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Homofobia: vídeo ironiza adoção por casal gay durante campanha política na Rússia

Vídeo caricatura adoção de crianças por casais gays na Rússia.
Vídeo caricatura adoção de crianças por casais gays na Rússia. © Captura de vídeo
Texto por: RFI
6 min

Um vídeo divulgado esta semana nas redes sociais na Rússia está sendo acusado de homofobia. As imagens, que fazem parte da campanha para a reforma da Constituição que deve ser votada em 1° de julho, mostram um casal gay de forma caricata e ironizam a possibilidade de adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo.

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Com informações de Daniel Vallot, correspondente da RFI em Moscou

Em 1° de julho os russos vão às urnas para votar uma importante reforma da Constituição do país. Uma das principais mudanças na Carta Magna é a possibilidade de prolongar a permanência no poder do presidente Vladimir Putin, que termina seu quarto mandato em 2024.

Mas o texto também traz mudanças de ordem moral no país. O exemplo mais emblemático dessa reforma, que conta com o apoio de Putin, é que a nova Constituição prevê que um casamento é uma instituição formada apenas por um homem e uma mulher, excluindo legalmente o reconhecimento de qualquer tipo de relação homossexual em um país que tem registros de forte intolerância contra a comunidade LGBTQI+.

“Uma família de verdade”

Para chamar a atenção dos eleitores para esse aspecto da lei, uma campanha de vídeo foi lançada nas redes sociais, principalmente no VKontakte, o equivalente russo do Facebook. O filme se pretende futurista e mostra uma cena em um orfanato no ano de 2035, com um garoto que espera para encontrar sua nova família. Ao sair do prédio, o menino descobre que os pais adotivos são um casal homossexual. Ao perguntar onde está sua mãe, um dos pais responde à criança, apontando para o companheiro: “Esse é a sua nova mãe. Mas não se preocupe, nós seremos uma família de verdade”.

O vídeo continua mostrando o momento em que um dos pais, que usa maquiagem e imita trejeitos femininos, dá um vestido de presente para o garoto. As funcionárias do orfanato se mostram surpresas com a situação e uma até cospe no chão, em sinal de desprezo. A história termina com a mensagem “Que Rússia você quer? Decida o futuro de seu país e vote para a reforma da Constituição”.

Em menos de uma semana, o filme de dois minutos já tinha sido assistido mais de um milhão de vezes e suscitou muitas reações, tanto da oposição quanto de personalidades da sociedades civil, que denunciam o caráter homofóbico das imagens. Além de mostrarem um casal gay caricato, o vídeo ironiza a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo e insinua que pais homossexuais teriam uma influência na identidade de gênero de seus filhos.

Associações de defesa das minorias criticaram abertamente a campanha. “Estamos convencidos de que esse vídeo incita ao ódio e viola a dignidade humana”, declarou por meio de um comunicado a associação de apoio à comunidade LGTBQI+ Stimul. O grupo anunciou que vai prestar queixa contra os responsáveis pelas imagens e pede o bloqueio do vídeo.

Autores dizem que apenas defendem a família

O vídeo foi patrocinado e divulgado por uma agência de comunicação ligada a Evguéni Prigojine, um empresário próximo de Vladimir Putin. Seu nome é conhecido do grande público por ter sido acusado de envolvimento nas denúncias de influência russa nas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.

Questionada sobre o teor do filme, a agência responsável pela produção afirma que não se trata de uma campanha anti-gays. Segundo os autores, o objetivo principal é defender a instituição da família e os valores tradicionais no país. Um discurso frequente na alta cúpula do poder na Rússia, como apontam vários projetos de lei apresentados pela administração Putin.

A medida mais emblemática nesse sentido foi a entrada em vigor, em 2013, de uma legislação federal que ficou conhecida como “lei anti-propaganda gay”. Oficialmente, o texto condena a “propaganda de relações sexuais não-tradicionais diante de menores”, com multas e penas de prisão. Severamente criticada pelas organizações de defesa dos direitos humanos, a lei é vista por muitos como uma associação direta entre pedofilia e homossexualidade, o que acabou, de uma certa forma, legitimando um discurso cada vez mais homofóbico no país.

Essa, aliás, não é a primeira vez que um filme acusado de homofobia é usado em campanhas políticas na Rússia. Em 2018, durante a campanha presidencial, um vídeo incitando a população a votar – como uma clara tendência pró-Putin – se baseava na fake news de que quem não fosse às urnas seria obrigado a adotar um homossexual.

Adoção por pais homoafetivos não é reconhecida

Nenhuma lei proíbe oficialmente a adoção de crianças por casais russos homoafetivos. No entanto, as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser oficializadas, o que impossibilita o reconhecimento da adoção.

Já para os estrangeiros, desde 2013, na esteira da “lei anti-propaganda gay”, apenas casais heterossexuais podem adotar no país. Além disso, estrangeiros que não sejam oficialmente casados só têm acesso à adoção na Rússia se vierem de países onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é proibido.

 

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