Caso Navalny: Merkel e Macron pedem "transparência" sobre estado de saúde de opositor russo

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, no forte de Brégançon, no sul da França.
O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, no forte de Brégançon, no sul da França. Christophe Simon/Pool via REUTERS

A França e a Alemanha se declaram dispostas a receber o líder de oposição russo Alexei Navalny, 44 anos, hospitalizado em estado de coma na Sibéria, possivelmente depois de sofrer um envenenamento nesta quinta-feira (20). Em uma coletiva de imprensa conjunta no forte de Brégançon (sul), residência de verão do presidente francês, Emmanuel Macron e Angela Merkel afirmaram estar "extremamente preocupados" com a situação de Navalny e dispostos a "oferecer toda a ajuda médica necessária" ao opositor russo, "inclusive asilo, se o seu estado de saúde permitir", destacou Merkel.

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"É preciso esclarecer urgentemente o que aconteceu", insistiu a chanceler alemã, reclamando "transparência" por parte da Rússia. Merkel, cujo país assegura atualmente a presidência rotativa da União Europeia, reuniu-se com Macron em um momento de grande pressão interna no bloco e no plano internacional. A dupla busca transmitir uma imagem de união, confiança mútua e bom entendimento sobre as melhores diretrizes para o bloco.

Recebida pela primeira vez em Brégançon, Merkel reuniu-se com Macron por mais de duas horas. Um mês após o acordo alcançado no Conselho Europeu sobre o desbloqueio de € 750 bilhões para financiar os planos nacionais de ajuda em um contexto econômico difícil pela pandemia do novo coronavírus, Macron falou da possibilidade de lançar "grandes projetos franco-alemães".

Ao iniciar a coletiva, Macron disse que estava "preocupado e entristecido" com a situação de Navalny, considerado um inimigo pelo presidente russo, Vladimir Putin. Macron afirmou que as notícias provenientes da Sibéria são "extremamente inquietantes" e assegurou que os europeus acompanhavam a situação de perto. "Seremos vigilantes sobre a evolução do caso e as investigações", destacou o chefe de Estado francês.

A ONG alemã "Cinema for Peace" fretou um avião UTI, com o objetivo de transportar Navalny para um hospital em Berlim. O presidente da ONG, Jaka Bizilj, disse que o avião sanitário irá decolar da capital alemã à meia-noite pelo horário local, 19 horas pelo horário de Brasília. Ele espera obter o consentimento das diferentes autoridades nos dois países para realizar essa operação.

Crises internacionais

No capítulo internacional, os dois líderes abordaram várias frentes de tensão.

Em relação à crise política em Belarus, às portas da Europa, Macron disse que a União Europeia poderá desempenhar um papel de mediação na crise deflagrada pela contestada reeleição do presidente Alexander Lukashenko, há 26 anos no poder. Essa mediação poderia ocorrer por meio da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), mas ele espera que o regime, a oposição e a sociedade civil bielorussa encontrem uma solução e Lukashenko abandone a repressão contra os manifestantes de oposição.

A respeito da Turquia, Macron declarou que França e Alemanha irão atuar de forma complementar para defender "a estabilidade e a soberania europeia no leste do Mediterrâneo", em referência a um novo litígio criado pelo presidente turco, Recep Erdogan, com a vizinha Grécia.

A Turquia tem enviado navios para prospecção de gás e petróleo em águas da Grécia. A pedido de Atenas, a Marinha francesa reforçou o patrulhamnento na área em disputa. Mas Merkel, que teme a chegada de uma nova onda de refugiados acolhidos no território turco com recursos disponibilizados pelos europeus, busca contemporizar com Erdogan. "Podemos enviar navios, mas também nos comprometemos a trabalhar pelo restabelecimento do diálogo entre a Grécia e a Turquia e que isso resulte em um projeto conjunto", explicou a chanceler.

O golpe militar no Mali, que pegou o governo francês de surpresa nesta semana, também esteve nas conversas com Merkel. Os dois líderes mais uma vez condenaram o golpe que destituiu o presidente Ibrahim Boubacar Keita. Segundo Macron, o Exército francês e seus parceiros só se envolveram no combate aos grupos jihadistas salafistas no Sahel a pedido de países da região. Macron reafirmou que os soldados franceses da operação Barkane continuarão no Mali, "porque nada deve desviar nossa atenção da luta contra os jihadistas". 

Apesar da pesada agenda diplomática, Macron e Merkel evocaram no fim da coletiva a final da Liga dos Campeões, no próximo domingo, em Lisboa, entre o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique. "Nós vamos assistir o jogo, mas cada um na frente dos nossos aparelhos de TV", disse Macron com um sorriso.

Os líderes europeus têm mantido um ritmo forte de trabalho, apesar do período tradicional de recesso de verão. A situação exige.

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