pouca gente está fim de embarcar na canoa do crescimento econômico zero.

A terceira questão é que as empresas, sem a possibilidade de crescer graças às economias de escala no mercado mundial e tendo que enfrentar um protecionismo geral, perderiam rapidamente as suas capacidades de investir e inovar. Para o mundo inteiro, a “desglobalização” seria repetir a debacle da antiga União Soviética.

A nova globalização

Mas é claro que a globalização de amanhã não vai ser a de ontem. As novas tecnologias estão globalizando a integração das economias do planeta.

É possível diversificar a implantação da produção de bens e componentes, graças à Internet, às nuvens informáticas ou à automação. O futuro da resiliência das empresas está na multiplicação de unidades de produção no mundo inteiro, incluindo o território nacional, conectadas e administradas pelas redes de comunicação.

As velhas cadeias globais lineares para produtos corriqueiros de baixo valor, sem peso estratégico, continuarão nos países mais pobres. O papo extremista sobre soberania nacional vai acabar se esborrachando contra os paredões das dívidas públicas, da eficiência da produção e do bem-estar das populações.

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