Arábia Saudita nomeia pela primeira vez 53 mulheres no cargo de juízas de instrução

O príncipe herdeiro saudita tem promovido reformas para ampliar os direitos das mulheres, mas a sociedade ainda permanece extremamente conservadora.
O príncipe herdeiro saudita tem promovido reformas para ampliar os direitos das mulheres, mas a sociedade ainda permanece extremamente conservadora. REUTERS - Ahmed Yosri

Pela primeira vez, a Arábia Saudita nomeou 53 mulheres como juízas de instrução em seu sistema Judiciário. Segundo informações do canal de televisão Al Arabya, elas irão atuar ao lado de 103 juízes do sexo masculino também designados recentemente.

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Heike Schmidt, da RFI

A medida representa um avanço na área dos direitos das mulheres e se insere em um conjunto de iniciativas lançadas pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammad Bin Salman. Desde que assumiu a liderança do país, em junho de 2017, Salman tem buscado rejuvenescer e melhorar a imagem da monarquia ultraconservadora perante a comunidade internacional.

Na avaliação de Alain Gresh, diretor da revista online “Orient XXI”, o príncipe herdeiro saudita busca, com a nomeação das juízas, ganhar pontos com a opinião pública doméstica e ampliar sua credibilidade perante a comunidade internacional, principalmente ao lado dos ocidentais, que dão grande importância à questão dos direitos das mulheres.

O especialista nota, no entanto, uma contradição. “Ao mesmo tempo em que envia mais um sinal de abertura, essa reforma ocorre em paralelo a uma repressão permanente contra a militância política”, destaca Gresh.

“No mesmo momento em que concedeu às mulheres o direito de dirigir, o príncipe Salman enviou à prisão militantes que tinham participado de manifestações em defesa do direito de dirigir; essas militantes estão presas há três anos”, ressalta. “Existem limites às reformas do regime”, disse Gresh em entrevista à RFI.

Para o diretor da revista "Orient XXI", não é mais possível frear o movimento de emancipação das sauditas. Ele lembra que a maioria dos estudantes no país são mulheres. Nos últimos anos, principalmente por causa do acesso ao sistema universitário, elas adquiriram maior independência. “O poder se viu obrigado a levar essas mudanças em conta, mas logicamente aproveita desse tipo de reforma para melhorar sua imagem internacional, profundamente abalada pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi”, estima Gresh.

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