Magnata pró-democracia Jimmy Lai é preso em Hong Kong

Polícia de Hong Kong deixou a sede do jornal Apple Daily levando o magnata Jimmy Lai algemado nesta segunda-feira (10).
Polícia de Hong Kong deixou a sede do jornal Apple Daily levando o magnata Jimmy Lai algemado nesta segunda-feira (10). AP

O magnata das comunicações Jimmy Lai, de 71 anos, foi preso nesta segunda-feira (10), enquadrado pela lei de segurança nacional imposta pela China ao território semiautônomo no final de junho. O grupo jornalístico que dirige, abertamente anticomunista, está sob investigação.

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Com informações de Florence de Changy, correspondente da RFI em Hong Kong

O riquíssimo empresário chinês radicado em Hong Kong faz parte das nove pessoas detidas para interrogatório nesta segunda-feira por suspeita de aliança com forças estrangeiras – uma das infrações visadas pela nova legislação de Hong Kong. Dois dos filhos de Jimmy Lai também foram presos, assim como Wilson Li, um ex-militante pró-democracia que trabalha como cinegrafista freelance para o canal britânico ITV News.

Jimmy Lai é o diretor da Next Digital, proprietário de dois veículos críticos a Pequim, o jornal Apple Daily e a revista Next. Nesta manhã, cerca de 200 policiais cercaram a sede do grupo, uma zona industrial do bairro de Lohas Park, no sudeste de Hong Kong.

Em entrevista à RFI, há duas semanas, o magnata fez duras críticas à lei de segurança nacional. “Acho que é uma sentença de morte para Hong Kong. É mais draconiana que as previsões mais pessimistas. Ela desbanca a nossa Constituição, que é mínima. Isso que dizer que ela tolhe nosso estado de direito e liberdades”, declarou.

Para muitos cidadãos de Hong Kong pró-democracia, Jimmy Lai é considerado como um herói. De família pobre, originário de Cantão, no sul da China, chegou aos 12 anos em Hong Kong e construiu sozinho sua fortuna. Ele é o único grande empresário do território crítico ao governo local e a Pequim.

Muitos cidadãos de Hong Kong reagiram à prisão comprando todas as publicações disponíveis da Next Digital nas bancas e prometeram fazer o mesmo amanhã. Na bolsa de valores, depois de registrar uma queda de 18% nesta manhã, as ações do grupo protagonizaram um salto de 340% após a mobilização da população em apoio a Lai.

Imagens da ação policial nas redes sociais

Os jornalistas do diário Apple Daily filmaram e divulgaram ao vivo as imagens da ação policial. Em um dos vídeos publicados no Facebook, o chefe da redação Law Wai-kwong aparece discutindo com os policiais e pedindo um mandado de busca.

Em seguida, os policiais pedem que os jornalistas se levantem e se alinhem para que suas identidades sejam verificadas. Outros agentes realizam buscas na redação. Jimmy Lai aparece deixando o local algemado.

O presidente da Associação dos Jornalistas de Hong Kong, Chris Yeung, classificou o incidente como “chocante e aterrorizante”. “É algo sem precedentes, que não imaginávamos que pudesse acontecer há um mês ou dois”, diz.

Já o clube dos correspondentes estrangeiros em Hong Kong acredita que a ação da polícia marca “uma nova fase obscura” que vai de encontro com as garantias de Pequim e do executivo local segundo as quais a lei de segurança nacional não colocaria um fim à liberdade de imprensa.

Chris Patten, último governador britânico de Hong Kong, acusou as autoridades de realizar “um ataque escandaloso sobre o que resta da imprensa livre em Hong Kong”.

“Pronto para ser preso”

Jimmy Lai estava no centro das atenções da China há alguns meses, tendo sido classificado por Pequim como “traidor”. O governo chinês o acusa de ser um dos instigadores do movimento de contestação que teve início em 2019.

As acusações foram reforçadas depois que o magnata se reuniu com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, e o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, no ano passado.

Duas semanas antes de alei de segurança nacional ter sido imposta, Lai afirmou em entrevista à imprensa internacional que estava “pronto para ser preso”. Na mesma ocasião, ele previu que a interferência da China em Hong Kong se intensificaria e afirmou temer que as autoridades passassem a perseguir os jornalistas.

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