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Covid-19 vira “oportunidade" para golpistas na internet

Dados de cartão de crédito de jornalista foram roubados em meio a compra de máscaras contra a Covid-19.
Dados de cartão de crédito de jornalista foram roubados em meio a compra de máscaras contra a Covid-19. © Lúcia Müzell/RFI
Texto por: Lúcia Müzell
6 min

Incertezas sobre os sintomas, alta contagiosidade, milhares de mortes no mundo. Ao atingir em cheio o medo das pessoas, o coronavírus se tornou uma “oportunidade" para golpistas na internet, que se aproveitam da ansiedade dos usuários para roubar dados, vender produtos duvidosos ou pedir doações que nunca chegarão ao destino prometido.

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O aparecimento da Covid-19 atraiu leitores para sites com informações sobre a doença e levou a uma busca mundial por máscaras de proteção e medicamentos que, supostamente, pudessem protegê-los do vírus, como os que reforçam a imunidade.

“Os golpistas sempre aproveitaram temas que atraem as pessoas: amor, sexo, droga, medicamentos milagrosos, dinheiro fácil. O medo também é um dos desses temas, em especial o medo da morte, que encontrou um vasto público durante a pandemia”, explica o consultor em cibersegurança Denis Grunemwald, da ESET France, empresa especializada em segurança digital. "Eles veem o coronavírus como uma oportunidade de disparar phishings, esses sites clonados que, se você clica, pode cair em algum tipo de golpe.”

Na ânsia por máscaras para proteger a família no início da pandemia, a jornalista T. acabou sendo fisgada. Em março, logo no começo da quarentena na França, onde mora, ela comprou pela internet quatro proteções. Uma semana depois, recebeu uma mensagem que a direcionava para um site idêntico ao de uma famosa distribuidora francesa.

“Na confusão daquele momento que estávamos vivendo, nem olhei direito a mensagem e cliquei. Inseri os dados do meu cartão para confirmar a entrega”, conta a brasileira, que prefere manter o anonimato. “Dez minutos depois, caiu a minha ficha. Pensei ‘droga, por que eu caí nessa’. Percebi rápido, mas já tinha dado tempo de fazerem uma compra de € 50, que eu nunca consegui recuperar”, relata a jornalista.

Golpistas clonaram verdadeiro site da Johns Hopkins University e inseriram venda fraudulenta de produtos.
Golpistas clonaram verdadeiro site da Johns Hopkins University e inseriram venda fraudulenta de produtos. © Divulgação ESET-France

Sites clonados

Não só sites comerciais captam internautas para golpes. Um dos endereços mais consultados durante a pandemia, o monitoramento internacional da ocorrência de casos de Covid da John Hopkings University, ganhou uma versão idêntica, porém fraudulenta. Um pop up convidava o usuário a comprar as mais variadas proteções contra o coronavírus e, se não prestasse atenção, poderia ter os dados do cartão bancário usurpados.

A quarentena e o aumento do uso da internet pelas famílias e trabalhadores tornou a situação ainda mais ideal para as quadrilhas, capazes de distribuir as mesmas armadilhas em diferentes países. "Programadores sem muitos escrúpulos aceitam trabalhar para redes organizadas, nas quais há alguns mentores e outras pessoas que fazem a tradução perfeita de uma mensagem em várias línguas e identificam quais são os sites que mais interessam em cada país”, ressalta o francês.

Benoit Grunemwald, especialista em segurança cibernética.
Benoit Grunemwald, especialista em segurança cibernética. © France Bleu

A cooperação internacional para identificar e prender essas redes se aperfeiçoa, com o auxílio da Interpol. Em agosto, cinco pessoas foram detidas em Israel a pedido da França, onde dezenas de empresas e instituições caíram em um golpe promovido pelos suspeitos. Eles ofereciam máscaras, luvas, álcool gel e outras proteções contra o coronavírus, mas os produtos jamais chegaram aos compradores. As autoridades judiciais francesas indicam que a quadrilha arrecadou mais de € 180 mil com o crime.

Teste de Covid gratuito

As fraudes também cresceram no Brasil. Em agosto, o governo do Distrito Federal, por exemplo, informou que os crimes cibernéticos tiveram uma alta impressionante de 347% de janeiro a julho, em relação ao mesmo período de 2019.

Em muitos casos, o roubo se inicia no ambiente digital, mas pode terminar bem real. No Rio Grande do Sul, a educadora física Rosana Kuhn, 34 anos, percebeu uma tentativa de golpe no grupo do seu bairro, em Porto Alegre, em uma rede social. “Uma perfil estranho ofereceu fazer teste grátis de Covid, na casa das pessoas. Naquele momento, em maio, um monte de gente se interessou”, relembra a gaúcha. “Depois, a pessoa nunca mais apareceu no grupo. Ficou por isso mesmo. Fiquei pensando em quantas pessoas abriram as suas casas para um ladrão entrar, com essa desculpa do coronavírus."

O especialista francês observa que os delitos digitais representam “uma economia paralela”. "A sofisticação dos crimes reais foi transportada para os crimes cibernéticos. Essas pessoas não se importam de jogar com as emoções e medos dos outros”, sublinha Grunemwald.

Para se proteger, o especialista sugere atenção redobrada na hora de clicar em links recebidos por email ou mensagem e dar preferência ao próprio usuário digitar o endereço do site que procura. Também sugere consultar, em uma simples busca na internet, se determinado endereço já não foi identificado como fraudulento. Antes de confirmar uma compra, lembra o francês, é melhor desconfiar se o preço proposto for muito mais baixo do que nas lojas conhecidas. "Uma operação comercial atrativa demais é, com frequência, uma fraude. É como na vida real: às vezes, o preço é bom demais para ser verdade”, comenta.

O consultor ressalta ainda que, a exemplo do que aconteceu na votação do Brexit, no Reino Unido, e em diversas eleições pelo mundo, a Covid-19 também se tornou terreno fértil para ataques de Estado. “O coronavírus está sendo usado para divulgar informações falsas e desestabilizar um outro país”, observa Grunemwald.

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