Crises na América Latina intensificam novo papel social da Igreja Católica

A manchete de capa do diário La Croix destaca o papel da igreja na América Latina, que têm feito suas vozes cada vez mais ouvidas nos últimos meses, cruzando amplamente o Rubicão da esfera política.
A manchete de capa do diário La Croix destaca o papel da igreja na América Latina, que têm feito suas vozes cada vez mais ouvidas nos últimos meses, cruzando amplamente o Rubicão da esfera política. © Fotomontagem RFI

As convulsões políticas, a Covid-19 e a iminente crise socioeconômica estão dando nova projeção ao papel da igreja católica na América Latina. A manchete de capa do diário católico La Croix destaca nesta terça-feira (25) como nesta parte do mundo, os bispos não titubeiam em responsabilizar os governantes e fazer acusações de corrupção e de ataques à democracia.

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Ao denunciar o “demônio da corrupção”, o cardeal Oscar Maradiaga, Arcebispo de Tegucigalpa, em Honduras, declara que “os líderes políticos, sociais e econômicos não devem nos colocar neste impasse que só nos levará a mais pobreza e mais violência”.

Como esse amigo próximo do Papa Francisco, outros bispos da América Latina têm alçado suas vozes nos últimos meses, atravessando as fronteiras e entrando na esfera política.

No último domingo (23), o Conselho Episcopal Latino-americano enviou uma carta a todos os chefes de Estado e líderes da região para "insistir que todas as políticas públicas sejam acima de tudo orientadas a favor dos mais pobres”. Se na América Latina, berço da Teologia da Libertação, os bispos sempre estiveram presentes no campo social, agora suas intervenções políticas estão mais inflamadas, devido às tensões políticas e àquelas causadas pela pandemia da Covid-19, aponta o jornal católico.

No artigo, Jean-Pierre Bastian, professor emérito de sociologia das religiões da Universidade de Estrasburgo, lembra que “a Igreja sempre desempenhou um papel central na América Latina”, e que o contexto atual, de conjunção de crises, violência, pobreza e recessão anunciada, favorece a expressão da voz política dos bispos".

Hugo José Suárez, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México, acrescenta que “neste continente, a Igreja Católica está imersa na vida social. Sua voz, portanto, não é apenas religiosa, mas também política”.

Já José Darío Rodriguez Cadros, doutor em estudos políticos pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, afirma que “quando a vida e a dignidade das pessoas estão em perigo, os bispos não têm medo de ter uma voz política para se opor a isso”.

Cadros acredita que a proliferação de revelações de escândalos de abusos cometidos por membros do clero teria afastado os bispos do discurso sobre moralidade para redirecioná-los para a economia, justiça, saúde ou mesmo a educação.

O conclave que escolheu o Papa Francisco, em 2013, teria reforçado o sentimento de legitimidade dos bispos latino-americanos para investir no campo sociopolítico.

Carta dos bispos do Brasil

O jornal francês lembra o caso do Brasil, onde alguns bispos não deixam de se opor às políticas lideradas por Jair Bolsonaro. Mais de 150 deles co-assinaram uma carta no mês passado, denunciando a "incapacidade e incompetência do governo federal" face à crise sanitária da Covid-19.

No Equador, a Conferência Episcopal em meados de maio criticou duramente um "Estado endividado, incapaz de cumprir suas obrigações". Na mesma ocasião, os bispos expressaram sua "profunda indignação" com "a pandemia de corrupção" que afeta o país.

Jean-Pierre Bastian afirma que “a Igreja na América Latina é agora porta-voz e defesa da social-democracia” e que “os episcopados têm assumido posições muito firmes contra o populismo. Isso é particularmente verdadeiro em face a regimes autoritários como o da Nicarágua e da Venezuela, onde os bispos estão na linha de frente do protesto contra a repressão dos opositores, a exemplo de Dom Silvio Báez, bispo auxiliar de Manágua, que denunciou no último domingo "a estratégia repressiva da ditadura na Nicarágua lançada contra toda a população".

Ator historicamente importante, a Igreja Católica viu sua posição de poder ser desgastada pela combinação da urbanização, da secularização, do crescimento dos movimentos pentecostais e das denúncias de abusos sexuais em seu seio. Bastian acredita que, ao atacar o poder local, ao ter uma voz política, “a Igreja tem um meio - consciente ou não - de voltar ao centro do jogo.

 

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