Para magnata da imprensa em Hong Kong, lei de segurança nacional é pena de morte para ex-colônia britânica

Jimmy Lai sabe que corre o risco de ir para a cadeia por seu apoio ao movimento pró-democracia.
Jimmy Lai sabe que corre o risco de ir para a cadeia por seu apoio ao movimento pró-democracia. AP Photo/Vincent Yu

Jimmy Lai, 71 anos, está há três décadas à frente de um grupo jornalístico em Hong Kong abertamente anticomunista. Para ele, a nova lei de segurança nacional que a China impôs “destrói o estado de direito e liberdade” de Hong Kong.

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Florence de Changy, corrrespondente da RFI em Hong Kong

O carro-chefe do grupo Next Digital é o jornal Apple Daily, porta-voz dos que lutam pela democracia em Hong Kong. Há um ano, Lai foi até Washington pedir apoio ao governo americano contra a pressão chinesa. Em liberdade sob fiança e sem o direito de viajar, ele recebeu a RFI em sua casa, na ex-colônia britânica.

RFI – Podemos começar com a sua opinião sobre a nova lei de segurança nacional?

Jimmy Lai – Acho que é uma sentença de morte para Hong Kong. É mais draconiana que as previsões mais pessimistas. Ela desbanca a nossa Constituição, que é mínima. Isso que dizer que ela tolhe nosso estado de direito e liberdades. Sem estado direito, o setor de negócios aqui não será mais protegido pela justiça.  

RFI – Mas Pequim não tem motivos para destruir o polo financeiro...

J.L. – Eles não têm nenhum motivo, mas vão fazer isso por uma razão muito simples: o polo financeiro precisa de confiança mútua. Sem estado de direito, não há mais confiança mútua. Claro que as empresas ganham muito dinheiro aqui, por isso querem permanecer. Mas o que está acontecendo é diferente. Elas entendem a que ponto a situação é grave e assistem à maneira draconiana de agir do Partido Comunista chinês para controlar o setor. Todos já entenderam: Pequim não está de brincadeira.

RFI – Qual o efeito da lei sobre os jovens e a oposição?

J.L. – Os jovens estão aterrorizados, é compreensível. Eles têm toda uma vida diante deles. Alguns líderes já foram embora, outros pensam em partir, e mesmo os que ficam, se distanciam do movimento. Eles dizem “basta, não quero mais me arriscar”. Não podemos criticá-los. Não se pode pedir a alguém para se tornar um mártir. Portanto, o movimento pró-democracia vai se enfraquecer. E os que continuarem, terão como missão preservar a integridade do movimento e ser a espinha dorsal de nossa consciência social. A realidade é que continuamos a acreditar porque sabemos que é o lado correto da história e que estamos fazendo o que é preciso. Mesmo se formos derrotados hoje, os que vierem depois, um dia, vão ganhar. É a única esperança que temos.

RFI – O senhor também se arrisca ao tomar posições que confrontam Pequim?

J.L. – Antes da lei de segurança nacional, tentaram me amedrontar ao dizer que eu seria condenado à prisão perpétua na China ou que seria fuzilado. Ouvi todos os tipos de ameaças. Claro que ficariam contentes se eu fosse embora. Se eu partir, teria vergonha, meu jornal perderia a credibilidade e eu colocaria em perigo a solidariedade do movimento pró-democracia. Não posso ir embora. Eu os incomodei durante 30 anos. Sou um dos que mais lutaram e não seria agora, justamente na hora de uma batalha de verdade, que eu iria embora. Eu me tornaria um covarde. Não posso fazer isso. 

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