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Cambojanas contam à Paris Match o "sacrifício" de vender os cabelos para não passar fome

Áudio 03:13
Por um punhado de cabelos, é o título do documentário da revista Paris Match desta semana.
Por um punhado de cabelos, é o título do documentário da revista Paris Match desta semana. © Fotomontagem RFI

A indústria das extensões de cabelo humano já movimenta US$ 1 bilhão por ano e deve chegar a US$ 10 bilhões em 2030, segundo um estudo da empresa de consultoria Research and Markets. A China e a Índia continuam sendo os principais fornecedores desse produto único, mas outros países asiáticos experimentam um aumento desse comércio controverso.

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A revista francesa Paris Match encontrou mulheres pobres da zona rural do Camboja que se viram obrigadas a vender os cabelos para sobreviver. Esse "sacrifício", nas palavras de várias entrevistadas, ainda fez com que elas fossem estigmatizadas pelos homens de sua comunidade ou pela própria família. Todas afirmam ter vendido os cabelos para comprar comida, remédios ou pagar a escola dos filhos.

As cambojanas retratadas na reportagem da Paris Match cederam à pressão dos "caçadores de cabelo". Muitos deles são provenientes do vizinho Vietnã. Eles serpenteiam os vilarejos rurais do Camboja em busca desse bem precioso. Muitas mulheres que tiveram a cabeça depenada se deram conta, tarde demais, dos danos que essa mutiliação representava para sua autoestima.

Segundo dados do Banco Mundial, 4,5 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 1,9 por dia no Camboja. Até pouco tempo atrás, uma horta cultivada no terreno de casa era suficiente para que a população carente evitasse a fome. Mas com a diminuição das chuvas, uma das consequências das mudanças climáticas, a comida rareou.  

A revista Paris Match visitou vilarejos próximas da capital, Phnom Penh, e no norte do país, onde várias mulheres sem recursos venderam seus cabelos para comprar comida. Elas contam como foram abordadas em troca de um pagamento que pode variar de US$ 20 a US$ 45, às vezes menos. Os alvos preferidos são mulheres e adolescentes da faixa etária de 15 a 40 anos.

Uma delas explica que os fios mais apreciados são aqueles do meio da cabeça e que, para valer a pena para os comerciantes, elas devem aceitar um corte radical, que deixa apenas uma crista no alto da cabeça. Depois, viram objeto de gozação – são chamadas de "cabeça de galinha" – e colhem o menosprezo dos homens.

Culturalmente, cortar os cabelos por dinheiro dá azar, dizem os mais velhos. Uma das mulheres ouvidas pela Paris Match afirma que aceitou o que definiu como "um sacrifício" para comprar remédios para a filha doente. "Não chorei, é o destino; eu sou pobre e devo aceitar", disse Ken Son Kheang.

Tratamento natural

Uma vez cortados, os cabelos são vendidos no mercado especializado Orussey Market, na capital. No local, comerciantes vendem os cabelos por US$ 300 a US$ 500 o quilo, dependendo da qualidade do fio.

Perto das barracas que vendem as extensões, salões de cabeleireiros cobram de US$ 400 a US$ 500 para realizar sessões de implante capilar em homens calvos ou fazer extensões em atrizes, influencers, donas de casa e estudantes, que sonham com um cabelo de manequim de propaganda de xampu ou atrizes de cinema.

Outro serviço encontrado nesse mercado é a locação de extensões de cabelo humano para festas. "Faço o penteado de festa de acordo com o desejo da cliente", conta uma cabeleireira.

Não distante dali, uma cliente relata à Paris Match que sabe que os cabelos são provenientes de mulheres muito necessitadas. Mas isso não produz nesta consumidora de extensões uma reflexão mais aprofundada. "Essas mulheres precisam de dinheiro e eu preciso melhorar o meu estilo", argumenta. Na cabeça dessa cambojana mais abastada, não há nada de anormal nesse comércio.

Os cabelos das mulheres asiáticas são apreciados pela resistência e o tratamento natural, na maior parte das vezes à base de óleo de coco. A demanda é muito superior à oferta, destaca a revista francesa.

No interior da China, na Tailândia, no Vietnã ou no Camboja, adolescentes e mulheres jovens não usam mais tranças ou rabo de cavalo, como faziam antigamente, apenas cabelos curtos.

As mechas que muitas queriam conservar para sua própria beleza e autoestima são enviadas a fábricas chinesas, onde são tingidas para aterrissar na cabeça de americanas, africanas e europeias, conclui a Paris Match.

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