Mutação sofrida pelo novo coronavírus pode tê-lo tornado mais contagioso e menos perigoso

Mulher é testada para o Sars-Cov-2 em Roma, em agosto de 2020. Vírus pode estar mais contagioso, mas menos virulento, segundo três novos estudos.
Mulher é testada para o Sars-Cov-2 em Roma, em agosto de 2020. Vírus pode estar mais contagioso, mas menos virulento, segundo três novos estudos. AFP

O jornal Les Echos desta sexta-feira (21) traz a repercussão de três estudos científicos que mostram que o coronavírus SARS-CoV-2, responsável pela pandemia de Covid-19, está se tornando mais contagioso, mas ao mesmo tempo, menos perigoso.  

Publicidade

O coronavírus responsável pela Covid-19 teria sofrido uma mutação genética que, embora o torne mais contagioso, ao mesmo tempo faria com que ele perdesse sua virulência. Pelo menos três estudos científicos, incluindo um na revista "Cell" de 3 de julho, apoiaram esta tese, retransmitida em particular pelo presidente da Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas, Paul Tambyah.

O estudo da “Cell” e os outros dois chamam atenção para a mutação “D614G”, que proliferou nos últimos meses a ponto de se tornar dominante em uma escala planetária, diz Les Echos.

Enquanto antes de 1º de março essa variante D614G só era observada em 10% das sequências genéticas do vírus triadas pelos pesquisadores, ela foi encontrada, a partir do mês seguinte, em 78% das sequências. Essa mutação é crucial porque afeta o chamado gene Spike, que codifica a proteína de mesmo nome, graças à qual o vírus se liga aos receptores nas células humanas.

Ao aumentar a capacidade do vírus de se ligar às células e entrar nelas --daí, provavelmente, o forte potencial de contágio associado a esta cepa -, essa mutação também tem o efeito de reduzir sua capacidade de causar doenças mais graves. Após essa mutação, o vírus se espalharia mais facilmente na população humana, mas causaria menos danos.

França volta a ver crescimento de novos casos

Entrevistado por Les Echos, Patrick Berche, membro da Academia de Medicina e ex-Diretor Geral do Institut Pasteur em Lille, afirma que esta mutação D614G e seu aumento na população de vírus poderiam explicar os números altos de casos registrados nas últimas semanas na França.

Enquanto o número de contaminações está aumentando drasticamente - a França registrou 3.776 adicionais em 19 de agosto e 4.771 casos na quinta-feira (20), o número de pacientes hospitalizados e em UTI não se alteraram da mesma maneira.

Patrick Berche, contudo, alerta que essa explicação pela mutação genética ainda é apenas uma hipótese.

Outra possível explicação para não termos tantos casos graves é que o vírus agora está se espalhando em populações mais jovens e, portanto, mais resistentes. "No entanto, esse desenvolvimento recente me deixa mais otimista com relação ao futuro do que há algumas semanas", afirmou o pesquisador.

O decurso mais comum das epidemias -sendo a gripe espanhola de 1918-1919 uma exceção a esse respeito- é que as mutações de um vírus que se tornou endêmico o tornem menos perigoso com o passar do tempo. É do seu interesse: um vírus, "programado" para proliferar e se espalhar o máximo possível, não tem nada a ganhar matando seus organismos hospedeiros muito rapidamente.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.