Belarus: foco de uma nova crise entre potências na Europa?

Moradores de Minsk fizeram nesta quinta-feira uma procissão religiosa pelas ruas da capital, acompanhados de padres e de um cortejo de centenas de mulheres, para denunciar o resultado fraudulento da eleição presidencial de domingo.
Moradores de Minsk fizeram nesta quinta-feira uma procissão religiosa pelas ruas da capital, acompanhados de padres e de um cortejo de centenas de mulheres, para denunciar o resultado fraudulento da eleição presidencial de domingo. REUTERS - VASILY FEDOSENKO

A repressão pós-eleitoral na Belarus ganha contornos de uma nova crise internacional. Manifestantes protestam desde domingo (9) contra a reeleição de Alexander Lukachenko para um sexto mandato presidencial, após mais de um quarto de século de governo autoritário. A polícia trocou os projéteis de borracha por balas reais. Com dois mortos, 300 feridos e 6.700 pessoas presas, a violência do regime se intensifica apesar da indignação da comunidade internacional.

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Os bielorrussos voltaram às ruas nesta quinta-feira (13) formando correntes humanas para denunciar a repressão e a fraude eleitoral. Eles rejeitam a vitória de Lukachenko, por 80% dos votos, contra a opositora Svetlana Tikhanovskaya, que se refugiou na vizinha Lituânia desde terça-feira (11) depois de sofrer pressões do poder em Minsk. Após quatro noites de enfrentamentos violentos entre policiais e bielorrussos, que exigem a saída de Lukachenko, a população resiste convocando marchas pacíficas pelas redes sociais.

Uma procissão religiosa pelas ruas de Minsk reuniu hoje padres e famílias que pedem mudanças no governo. Os fiéis se ajoelharam com bíblias nas mãos para pedir pacificamente uma transição do país. Dezenas de mulheres, muitas vestidas de branco, com coroas de flores na cabeça e buquês nas mãos, percorreram ruas do centro da capital em um cortejo para denunciar a violência da polícia e exigir a renúncia de Lukachenko.  

Vários manifestantes que foram libertados nesta quinta-feira (13) do centro de detenção Okrestina, na capital, relataram à agência Reuters que eram retirados de suas células durante a madrugada para ser espancados. O opositor Serguei contou que esteve preso junto com 28 pessoas, em uma cela com capacidade para cinco detentos. Eles receberam apenas um pedaço de pão para comer em dois dias. Outro manifestante libertado, Vartan Grigorian, tinha marcas de agressão no rosto. "Fui preso e agredido, mas depois de passar mal me levaram para o hospital de ambulância". Lioudmila, hospitalizada perto do centro de detenção, afirmou que podia ouvir os gritos dos prisioneiros à distância.

Especialistas em direitos humanos da ONU denunciaram a atuação brutal do regime e as detenções em "grande escala". “Estamos escandalizados com a violência policial contra manifestantes e jornalistas pacíficos”, declaram esses especialistas independentes, mandatados pelas Nações Unidas, mas cuja opinião não compromete a organização internacional. "Pedimos à comunidade internacional que intensifique a pressão sobre o governo da Belarus para que pare de atacar violentamente seus próprios cidadãos que exercem seus direitos básicos", disseram em um comunicado. De acordo com eles, "pelo menos 50 jornalistas, blogueiros, defensores dos direitos humanos e ativistas foram presos e perseguidos nas últimas semanas, e vários estão sujeitos a investigações criminais por supostamente incitar a agitação pública".

Em visita à Eslovênia, o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, propôs aos europeus que trabalhem junto com os Estados Unidos para encontrar uma solução à crise política na Belarus. Na véspera, Pompeo havia feito um apelo às autoridades da Belarus para respeitarem "as liberdades almejadas" pela população. "Estou convencido de que a União Europeia (UE) e os Estados Unidos compartilham as mesmas preocupações sobre o que aconteceu e está acontecendo na Belarus", disse Pompeo durante visita à Eslovênia. "Estou otimista de que podemos trabalhar juntos de uma certa forma", acrescentou o secretário de Estado dos EUA.

Reunião extraordinária em Bruxelas

Os ministros europeus das Relações Exteriores devem discutir a crise na ex-república soviética em uma reunião extraordinária que farão nesta sexta-feira (14), em Bruxelas. Alguns membros do bloco pedem a reintrodução de sanções contra as autoridades no poder em Minsk. A Eslovênia, membro da União Europeia desde 2004, se declarou a favor de novas eleições na Belarus, cujo resultado seria garantido por observadores internacionais. A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que tem enviado observadores à Belarus desde 2001, não foi convidada a monitorar as eleições de domingo.

A Hungria afirma ter discutido a situação com a Letônia, que faz fronteira com a Belarus. Os dois países da União Europeia defendem uma solução "com base no diálogo e não prejudicando as relações futuras entre o bloco e a Bielarus, nem a Parceria Oriental", afirma uma nota divulgada pelo governo húngaro nas redes sociais. A Parceria Oriental é um programa de cooperação proposto pelos membros da União Europeia a seis países vizinhos que possuem fronteiras com o bloco, incluindo a Belarus. Minsk anunciou quinta-feira a prisão de cerca de 700 manifestantes no dia anterior, no quarto dia de um protesto que deixou dois mortos.

O ministério das Relações Exteriores da Rússia divulgou uma nota denunciando "tentativas estrangeiras de 'desestabilizar' a Belarus". Moscou vê "tentativas claras de interferência estrangeira com o objetivo de dividir a sociedade e desestabilizar a situação", disse a porta-voz da diplomacia russa Maria Zakharova em um encontro com jornalistas. “Pedimos a todos moderação (...) e esperamos que a situação no país volte logo ao normal”, frisou Zakharova. “A Rússia foi e continua a ser uma aliada e amiga do fraterno povo bielorrusso”, assegurou ela.

Na semana anterior à votação, Lukachenko acusou a Rússia de enviar milícias para a capital e cidades no sul do país, a fim de perturbar a atmosfera da votação. Mas depois da divulgação dos resultados, o presidente russo, Vladimir Putin, parabenizou Lukachenko .

Repressão brutal

Na quarta-feira (12), as autoridades bielorrussas confirmaram a morte de um manifestante detido na primeira noite de protestos. O Comitê de Investigação informou que o jovem, de 25 anos, morreu no hospital, sem dar uma data exata, após ter sido preso no domingo em uma "manifestação não autorizada" e depois de seu estado de saúde "se deteriorar de repente" durante a prisão. A causa da morte é incerta, mas uma rádio local informou que a mãe do jovem disse que o filho tinha problemas no coração e que havia ficado detido por várias horas em uma delegacia.

A polícia havia informado da morte de outro manifestante após a explosão na própria mão da vítima de um artefato que ele pretendia lançar contra as forças de segurança na segunda-feira. A repressão brutal tem sido a tônica contra as manifestações registradas em todo o país desde que a vitória de Lukachenko, no poder há 26 anos, foi oficializada.

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