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Para filósofo, cultura do cancelamento pode ser “tiro no pé” de progressistas

O filósofo Filipe Campello da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
O filósofo Filipe Campello da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). © Captura de tela
Por: Lúcia Müzell

Cultura do cancelamento: a expressão não é nova, mas ganhou força nas últimas semanas com a publicação de um manifesto de mais de 150 intelectuais e personalidades contra esse julgamento virtual das pessoas, com consequências bem reais, como demissões. Associada à militância de esquerda, a prática chega a atingir o próprio campo ideológico e vira um “tiro no pé” para o avanço de reivindicações legítimas como o combate ao racismo, desigualdades de gênero, entre tantas outras pautas progressistas.

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No caso mais recente no Brasil, feministas negras entraram em confronto aberto pelas redes sociais. ”A gente está vivendo um momento com problemas tão mais graves. Esse tipo de disputa interna, de cancelamentos, é contraprodutivo para a causa”, afirma o filósofo Filipe Campello, que tem se interessado pela questão nos seus estudos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O cancelamento ocorre quando algum gesto, atitude ou fala de alguém é considerado ofensivo por um grupo de pessoas oprimidas, como mulheres, negros ou homossexuais. A pessoa passa a ser perseguida nas redes sociais e, em questão de horas, é alvo de uma avalanche de comentários e cobranças, que podem levá-la à demissão e até o ostracismo.

Ameaça à liberdade de expressão

"O cancelamento tem o lado positivo e compreensível de dar vozes aos que não tinham a oportunidade de manifestar suas opiniões. Havia um silenciamento histórico de pessoas que não estavam incluídas no debate”, sublinha Campello. "Mas o problema é quando o cancelamento passa a ser uma válvula de escape que interrompe o próprio debate. Adquire, assim, uma nova figura além da democratização e da liberdade de expressão”, nota o filósofo, que ressalta, ainda, o paradoxo de, historicamente, a ala progressista lutar não para calar, mas para dar a palavra a todos.

Com essa ferramenta, acaba jogando no mesmo campo dos ultraconservadores e promovendo retrocessos, ao aplicar uma “'régua moral” do que que pode ou deve ser dito. "O cancelamento revela muito dos nossos tempos, de impossibilidade do debate a partir da lógica da 'lacração'. E mais: quem não cancela, está 'passando pano', como se não houvesse várias nuances aí dentro”, ressalta o coordenador do mestrado em Filosofia da UFPE.

Julgamento moral

Campello frisa que as democracias modernas substituíram os julgamentos medievais, em que as pessoas eram queimadas na fogueira sob acusações de cunho moral, pelo aval das instituições de justiça. "Essas vozes têm razão em dizer que essas instituições não estão funcionando corretamente, mas o risco é jogarmos fora toda essa construção e voltarmos à uma lógica persecutória e punitivista, a partir das próprias visões de mundo, de cada um”, adverte o pesquisador. "Se voltamos a crítica ao indivíduo, perdemos de vista a possibilidade de mudança que cada um tem de rever as suas perspectivas.”

Às vezes, o cancelamento ocorre sem qualquer direito de resposta e, pior ainda, baseado em conclusões precipitadas. Foi o que aconteceu com um homem que dirigia nos Estados Unidos e foi flagrado supostamente fazendo um símbolo de OK com os dedos – sinal que, para o movimento antirracista, é associado aos supremacistas brancos.

O homem conduzia o veículo da empresa na qual trabalhava e uma foto dele no veículo, fazendo o gesto, foi parar nas redes sociais, com acusações de racismo à companhia empregadora. Duas horas depois, ele foi suspenso do emprego e, passados cinco dias da foto, foi demitido.

À imprensa, Emmanuel Cafferty – filho de imigrantes mexicanos – explicou que nunca imaginou que aquele gesto fosse associado ao racismo. Mais: garantiu que sequer estava fazendo OK, mas sim alongando os dedos enquanto aguardava a abertura do semáforo, um movimento que costuma fazer.

“É como o termo ‘denegrir’, que é associado ao racismo. As pessoas que falam ‘denegrir' não podem, a priori, ser classificadas como racistas. Todos nós podemos aprender”, avalia Campello.

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