Tribunal da ONU diz não ter evidências de envolvimento da direção do Hezbollah e do governo sírio no assassinato de Hariri

O ex-primeiro-ministro Rafic Hariri foi vítima de um atentado a bomba em fevereiro de 2005, em Beirute.
O ex-primeiro-ministro Rafic Hariri foi vítima de um atentado a bomba em fevereiro de 2005, em Beirute. Reuters/ Jamal Saidi

Um juiz do Tribunal Especial das Nações Unidas para o Líbano (STL) declarou nesta terça-feira (18) que não há qualquer evidência de envolvimento da direção do Hezbollah, o movimento xiita libanês, no atentado com uma caminhonete-bomba que matou o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri e outras 21 pessoas, em 14 de fevereiro de 2005, em Beirute.

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O TSL, que fica nos subúrbios de Haia, na Holanda, iniciou a leitura do veredicto deste longo processo e anunciou que também não havia evidências de uma implicação direta do governo sírio nesse ataque.

O tribunal considerou que a Síria e o Hezbollah poderiam ter razões para eliminar Hariri e seus aliados políticos. "No entanto, não há evidências de qualquer implicação da liderança do Hezbollah no assassinato (...), tampouco evidência direta de um envolvimento da Síria", disse o juiz David Re, durante a leitura da decisão do tribunal.

Quatro homens são acusados de participação no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês, uma etapa fundamental em um longo e caro processo no qual os suspeitos continuam em liberdade. Os réus, todos membros do grupo armado xiita Hezbollah, financiado pelo Irã, são julgados à revelia. O movimento xiita, que sempre negou qualquer envolvimento no ataque, se opôs a entregar os suspeitos, apesar de vários mandados de prisão expedidos pelo TSL.

O assassinato do ex-premiê e bilionário sunita, pelo qual quatro generais libaneses foram inicialmente acusados, desencadeou uma onda de protestos que forçou a retirada das tropas sírias do Líbano, após 30 anos de ocupação.

Este tribunal, estabelecido em 2007 após uma resolução do Conselho de Segurança da ONU a pedido do Líbano, "tem sido altamente questionado desde a sua criação" e representou um custo de "vários milhões de dólares" para o Estado libanês, disse há alguns dias Karim Bitar, professor de Relações Internacionais em Paris e Beirute. A divulgação do veredito estava prevista para o dia 7 de agosto, mas foi adiada devido à explosão do dia 4 na capital libanesa.

O veredito, cuja leitura começou pela manhã e deve durar várias horas, pode acentuar ainda mais as divisões de uma sociedade libanesa polarizada, em um país que já enfrenta uma crise econômica sem precedentes, um aumento da epidemia de Covid-19 e as consequências do desastre de 4 de agosto.

Homicídio doloso

Premiê libanês até sua renúncia em 2004, Hariri foi morto em fevereiro de 2005, quando um homem detonou uma caminhonete-bomba durante a passagem da comitiva blindada de Hariri. O ataque deixou 22 mortos e 256 feridos.

O primeiro suspeito, Salim Ayyash, 50 anos, foi acusado de "homicídio doloso" e de ter liderado a equipe que cometeu o ataque. Outros dois homens – Hussein Oneisi, 46 anos, e Asad Sabra, 43 anos, estão sendo julgados por filmarem um vídeo que reivindicava a autoria do crime em nome de um grupo fictício. O último acusado, Hassan Habib Merhi, 52 anos, enfrenta várias acusações, incluindo cumplicidade em um ato terrorista e conspiração para cometê-lo.

Mustafa Badreddin, o principal suspeito e apresentado como o "cérebro" do atentado, não pôde ser julgado por ter morrido alguns anos após os eventos.

Os acusados podem ser condenados a penas de prisão perpétua.

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