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Nitrato de amônia, um componente detonante conhecido por seus riscos

"Explosões são tipicamente detonações que causam enormes danos devido à onda supersônica de choque, que é claramente visível nos vídeos" de Beirute, explica Andrea Sella, químico da Universidade de Londres UCL.
"Explosões são tipicamente detonações que causam enormes danos devido à onda supersônica de choque, que é claramente visível nos vídeos" de Beirute, explica Andrea Sella, químico da Universidade de Londres UCL. Anwar AMRO / AFP
Texto por: RFI
5 min

O nitrato de amônia, responsável pelas explosões que sacudiram Beirute nesta terça-feira (4), é utilizado na composição de muitos fertilizantes e já causou diversos acidentes industriais ou atentados, como o acidente na França em 2001, em que cerca de 300 toneladas da substância armazenadas em um hangar em Toulouse explodiram, causando a morte de 31 pessoas. Em 1995, um supremacista branco cometeu um atentado com o produto, em Oklahoma City, nos Estados Unidos.

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De acordo com o primeiro-ministro do Líbano, Hasan Diab, as explosões, que deixaram pelo menos 100 mortos e 4.000 feridos, foram causadas pela detonação de 2.750 toneladas de nitrato de amônia que estavam armazenadas no porto da capital libanesa.

O nitrato de amônia é um sal branco e inodoro usado como base para muitos fertilizantes nitrogenados em forma de grânulos, altamente solúveis em água e que os agricultores compram em grandes pacotes. Não são produtos combustíveis, mas sim oxidantes.

Sua detonação é possível em doses médias e altas e na presença de substâncias combustíveis ou fontes intensas de calor. Por isso, o armazenamento do nitrato de amônia deve seguir normas rigorosas de isolamento de líquidos inflamáveis ou corrosivos, sólidos inflamáveis ou substâncias que emitam calor, de acordo com um relatório técnico do Ministério da Agricultura da França.

O nitrato de amônia foi protagonista de diversas tragédias – acidentais ou não – no mundo. Um de seus primeiros acidentes de grandes proporções deixou 561 mortos, em 1921, em uma usina em Oppau, na Alemanha.

Na França, cerca de 300 toneladas de nitrato de amônia armazenadas em um hangar da usina química AZF, em Toulouse, explodiram em 21 de setembro de 2001, causando a morte de 31 pessoas. A explosão pôde ser ouvida a 80 km de distância. Nos Estados Unidos, uma explosão na usina da West Fertilizer, no Texas, deixou 15 mortos em 2013.

O nitrato de amônia também pode ser usado na fabricação de explosivos. "Misturado com TNT (trinitrotolueno) ou pentrito, é usado em construção, minas e pedreiras", especifica a Sociedade Química da França. Em 19 de abril de 1995, o supremacista branco Timothy McVeigh detonou uma bomba feita com duas toneladas de fertilizante na frente de um edifício federal em Oklahoma City, matando 168 pessoas e ferindo outras 700.

Principais riscos e consequências

“Insensível ao impacto e ao atrito, o nitrato de amônia é um explosivo “medíocre”, a menos que seja misturado com combustíveis como hidrocarbonetos, ou se derretido e confinado durante, por exemplo, um incêndio violento", indica a Sociedade Química da França.

"A onda de detonação do nitrato de amônio causa uma destruição muito significativa. Capaz de causar estragos, sua acidologia é bem conhecida. A explosão em Beirute é uma das mais fortes explosões de produtos químicos da história", afirmou Daniel Vanschendel, especialista em explosivos, à agência AFP.

"Explosões são tipicamente detonações que causam enormes danos devido à onda supersônica de choque, que é claramente visível nos vídeos" de Beirute, comenta Andrea Sella, químico da Universidade de Londres UCL, citado pelo Science Media Center.

Em sua opinião, esta é uma "brecha regulatória catastrófica, porque as regras sobre o armazenamento de nitrato de amônia são muito claras". Em vista dos "primeiros vapores brancos, seguidos de uma explosão que liberou uma grande nuvem vermelha e marrom, depois uma nuvem branca na forma de cogumelo, isso indica que os gases emitidos são vapores de nitrato de amônia branco, óxido nitroso tóxico e água", acrescenta Stewart Walker, professor da Universidade Australiana de Flinders.

Um grande consumidor

O nitrato de amônio "é usado principalmente como fertilizante de nitrogênio para as leguminosas", indica a Sociedade Química da França. Este tipo de fertilizante é usado em todo o mundo para obter melhores rendimentos e é considerado indispensável por muitos agricultores.

O Líbano é conhecido por ser um grande consumidor de fertilizantes: com 330 quilos por hectare, o país usa o dobro da média mundial, observou em fevereiro a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Existem outros usos menores para esse corpo químico, como propulsor na indústria aeroespacial, por suas propriedades oxidantes. Dissolvido em água, causa uma reação endotérmica usada para sacos refrigeradores. Na apicultura, a fumaça branca que uma pequena quantidade de nitrato produz durante a queima pode anestesiar as abelhas, a fim de poder mover uma colmeia.

Fabricação, preço e armazenamento

O nitrato de amônia (NH4NO3) é o resultado da reação entre amônia e ácido nítrico. A Rússia é de longe o país produtor líder, com quase 10 milhões de toneladas em 2017, ou 45% da produção mundial, de acordo com a FAO. Usado principalmente na agricultura, o produto é sujeito a sazonalidade de preços: o preço médio por tonelada era de 214 euros no final de 2018 / início de 2019, de acordo com a Comissão Europeia.

O Ministério da Agricultura francês ressalta que um dos principais perigos associados aos fertilizantes que contêm nitrato de amônio é "a detonação de amonitratos de alta dosagem", ou seja, aqueles que contêm mais de 28% de nitrogênio. O relatório acrescenta que "esse perigo é geralmente considerado improvável para produtos em conformidade com a norma e armazenados em condições normais".

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