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"Autoridades libanesas não deram importância para nitrato de amônio", diz ex-capitão de navio abandonado em Beirute

Moçambique nega que as 2.750 toneladas de nitrato de amônio que explodiram no porto de Beirute tinham como destino final o porto da Beira.
Moçambique nega que as 2.750 toneladas de nitrato de amônio que explodiram no porto de Beirute tinham como destino final o porto da Beira. © DR
Texto por: RFI
5 min

As 2.750 toneladas de nitrato de amônio que explodiram na terça-feira (4) em Beirute chegaram no porto da cidade há sete anos, a bordo de um cargueiro russo de aluguel que, na época, se encontrava em péssimo estado de conservação. O ex-capitão do Rhosus, o russo Boris Prokochev, disse em entrevista à agência Reuters que o proprietário do cargueiro "só pensava em lucro".

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Prokochev descreve uma série de falhas que, ao longo do tempo, contribuíram para a tragédia. De acordo com o relato do ex-capitão, a escala em Beirute não estava prevista no roteiro original da viagem. O cargueiro tinha partido da Geórgia com destino a Moçambique, mas ele recebeu ordens do empresário russo Igor Gretchouchkin, dono do navio, para fazer uma escala imprevista no Líbano. O objetivo era embarcar novas mercadorias.

No porto de Beirute, a tripulação deveria carregar equipamentos de terraplenagem usados em obras públicas e levá-los para Aqaba, na Jordânia, antes de seguir viagem para a África, onde o nitrato de amônio deveria ser entregue a um fabricante de explosivos. Mas o cargueiro nunca saiu de Beirute, devido à incapacidade de garantir um carregamento seguro e a divergências com as autoridades libanesas sobre o pagamento de taxas portuárias.

Prokochev, hoje com 70 anos de idade, diz que era "impossível" transportar a carga adicional. "Poderia ter destruído a embarcação inteira e eu disse que não faria", afirmou o ex-capitão por telefone de sua casa em Sóchi, no mar Negro.

Diante do impasse, Prokochev e advogados de alguns credores acusaram o proprietário do Rhosus de ter abandonado a embarcação em Beirute. Por meio desse recurso, eles obtiveram a imobilização do navio. Vários meses depois, por razões de segurança, as duas toneladas de nitrato de amônio foram retiradas do cargueiro e transferidas para um armazém no porto, onde explodiram na terça-feira, matando pelo menos 145 pessoas e ferindo 5.000.

Para o contramestre do Rhosus, Boris Moussintchak, o barco poderia ter deixado Beirute se as máquinas de terraplenagem que a tripulação deveria embarcar tivessem sido corretamente protegidas, içadas e acomodadas no compartimento de carga, mas a operação acabou danificando as escotilhas do porão. Uma das tampas sofreu uma avaria. "Nós decidimos não correr riscos", afirmou Moussintchak por telefone.

Depois do incidente, o capitão e três tripulantes tiveram de passar 11 meses a bordo do cargueiro, enquanto aguardavam uma decisão de Justiça sobre o caso. Nesse período, eles não receberam seus salários e enfrentaram dificuldades de abastecimento. O nitrato de amônio só foi retirado do navio depois que a tripulação partiu.

Uma carga altamente explosiva

De acordo com o ex-capitão Prokochev, "a carga era altamente explosiva". "Por esse motivo, ela ficou a bordo enquanto estávamos lá (...) era um nitrato de amônio muito concentrado", afirmou. O produto havia sido vendido pelo fabricante de fertilizantes georgiano Rustavi Azot, de acordo com o russo, e deveria ser entregue ao grupo moçambicano Fábrica de Explosivos.

A Reuters tentou ouvir outras pessoas que poderiam dar informações sobre o caso. O dono do cargueiro, Igor Gretchouchkin, não respondeu aos contatos da agência, apesar de várias tentativas.

Levan Bourdiladze, diretor da Rustavi Azot, disse que está à frente da fábrica na Geórgia há três anos, e por isso não pode confirmar se o nitrato de amônio saiu de lá. Por outro lado, ele considerou um "erro grosseiro de segurança" estocar essa quantidade elevada da substância num porto, "uma vez que o produto químico perde suas propriedades de utilização no prazo de seis meses".

O Ministério da Justiça do Líbano também não quis comentar as declarações do ex-capitão do Rhosus. As autoridades libanesas ordenaram a detenção domiciliar de todos os diretores e gerentes encarregados da estocagem e da segurança no porto de Beirute desde 2014, enquanto são realizadas as investigações preliminares sobre a catástrofe.  

Para Prokochev, o Rhosus estava em condições de navegar em setembro de 2013, apesar da presença de várias perfurações. Mas ele acredita que as autoridades libanesas não prestaram atenção no nitrato de amônio armazenado nos porões.

"Sinto muito pelas pessoas (mortas ou feridas pelas explosões). Mas são as autoridades locais libanesas que devem ser punidas. Elas não deram importância alguma para a carga”, afirma.

O cargueiro permaneceu abandonado desde que a tripulação partiu, após a transferência das 2.750 toneladas de amônio para um hangar no terminal portuário. O Rhosus afundou no porto de Beirute em maio de 2018, segundo um e-mail enviado a Prokochev por seu advogado.

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