Meio Ambiente

Conheça o Gink: movimento que milita contra a procriação humana para salvar o planeta

Áudio 06:30
COP 24: Não tem filhos, seria uma forma de salvar o planeta?
COP 24: Não tem filhos, seria uma forma de salvar o planeta? © Image par Gerd Altmann de Pixabay

Renunciar à maternidade ou à paternidade para salvar o planeta: esse é o conceito do movimento chamado de "Gink" (Green Inclination, No Kids), algo como "engajamento verde, não aos filhos". A tendência ainda é nova, mas vem encontrando cada vez mais adeptos. Para os seguidores, a superpopulação é responsável pelos problemas ambientais, e frear a natalidade pode contribuir para o futuro da humanidade.

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"Não quero ter filhos por razões ecológicas. Por isso, eu optei por uma vasectomia. Então, não apenas eu não quero filhos como não os terei jamais", afirma Sereb, técnico de espetáculo de 32 anos, de Grenoble. 

O francês considera que todo ser humano é um poluidor potencial e, diante do aumento populacional vertiginoso, a vida no planeta será cada vez mais complexa. Ele lembra que atualmente as mais de 7,63 bilhões de pessoas no mundo consomem por ano 170% dos recursos que a Terra é capaz de produzir.

"Fazer um filho hoje, tendo consciência de todas as dificuldades ambientais, seria submeter alguém a uma vida mais complicada do que a nossa, em termos de energia, de alimentação, de acesso à água potável, com essa natureza cada vez mais degradada. E, por enquanto, não há nenhum sinal de mudança de cenário. Além disso, também sinto o peso da responsabilidade em relação àqueles que já existem - sejam humanos ou o resto da biodiversidade - e que já sofrem o impacto da superpopulação", explica. 

Apesar do aumento da preocupação com o meio ambiente e do engajamento em movimentos verdes, ainda é baixa a quantidade de pessoas que decide não ter filhos na França. Segundo o Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined), apenas 4,3% das mulheres e 6,3% dos homens renunciam a essa ideia. 

A estudante de arte Valentine, de Toulouse, no sudoeste da França, é uma delas. Ela tem apenas 20 anos e a certeza de que não deixará descendentes.

"Eu mesma temo por meu futuro porque sou jovem e não sei como será minha vida em um mundo onde há cada vez menos água potável, cada vez mais poluição e catástrofes naturais. Eu não me vejo impondo isso a uma criança que vai viver mais tempo que eu e que vai enfrentar problemas mais graves", diz.

A jovem diz sofrer pressão em seu grupo de amigos, que acreditam que ela vá mudar de ideia quando for mais velha. Mas Valentine não pretende voltar atrás.

"Sinceramente, é pouco provável que eu mude de opinião. Estou certa da minha decisão e tenho outros motivos além dos ecológicos. Além disso, em um futuro próximo, pretendo fazer uma ligadura de trompas", reitera.

Feminismo é mais forte que engajamento ambiental

Para tratar da renúncia à maternidade, a militante feminista Paola, de 29 anos, criou o perfil Ovaires Out no Instagram. Especializada em saúde da mulher, ela resolveu realizar uma pesquisa sobre o desejo de ser mãe. Os resultados de um questionário aplicado a uma amostra de cerca de 500 mulheres mostraram que ainda é baixa a quantidade de mulheres que evocam o engajamento ambiental como a única justificativa para não querer filhos. 

"Frequentemente, renunciar à maternidade faz parte de algo mais amplo para as mulheres. Não é apenas a preocupação com o meio ambiente que vai motivá-las a não querer ter filhos, mas elas vão dizer que já tem muita gente na Terra e que o mundo já está ruim deste jeito. Também há uma necessidade de se opor às regras e modelos impostos pela sociedade e o capitalismo. E principalmente porque é uma grande responsabilidade colocar uma criança neste mundo", explica.

Paola, aliás, também não quer ter filhos, mas não devido a um engajamento ecológico. Para ela, antes da questão ambiental, há outros motivos. 

"Primeiramente, a imensa responsabilidade de dar a vida a um ser, educá-lo e torná-lo uma pessoa. Depois há o risco que um filho representa à carreira profissional. Há o risco das violências obstétricas. Há o peso da educação, que frequentemente recai sobre a mulher. E também porque lido com distúrbios alimentares e de ansiedade que eu tenho medo de acentuar com uma gravidez. Essas são razões para muitas outras mulheres também."

Ginks x "Childfree"

Mélanie Bania, doutoranda em Sociologia da Universidade de Limoges, no sudoeste da França, pesquisa sobre a renúncia à maternidade e à paternidade. Ela aponta que, entre as pessoas que não querem procriar, a maioria ainda tem outras razões além da necessidade de proteção do planeta. Esse movimento específico é chamado de "Childfree" (livre de filhos).

