Belarus: manifestantes promovem novo protesto histórico contra Lukashenko

Agitando bandeiras brancas e vermelhas, as cores da oposição, a multidão se reuniu no centro de Minsk, cantando em coro gritos de “liberdade!”.
Agitando bandeiras brancas e vermelhas, as cores da oposição, a multidão se reuniu no centro de Minsk, cantando em coro gritos de “liberdade!”. REUTERS - VASILY FEDOSENKO

Dezenas de milhares de bielorrussos protestam em Minsk neste domingo (23) para denunciar a reeleição do presidente Alexander Lukashenko, que enfrenta um movimento histórico de protestos há duas semanas. Agitando bandeiras brancas e vermelhas, as cores da oposição, a multidão se reuniu na Praça da Independência e nas ruas ao redor, cantando em coro gritos de “liberdade!”. Mídias e contas do Telegram ligadas à oposição relatam mais de 100.000 manifestantes na capital bielorrussa pelo segundo domingo consecutivo.

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No poder há 26 anos, Alexandre Lukashenko, 65, prometeu "resolver o problema" do conflito, em sua opinião motivado por uma conspiração do Ocidente, e até colocou o exército em alerta neste sábado (22), acusando a OTAN de manobras nas fronteiras de Belarus.

Milhares de pessoas, incluindo trabalhadores da icônica fábrica de tratores MTZ, marcharam em direção ao centro da capital Minsk, acenando bandeiras nas cores branca e vermelha (primeira bandeira de Belarus independente da União Soviética de 1991 a 1995). Uma vez reunidos no centro da cidade, milhares de manifestantes gritavam, entre outras frases de protesto, "Lukashenko no camburão!".

Forças de ordem antimotins, especialmente armadas com canhões d'água, foram enviadas em grande número ao local. Pouco antes do início da manifestação, o Ministério do Interior se pronunciou contrário às “reuniões ilegítimas" e alertou os cidadãos para que "agissem com inteligência".

O Ministério da Defesa alertou que, em caso de agitação perto dos memoriais da Segunda Guerra Mundial, locais de protestos nas últimas duas semanas, responsáveis teriam que se ver "não com a polícia, mas com o exército".

Os opositores esperam repetir neste domingo o sucesso de 16 de agosto, quando mais de 100.000 pessoas se manifestaram em Minsk para denunciar a reeleição de Lukashenko em 9 de agosto, que consideram fraudulenta, assim como a repressão brutal às manifestações.

"Continuem!"

"Estou muito orgulhosa dos bielorrussos que, após 26 anos de medo, estão prontos para defender seus direitos", declarou a líder da oposição Svetlana Tikhanovskaia, refugiada na Lituânia, que afirma ter ganho a eleição. "Peço que continuem", acrescentou ela.

Após duas semanas de ações de protesto, a manifestação deste domingo deve provar que a oposição pode impor um impasse de longo prazo a Lukashenko, a fim de forçá-lo a negociar sua saída. O presidente bielorrusso tem se mantido de pé até agora e contado com a lealdade do exército, da polícia e dos serviços secretos, embora tenham sido registradas deserções na mídia estatal e em empresas públicas.

Apoiadores do presidente também organizam demonstrações de apoio com carreatas.

No sábado (22), Alexander Lukashenko aproveitou uma inspeção de unidades militares implantadas perto da fronteira polonesa para apresentar seu protesto contra “um complô tramado no exterior”. Ele colocou as Forças Armadas em alerta "para defender a integridade territorial" de seu país, ameaçado em sua opinião por "grandes atos das forças da OTAN perto das fronteiras”, em territórios da Polônia e da Lituânia. A Aliança negou qualquer "reforço militar na região".

Svetlana Tikhanovskaya, por sua vez, denunciou a tentativa de "desviar (a atenção) de problemas internos". Antes da votação, o presidente bielorrusso acusou a Rússia de Vladimir Putin de trabalhar discretamente para derrubá-lo, mas, diante da onda de protestos, ele mudou radicalmente seu discurso e passou a se orgulhar do apoio do Kremlin em sua luta face às tentativas ocidentais de desestabilização.  

Apoio russo 

As autoridades bielorrussas também iniciaram esta semana procedimentos por "ataques à segurança nacional" contra o "Conselho de Coordenação" formado pela oposição para promover uma transição política pós-eleitoral.  Lukashenko ameaçou os grevistas que contestavam seu poder com represálias, citando demissões ou fechamento de linhas de produção.

Esta tática parece estar dando resultados: o número de greves nas fábricas estatais, os pilares do sistema econômico e social de Belarus, caiu esta semana. O presidente também substituiu membros da equipe editorial da mídia estatal por jornalistas da Rússia. Moscou, por sua vez, anunciou seu apoio a Alexander Lukashenko, apesar das tensas relações nos últimos meses, enquanto a União Europeia planeja aumentar as sanções contra a potência bielorrussa.

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