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Vacinação ainda em 2020? O que sabemos da vacina para Covid-19

A OMS afirma que não espera imunização generalizada contra a Covid-19 antes de meados de 2021, mas até o final do ano podemos ter resultados promissores das primeiras vacinas
A OMS afirma que não espera imunização generalizada contra a Covid-19 antes de meados de 2021, mas até o final do ano podemos ter resultados promissores das primeiras vacinas Russian Direct Investment Fund/AFP/File
Texto por: Cristiane Capuchinho
9 min

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta sexta-feira (4) que não espera a vacinação generalizada da população contra o coronavírus antes de meados de 2021. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump tem falado com frequência na vacina durante seus eventos de campanha para a eleição de novembro, o que colocou em alerta cientistas contra o risco de uma aprovação apressada por motivos políticos. Na Rússia, a fase 3 de testes de uma vacina recebeu um carimbo de “aprovação” de Vladimir Putin, mas que nada diz sobre sua eficácia.

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Onde estamos na corrida pelo desenvolvimento para uma vacina contra a Covid-19 que seja eficiente?

Segundo a OMS, há entre seis e nove candidatas à vacina contra a Covid-19 sendo testadas em larga escala em humanos (fase 3 de testes). Essas vacinas já passaram pelos testes de segurança, que mostram que não há grandes riscos em sua inoculação e pelos testes de resposta imunitária, que indicam se ela provoca o desenvolvimento de anticorpos e células imunitárias no corpo.

Neste momento, elas passam pelo teste em massa para verificar sua eficácia. Nesta fase, grupos com milhares de pessoas recebem a vacina ou um placebo. Os participantes são acompanhados para que seja verificado se o grupo do placebo contrai mais coronavírus de forma natural e fica mais doente do que o grupo vacinado.

A inoculação em milhares de pessoas também permite estudar se a vacina pode ter efeitos secundários diferentes em um grupo com maior diversidade de pacientes.

Os responsáveis pelos testes se concentraram em áreas onde a epidemia foi mais forte, na esperança de que a vacina demonstre seus efeitos mais rapidamente.

Como vão os testes?

A vacina desenvolvida pela Pfizer e pela alemã BioNTech está sendo testada, atualmente, em 23 mil pacientes nos Estados Unidos. A empresa pretende ampliar o número de voluntários para 30 mil, sendo que metade receberá duas doses da vacina e a outra metade receberá um placebo. A vacina da Moderna, também em teste nos EUA, também está sendo aplicada em voluntários em duas doses – com diferença de 28 dias.

Essas duas vacinas são baseadas na tecnologia de RNA mensageiro, um tipo que ainda não comprovou sua eficácia em nenhum tipo de vacina.

A vacina britânica, da Oxford e AstraZeneca, está sendo simultaneamente testada em diversos países, entre eles o Reino Unido, os Estados Unidos e o Brasil.

Na Rússia, o plano de vacinação da Sputnik V é de imunizar 40 mil pessoas na fase 3. Apesar de o presidente Vladimir Putin ter divulgado a aprovação de uma vacina em agosto, a Sputnik V está na mesma fase de testes que as candidatas mais avançadas.

Os resultados das primeiras fases foram publicados nesta sexta-feira (4) na revista científica Lancet e são encorajadores. O teste foi feito com 76 voluntários entre 18 e 60 anos, que apresentaram bons resultados no desenvolvimento de anticorpos e resposta de células imunitárias, sem efeitos secundários graves.

No entanto, o professor François Balloux, diretor do Instituto de Genética da Universidade College de Londres, apontou que mais da metade dos pacientes, jovens e saudáveis, tiveram efeitos secundários leves – próximo do que aconteceu com a vacina de Oxford. “Isso aponta para o risco de casos raros de graves efeitos colaterais quando milhões forem vacinados? Vamos torcer que os resultados da fase 3 sejam tranquilizadores”, comentou.

Ainda em 2020 teremos vacinação?

O CEO da farmacêutica Pfizer, Albert Bourla, afirmou na quinta-feira (3) que a empresa espera ter resultados com dados suficientes da fase 3 de testes até o final de outubro. Entretanto, ele assegurou, em um evento organizado pela Federação Internacional de Empresas Farmacêuticas e Associados, que a empresa não vai tomar qualquer atalho para a aprovação da vacina.

