Colecionadores de fósseis: moda entre ricos prejudica pesquisa científica

Como um Jeff Koons em um salão de beleza, os compradores procuram aquele “efeito uau” que cativará o visitante.
Como um Jeff Koons em um salão de beleza, os compradores procuram aquele “efeito uau” que cativará o visitante. © arquivo pessoal

Caçadores contemporâneos de dinossauros. O diário Le Monde traz uma matéria especial sobre entusiastas ricos que colecionam fósseis de dinossauros como quem coleciona obras de arte. Nas casas de leilão, eles conquistam as relíquias dos grandes sáurios extintos por milhões de dólares. Uma especulação que obriga paleontólogos e museus a pedirem ajuda a esses novos mecenas.

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A publicação relata uma cena na casa de leilões Drouot. A disputa durou cerca de vinte minutos: o licitante chinês estava fazendo pedidos por telefone. Seu oponente filipino, apostando freneticamente, respondeu golpe após golpe. O objeto de desejo comum acomodado majestosamente no estrado, banhado por uma luz quente, era um esqueleto de um alossauro de 150 milhões de anos - sessenta dentes afiados no sorriso. Seu companheiro, o diplodocus, com 12 metros do focinho até a cauda, era grande demais para subir no pódio.

O “árbitro” deu a vitória ao filipino por € 2,8 milhões pelo par de dinossauros fossilizados. Três vezes a estimativa inicial. O lote de mais de 400 ossos será montado como um Lego no centro da vasta sala do comprador, um magnata da alta tecnologia de trinta e poucos anos.

Mas essa febre pelos "dinossauros" está longe de deixar todo mundo feliz. O aumento de preços incomoda paleontólogos em museus e centros de pesquisa públicos, releva o diário francês. Eles se revoltam com o confisco de seus objetos de estudo por colecionadores endinheirados, mais interessados na exibição do que no aprofundamento do conhecimento.

"Uma perda irrecuperável para a ciência"

Emily Rayfield, pesquisadora da Universidade de Bristol e presidente da Society of Vertebrate Paleontology, explica que “cada fóssil vendido a um indivíduo é uma perda irrecuperável para a Ciência”. No ano passado, a instituição assinou uma declaração criticando um anúncio postado online. Um bebê T-Rex, que morreu aos 4 anos de idade, chamado "Filho de Samson", foi oferecido no site eBay a um preço de US$ 2,95 milhões. 

Os estabelecimentos públicos não podem competir com esses preços. Nem mesmo o Museu de História Natural de Londres, cujo orçamento anual soma apenas dezenas de milhares de euros - que também se aplicam a meteoritos e pedras preciosas. O professor Paul Barrett, paleontólogo da instituição britânica, afirma que os preços "das peças mais icônicas estão enlouquecendo".

Desde então, os filantropos também se tornaram espécimes particularmente procurados. Niels Nielsen pertence a esta espécie. Este próspero investidor dinamarquês, residente em Londres, empresta simultaneamente seis grandes fósseis a museus europeus. Seu tiranossauro mais célebre, chamado Tristão - como um de seus filhos - está, por exemplo, instalado há cinco anos no Museu de História Natural de Berlim.

“É um tema polêmico, mas sejamos claros: os museus não têm dinheiro. É necessário, portanto, estabelecer uma colaboração com proprietários privados, como existe no mundo da arte", sugere o patrono dinamarquês. "Ninguém se ofende quando um quadro de um rico colecionador é emprestado para uma exposição. Não vejo por que os dinossauros não deveriam ser iguais. Precisamos acabar com o raciocínio antiquado e democratizar os fósseis!"

Em casa, Nielsen está satisfeito com os ossos de alguns pequenos pássaros, ou pequenas relíquias, incluindo um dente de T-Rex comprado por US$ 5 mil. O ponto de partida de sua paixão consumidora.

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