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O Mundo Agora

OMS deve passar por auditoria urgente para restabelecer governança e prioridades

Áudio 05:12
Logotipo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 9 de março de 2020 en sua sede , em Genebra.
Logotipo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 9 de março de 2020 en sua sede , em Genebra. AFP/Archivos
Por: Alfredo Valladão

Donald Trump decidiu – monocraticamente – retirar os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde acusada de ter sido aparelhada por Pequim. E de ter acobertado a responsabilidade da China na explosão da pandemia mundial de Covid-19. O golpe é pesado: Washington é o primeiro contribuinte da OMS. Só que a participação de Washington é garantida por um tratado internacional. 

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Teoricamente, o Presidente não pode agir sem o aval do Congresso. Difícil pensar que no clima pré-eleitoral, os deputados e senadores encontrem uma maioria qualificada para aprovar uma medida tão atentatória à saúde mundial.

O problema é que Trump pôs o dedo na ferida. Para salvar a face, os dirigentes chineses demoraram um tempão para reagir à epidemia e informar o resto do mundo – além de produzir estatísticas da infecção pouco convincentes e utilizar a resposta sanitária para veicular propaganda nacionalista barata. 

E aparece também que Pequim pôde contar com a benevolência amigável da diretoria da OMS. Não há dúvida de que essa agência das Nações Unidas, criada em 1948 para tratar da saúde pública mundial, está precisando de uma dose cavalar de reformas internas. Só que o problema da politização da OMS vem de longe. 

Histórico de desavenças

Já nos seus primeiros anos de vida, os países do bloco soviético abandonaram o navio, arguindo que era controlada pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha. E só voltaram sete anos depois para lançar uma campanha mundial de erradicação da varíola. Um jeito de se contrapor ao programa de luta contra o paludismo promovido por Washington.

Em 1985, os americanos suspendem os pagamentos para a OMS depois de uma guerra verbal de vários anos contra a mudança de rumo da política de saúde, inspirada pela União Soviética. O objetivo “vertical” de acabar com cada doença grave é superado pela ideia de programas sociais “horizontais” de “saúde primária” com a participação das comunidades locais e a promoção dos genéricos. 

A OMS se mete nos programas de “desenvolvimento” e vai sofrer a concorrência do Banco Mundial e dos grandes atores privados (fundações, indústrias farmacêuticas, ONGs) –  sem ter meios suficientes para emplacar as suas iniciativas.

Desde o final da Guerra Fria, a organização internacional andava meio esquecida, virando palco de guerrinhas de influência entre potências. Até que a China achou por bem tentar tomar conta do babado, elegendo como Diretor Geral, em 2006, uma médica chinesa vinculada às autoridades de Pequim.

Margaret Chan instrumentalizou a instituição durante dez anos numa campanha mundial a favor da medicina tradicional chinesa, recebendo pesadas críticas pela sua gestão da epidemia de gripe H1N1 e do vírus Ebola. A China hoje, ainda continua usando a organização para tirar o traseiro da seringa no caso da Covid-19. 

Auditoria urgente

Futuras pandemias continuarão acontecendo. Chegou a hora de uma auditoria urgente na OMS para redefinir sua governança e prioridades. Mas isso é quase impossível sem a liderança contínua de uma grande potência séria, responsável e realmente preocupada com a saúde mundial – qualidades que faltam à administração Trump, um presidente preocupado só com a própria reeleição. 

Todo o sistema multilateral da ONU criado em 1945, só podia funcionar com uma superpotência americana capaz de impor soluções negociadas à comunidade internacional, defender o sistema contra as tentações nacionalistas e autoritárias, e ao mesmo tempo defender seus próprios interesses quando achava necessário. 

Mas hoje, é “America First” e que se danem os outros. Trump não quer mais saber de regras e organismos multilaterais. E não há outra potência com condições de substituir os Estados Unidos. Achar que o multilateralismo pode funcionar na base de comitês de Estados soberanos sem ninguém garantindo a decisão final é doce ilusão. É a porta aberta para a cacofonia e uma rinha feroz entre potências médias. Pelo visto, a crise da OMS está longe de se resolver. E a saúde pública mundial está muito mal parada.

 

 

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