No entanto, ela percebe que na França, diante da ascensão de movimentos ecológicos, os "Ginks" vêm cada vez mais ganhando espaço. Não é à toa que o Partido Europa Ecologia Os Verdes foram o grande destaque das últimas eleições municipais, vencendo em várias das maiores cidades do país.

"É preciso lembrar que o meio ambiente não é o principal motivo que leva as pessoas a não terem filhos, mas é algo que vem aumentando. E vemos isso diante de todos os problemas que a Terra enfrenta, como as emissões de CO2, o aquecimento global, o aumento do nível dos oceanos, etc. Isso tem sido cada vez mais levado em conta por essas pessoas, é algo que realmente as preocupa", observa.

Em sua pesquisa, a doutoranda também identificou um grupo mais extremista dentro desses dois movimentos. "Eu diria que é o último nível de engajamento, mais radical. São partidários da extinção da humanidade. Eles defendem o fim definitivo da reprodução dos seres humanos. Não querem mais pessoas no planeta até o desaparecimento completo da raça humana."

"A crueldade de fazer filhos"

O escritor e filósofo belga Théophile de Giraud é um antinatalista assumido e uma das principais vozes deste movimento na Europa. Autor do livro "L'art de guillotiner les procréateurs: Manifeste anti-nataliste" ("A arte de guilhotinar os procriadores: Manifesto antinatalista", em tradução livre), ele afirmou, em entrevista à RFI, que "gostar das crianças é renunciar a colocá-las neste mundo".

"O que pode motivar as pessoas a ter a crueldade de fazer filhos em um planeta onde o sofrimento, os problemas, as doenças, a violência, as obrigações, os distúrbios e deficiências, físicas e psicológicos, transbordam?", questiona. Segundo ele, quem não vem ao mundo não tem nada a perder, ao contrário de quem nasce, "que vai ter a certeza de sofrer, às vezes de forma terrível, a ponto de pensar em suicídio". 

Com a militância antinatalista, De Giraud espera combater a obrigação de procriar imposta pela sociedade. "Meu ativismo procura suscitar a reflexão sobre os benefícios ou não de procriar. Se as pessoas fazem filhos, é menos pela vontade, amor ou benevolência do que por conformismo às obrigações sociais", reitera.

Segundo ele, a maternidade e a paternidade são "uma propaganda" imposta desde a infância. "As pessoas procriam por mimetismo: nós somos condicionados a isso desde pequenos. E essa matraca natalista continua ao longo de toda a nossa vida, seja pela publicidade, filmes, romances, religiões ou discursos políticos, de direita ou de esquerda. Se o Estado, através da escola ou das mídias, incitasse as pessoas a refletir seriamente, antes de colocar uma criança no mundo, a proporção dos 'childfree' teria um aumento vertiginoso", ressalta.

O filósofo e escritor também defende que a desaceleração demográfica é atualmente a única solução crível aos problemas ecológicos. Ele lembra que, em 2017, mais de 15 mil cientistas publicaram uma carta aberta sobre a necessidade de reduzir o crescimento populacional, responsável pela maior parte dos problemas ambientais e sociais. 

"Para diminuir sua marca no meio ambiente, nada é mais eficaz do que não fazer filhos. Cada bebê que nasce é uma parte da Terra que morre. Enfim, em um planeta que agoniza com o peso da quantidade de humanos, um ecologista que procria é agora um ecologista dúbio, para não dizer um traidor à causa", avalia. 

Por isso, De Giraud acredita que a quantidade de pessoas que abandonam a ideia de ter filhos tende a aumentar no futuro. "Parece-me evidente que quanto mais as pessoas forem conscientes da gravidade do problema demográfico, mais eles renunciarão, totalmente ou parcialmente, à procriação por convicção ecológica. Ou seja, considerando as catástrofes ambientais e sociais anunciadas para o meio deste século, não há dúvidas que, a cada vez mais, as pessoas se absterão de fazer filhos. A solução consta de uma só palavra: conscientização", conclui. 

"L'Art de Guillotiner des procréateurs: Manifeste anti-nataliste (A arte de guilhotinar os procriadores: Manifesto Antinatalista, tradução livre), do escritor e filósofo belga Théophile de Giraud.
"L'Art de Guillotiner des procréateurs: Manifeste anti-nataliste (A arte de guilhotinar os procriadores: Manifesto Antinatalista, tradução livre), do escritor e filósofo belga Théophile de Giraud. © Reprodução

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