Sob pressão, governo do Líbano renuncia seis dias após explosões em Beirute

Primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, anunciou a renúncia do governo após manifestações em massa.
Primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, anunciou a renúncia do governo após manifestações em massa. REUTERS - MOHAMED AZAKIR

Depois de um final de semana de violentas manifestações, o primeiro-ministro Hassan Diab anunciou a demissão coletiva de seu governo nesta segunda-feira (10), seis dias após as explosões que devastaram o porto de Beirute. 

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Em pronunciamento à televisão, Diab afirmou que as explosões no porto de Beirute foram o resultado de uma "corrupção endêmica" e anunciou a renúncia coletiva.

A explosão de 2,7 toneladas de nitrato de amônio estocados no porto de Beirute por vários anos foi responsável pela morte de, ao menos, 158 pessoas e mais de 6.000 feridos na semana passada.

A demissão do governo de Diab, no entanto, pode não ser suficiente para essa população que pede a reformulação completa do sistema político. O presidente Michel Aoun, um cristão maronita, continua como chefe do Executivo, assim como o parlamento segue sob a presidência de Nabih Berri, um muçulmano xiita.

Os manifestantes acusam o sistema político de manter as mesmas famílias no poder com um governo corrupto e ineficiente.

Explosão despertou fúria popular

O primeiro-ministro tinha assumido o poder em janeiro, após a demissão de Saad Hariri, apeado de seu posto pelos numerosos protestos que tomarem as ruas do Líbano em 2019. O governo de Diab tinha apoio do Hezbollah, o partido-milícia xiita sustentado pelo Irã.

A crise política parecia ter arrefecido com a chegada da pandemia do coronavírus, apesar de uma grave crise econômica que empobreceu a população --metade dos libaneses vivem atualmente na linha da pobreza. Contudo, as explosões da última terça-feira (4) reacenderam a raiva popular. As vozes das ruas responsabilizam os líderes da classe política pela tragédia e exigiam a renúncia.

No final de semana, os protestos foram grandes e tomaram prédios oficiais, como o Ministério de Relações Exteriores.

Apesar da forte repressão policial, os libaneses continuaram nas ruas. Em resposta aos protestos, Diab havia anunciado na televisão que chamaria eleições parlamentares antecipadas para trocar o governo, mas pretendia ficar no poder ao longo de dois meses até que o novo grupo fosse eleito.

Os protestos nas ruas de Beirute nos últimos dias foram reprimidos com bombas de gás lacrimogêneo e violência.
Os protestos nas ruas de Beirute nos últimos dias foram reprimidos com bombas de gás lacrimogêneo e violência. REUTERS/Hannah McKay

 

Demissão em cascata

No entanto, a ministra da Informação, Manal Abdel Samad, e o ministro do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Damianos Kattar, abandonaram seus postos no domingo (9).

"Peço desculpas aos libaneses, não pudemos atender às suas expectativas", afirmou Manal Abdel Samad ao anunciar sua demissão. Poucas horas depois, o Ministro do Meio Ambiente e Desenvolvimento Administrativo, Damianos Kattar, anunciou sua saída do governo “diante da enorme catástrofe (...) e (...) de um regime estéril que falhou em muitas oportunidades”.

O movimento foi seguido nesta segunda-feira pelos ministros da Justiça, Marie-Claude Najm, e das Finanças, Ghazi Wazni.

 

Em Beirute, Emmanuel Macron foi interpelado por libaneses que pediam ajuda para a mudança de governo.
Em Beirute, Emmanuel Macron foi interpelado por libaneses que pediam ajuda para a mudança de governo. Thibault Camus / POOL / AFP

 

 

Governo de unidade nacional

A França, com o apoio dos países ocidentais, pressiona pela formação de um governo de unidade nacional. Em visita a Beirute na semana passada, o presidente francês Emmanuel Macron deixou isso claro. Mas essa ideia não é unânime entre as forças políticas do país.

Vários países anunciaram que vão distribuir "diretamente" à população os 252,7 milhões de euros de ajuda prometida às vítimas das explosões.

E exigiram uma investigação "transparente" sobre as causas do desastre que deixou quase 300.000 desabrigados, aos quais o governo ainda não prestou assistência.

No final da tarde de segunda, o chanceler francês, Jean-Yves le Drian, pediu rapidez na formação de um novo governo que seja capaz de responder aos principais desafios do país: a reconstrução de Beirute e as reformas políticas necessárias.

(Com informações da AFP e da Reuters)

 

 

 

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