“Nós nunca submeteremos para autorização ou aprovação uma vacina antes que consideremos que ela é segura e efetiva”, afirmou Bourla.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias de Doenças Infecciosas dos EUA, que gerencia os testes da vacina da Moderna, afirmou que os primeiros resultados serão sem dúvida conhecidos por volta de novembro ou dezembro.

Se estes resultados serão bons e suficientes para que uma vacina contra a Covid-19 seja aprovada ainda este ano é a pergunta que todos correm para responder, mas não é possível fazer previsões.

O que se sabe é que a produção de algumas dessas vacinas já começou, mesmo sem saber se elas serão eficientes. O objetivo é que, assim que houver aprovação, já exista um certo estoque produzido para começar a vacinação e ajudar no controle da pandemia de Covid-19 – que já matou mais de 870 mil pessoas em todo o mundo. Mesmo que, para isso, parte das vacinas produzidas possa se provar ineficaz e não seja utilizada.

Distribuição e campanhas

Assim que uma vacina (ou mais) tiver dados para provar sua eficácia na imunização de longo prazo contra a Covid-19, países devem iniciar uma corrida contra o relógio para distribuir a vacina em sua população. Para isso, algumas coisas podem já estar preparadas enquanto ainda não temos um imunizante: a estratégia de imunização, o plano de distribuição e o treinamento e preparação de pessoal.

Cada sistema de saúde deverá escolher quais são os grupos prioritários para receber as primeiras doses de vacina à disposição. Idosos, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores da saúde, professores, a lista de categorias possíveis é longa.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina apresentou nesta semana uma proposta de calendário de imunização em quatro fases.

Na primeira fase, receberia a vacina quem trabalha na área de saúde e tem alto risco de contaminação; na sequência, seriam vacinados norte-americanos de todas as idades mas com vulnerabilidades que os colocam no grupo de alto risco para a Covid-19, como obesidade, e idosos que dividem a casa com várias pessoas.

Nesse plano, jovens e crianças, uma população com menos risco de desenvolver efeitos graves da Covid, só seriam vacinados em uma terceira fase. A quarta fase seria a vacinação universal de toda a população norte-americana.

Uma vez que as prioridades sejam definidas é preciso traçar um plano de estratégia de distribuição. As vacinas serão aplicadas em postos de saúde ou em hospitais? Será feita uma campanha com vacinação também aos finais de semana e em regiões que estão mais longe dos centros de saúde?

Nos EUA, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) pediu "com urgência" na semana passada que os estados façam o que for necessário para que os centros de distribuição de uma futura vacina possam estar "totalmente operacionais" ainda este ano.

Grande percentual da população deve ser imunizada

Após os grupos de maior risco ao coronavírus estarem imunizados, poderemos finalmente pensar em acabar com a circulação do coronavírus. Para isso, é preciso que grande parte da população torne-se imune ao vírus, interrompendo assim a cadeia de transmissão.

Como explica a médica sanitarista Ligia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a imunização ideal é de 95% da população.

Uma pesquisa de opinião feita pela empresa Ipsos em 27 países sobre a vacina da Covid-19 mostrou que em alguns países a população tem dúvidas sobre a segurança e a necessidade da imunização.

Na Rússia, apenas 53% dos entrevistados disseram querer tomar uma futura vacina contra a Covid-19. na Polônia, 55%, e na França, 59% dos entrevistados deram a mesma resposta.

Já entre os chineses, 97% são favoráveis à imunização. No Brasil e na Austrália, 88% dos entrevistados disseram querer uma vacina.

Esses números, no entanto, podem mudar caso sejam desenvolvidas campanhas contra a vacina. Nesta semana, uma fala do presidente Jair Bolsonaro contrariando a lei brasileira ao dizer que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina" foi muito criticada por especialistas.

“Corremos um risco sério porque, se temos um presidente da República que diz que tanto faz vacinar ou não, certamente vai diminuir a procura pela vacina”, afirma a pesquisadora Ligia Bahia. “O SUS já está subfinanciado. Já será difícil organizar uma campanha potente de vacinação, porque precisa de recursos financeiros, humanos e de apoio social, inclusive das igrejas. Se tivermos igrejas neopentecostais contra a vacinação, será um problema”, comenta a professora.

 

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