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Meio Ambiente

Pragas de gafanhotos na África, Ásia e Argentina são iguais?

Áudio 06:04
Mulher circula em meio a nuvem de gafanhotos na cidade de Lodwar, Kênia.
Mulher circula em meio a nuvem de gafanhotos na cidade de Lodwar, Kênia. REUTERS - Baz Ratner
Por: Lúcia Müzell

As imagens das pragas de gafanhotos que atingem o leste africano, o Oriente Médio, o sul da Ásia e a região norte da Argentina são assustadoras: milhões de insetos tomam conta de árvores e devoram tudo que veem pela frente. O que, afinal, os fenômenos têm em comum? Os gafanhotos estão invadindo o hemisfério sul?

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Uma consulta aos livros de história mostra que as nuvens de gafanhotos são mais antigas do que se pensa. “É preciso ressaltar que, desde os mais remotos tempos, eles se multiplicam. O gafanhoto do deserto, da África, já é documentado desde a época dos faraós do Egito. Invasões como as que vemos hoje são normais naturalmente, naquele ambiente”, observa o pesquisador francês Cyril Piou, especialista em controle de populações do inseto do Centro de Cooperação Internacional de Pesquisas Agronômicas para o desenvolvimento (Cirad). “Da mesma forma, na Argentina, há registros de problemas com gafanhotos desde a colonização do país. É por isso que a Argentina desenvolveu um serviço de proteção das plantações, para evitar a espécie.”

Nos três continentes, são gafanhotos “primos” do tipo Schistocerca que amedrontam os agricultores. Na América do Sul, a espécie cancellata é conhecida como migratória. “São espécies bastante especializadas em se desenvolver de maneira solitária, em meios desérticos. Elas vivem em baixa densidade, poucas por quilômetro quadrado”, explica Piou. “Mas quando as boas condições favorecem a multiplicação da população, acontece uma mudança de comportamento. Elas passam da fase solitária para fase que chamamos de gregária.”

Coincidência?

É aí que vem o problema. Com um clima chuvoso, rapidamente, esses poucos gafanhotos se transformam em praga se não forem controlados por pesticidas. Foi o que ocorreu, quase ao mesmo tempo, nos três continentes – uma situação que, nos países mais pobres, ameaça a segurança alimentar em um contexto já fragilizado pela pandemia de Covid-19.

O pesquisador sênior da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) Keith Cressman, um dos maiores especialistas do mundo em gafanhotos do deserto, avalia que é “uma coincidência” o fenômeno se repetir em tantos lugares, praticamente no mesmo momento.

“Acontecem chuvas favoráveis com frequência, em partes diferentes do mundo, no mesmo momento. E isso acabou de acontecer em partes onde os gafanhotos gostam de estar presentes”, nota Cressman. “Eles estão reagindo muito bem às chuvas, que providenciam ao solo a umidade necessária para os ovos deles e para o crescimento da vegetação, que traz a comida e os esconderijos deles.”

Os especialistas ressaltam que, no caso africano, foi a ocorrência de repetidos ciclones que favoreceu a multiplicação do inseto. Já na América do Sul, o pesquisador francês diz que, ao que tudo que indica, houve falhas no monitoramento das populações.

“Acho que se deve sobretudo a uma baixa da vigilância. O melhor método para controlar esses gafanhotos é a prevenção. Temos de identificar gafanhotos solitários e observar quando eles começam a mudar de fase e, neste momento, podemos tratá-los em pequena escala, com bem menos produtos químicos. Até pesticidas orgânicos podem funcionar bem”, destaca Piou. “Esse método sempre funcionou muito bem na América do Sul: o sistema da Argentina era o melhor do mundo para fazer esse tipo de prevenção.”

Gafanhotos tomam conta de árvore em plantação de Gran Guardia, na Argentina, onde governo promoveu vasta operação de controle químico da praga nas últimas semanas.
Gafanhotos tomam conta de árvore em plantação de Gran Guardia, na Argentina, onde governo promoveu vasta operação de controle químico da praga nas últimas semanas. via REUTERS - Handout .

Mudanças climáticas podem aumentar a recorrência de pragas

Os dois pesquisadores também têm ressalvas sobre o papel das mudanças climáticas na ocorrência das nuvens de gafanhotos – que, como mostram os registros, é milenar. Entretanto, o aumento dos fenômenos naturais extremos, como ciclones, pode levar os países a terem de enfrentar o problema com cada vez mais frequência.

“Independentemente da razão, se são as mudanças climáticas ou uma anomalia do clima durante um certo período, algo está mudando. Se continuar acontecendo desta maneira e tivermos mais ciclones no futuro, vai afetar o gafanhoto do deserto no leste da África: haverá mais nuvens como as que eles estão tendo neste ano”, afirma o especialista da FAO. 

Neste contexto, Cressman observa que os desequilíbrios ambientais provocados pela devastação das florestas podem fazer com que o Brasil passe a sofrer com infestações de gafanhotos. “Quando você muda o meio ambiente, seja pelo desmatamento, ou por abrir um canal ou plantar em uma área desértica, você muda o habitat dos seres vivos – e pode criar novos habitats que você nem imaginava.  Essas mudanças, claro, incluem os gafanhotos”, frisa. “No caso do desmatamento, você abre grandes áreas abertas – e gafanhotos gostam de áreas assim para depositar seus ovos.”

 

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