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Para Macron, presença de jihadistas sírios é fato "grave" e muda conflito no Azerbaijão

Funeral de membro do exército do Azerbaijão, morto durante os combates.
Funeral de membro do exército do Azerbaijão, morto durante os combates. AP - Aziz Karimov
Texto por: RFI
7 min

As forças do Azerbaijão continuam tentando retomar localidades consideradas como "territórios ocupados" ao redor da autoproclamada república separatista de Nagorno Karabakh, um enclave de maioria armênia. As duas partes em conflito registram perdas pesadas, mas permanecem ignorando os pedidos de cessar-fogo da ONU e dos presidentes de França, Rússia e Estados Unidos.

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Com os correspondentes da RFI Régis Genté, Anissa El Jabri e AFP

O chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, disse nesta quinta-feira (1°) dispor de informações consistentes sobre o deslocamento para a região de combatentes jihadistas sírios que transitaram pela Turquia, aliada do Azerbaijão nessa disputa. "É um fato grave, novo, que muda a situação", afirmou o presidente francês. Na véspera, o russo Vladimir Putin sinalizou que tinha conhecimento da presença de jihadistas sírios na área.

Macron faz parte, ao lado de Putin e Donald Trump, do grupo de Minsk, encarregado de mediar uma solução ao conflito. Em um comunicado conjunto, divulgado hoje pela presidência francesa, Paris, Moscou e Washington pedem a cessação imediata das hostilidades. A ONU também apela aos beligerantes para retomar negociações. 

O Azerbaijão, país de língua turca e com população de maioria xiita, quer recuperar o controle de Nagorno Karabakh, habitada principalmente por armênios cristãos, cuja secessão em 1991 não foi reconhecida pela comunidade internacional. 

Em Stepanakert, a capital da autoproclamada república, duas explosões ocorreram durante a madrugada, enquanto a cidade mergulhava na escuridão à noite toda para dificultar a visão dos drones azerbaijanos que atingiram a cidade no domingo.

No quinto dia de confrontos, nenhum lado parece estar em vantagem, mas "os combates se intensificaram", disse o porta-voz do ministério da Defesa armênio, Artstroun Hovhannissian, garantindo: "O inimigo sofreu enormes perdas".

As forças do Azerbaijão, que há vários dias afirmam ter assumido posições armênias mantidas por mais de 30 anos, fizeram declarações semelhantes e garantiram que os combatentes separatistas teriam que "se retirar das posições que ocupavam na linha de frente". 

A separação de Nagorno Karabakh do Azerbaijão provocou uma guerra no início da década de 1990 que deixou 30.000 mortos. A frente de conflito estava quase congelada desde então, apesar de alguns confrontos regulares, especialmente em 2016, quando ocorreu a "guerra dos quatro dias".

Segundo o porta-voz armênio, cerca de 350 soldados azerbaijanos morreram, 15 veículos blindados foram destruídos e três helicópteros foram abatidos, um dos quais caiu no Irã.

O ministério da Defesa do Azerbaijão negou esta última alegação, citando uma "mentira". Ele indicou "que durante toda a noite disparos de artilharia devastadores tiveram como alvo as forças armênias".

O exército de Karabakh afirma ter impedido o Azerbaijão "de reagrupar suas tropas".

Dois jornalistas do Le Monde em estado crítico

Na manhã desta quinta-feira (1), dois jornalistas do jornal francês Le Monde ficaram feridos em um bombardeio ocorrido na cidade de Martuni, onde chegaram para cobrir o conflito. Eles estavam com um grupo de colegas, incluindo uma equipe da Agência France Presse (AFP), que não foram atingidos. De acordo com as autoridades armênias, dois jornalistas armênios também sofreram ferimentos. Pelo menos um policial morreu no ataque.

Os dois jornalistas franceses, um repórter e um fotógrafo, filmavam civis quando foram atingidos pelo bombardeio. Eles foram operados em um hospital de Nagorno Karabakh, mas se encontram em estado crítico e serão transferidos para Erevan. O presidente Macron informou que o governo enviará um avião sanitário para repatriá-los a Paris.   

Afluxo de voluntários armênios

No fim de semana, o governo da Armênia declarou a lei marcial e uma mobilização geral para defender o enclave. Desde então, centenas de voluntários da diáspora armênia, a maioria homens da faixa etária de 18 a 50 anos, provenientes dos Estados Unidos, da Espanha, Holanda, Belarus e França, desembarcam em Erevan, antes de seguir para a zona de guerra.

Em um voo de Paris para a capital armênia, a reportagem da RFI conversou com um voluntário franco-armênio motivado a defender os interesses de seu povo. 

"Domingo de manhã, meu pai me ligou e disse: 'Ligue a TV, veja o que está acontecendo na Armênia'. Liguei imediatamente, vi o que estava acontecendo e decidi partir no primeiro voo disponível para estar ao lado do meu povo, dos meus irmãos", afirmou o empresário à RFI.

Ele partiu sozinho, sem avisar a família, com pouco dinheiro, algumas roupas e uma preparação militar de três meses feita há cinco anos. No aeroporto, ele encontrou outros 40 voluntários armênios dispostos a arriscar a vida nos combates para defender a autoproclamada república de Nagorno Karabakh. “Se eu puder salvar vidas, é para isso que vou embora", explicou. "Não temos medo", completou.

Todos planejaram, se necessário, comprar suas próprias armas para lutar. Em Erevan, não há mais um único equipamento militar no comércio ou mesmo saco de dormir. Tudo foi requisitado para o esforço de guerra.

Risco de internacionalização do conflito

Desde o início das hostilidades no domingo, apenas balanços parciais foram comunicados, relatando um total de 128 mortos. Do lado armênio, 104 soldados e 8 civis foram declarados mortos. Baku recusa-se a comunicar balanços militares, mas anunciou a morte de 16 civis.

Ambos os lados afirmam ter infligido centenas de perdas humanas ao outro e transmitem vídeos nesse sentido, como o da quarta-feira de um drone azerbaijano atingindo um porta-aviões blindado carregando soldados, ou um armênio mostrando muitos corpos enfileirados em uniformes adversários.

Os pedidos de trégua se multiplicam, mas o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev, e o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinian, reafirmaram a determinação em continuar os combates. Nesta quinta-feira, este último garantiu no Facebook que Nagorno Karabakh combatia o "terrorismo internacional". "A comunidade internacional agora afirmou claramente que o tandem turco-azerbaijano trava uma guerra contra a Armênia e Karabakh com a ajuda de mercenários terroristas", acrescentou.

A Rússia, potência regional que mantém relações cordiais com as duas ex-repúblicas soviéticas, manifestou preocupação com o papel da Turquia, concorrente geopolítico, mas com quem mantém relações pragmáticas.

Moscou criticou Ancara por "colocar lenha na fogueira" ao encorajar Baku em sua ofensiva. E na quarta-feira à noite, sem apontar o dedo diretamente para a Turquia, a diplomacia russa disse estar "muito preocupada" com a implantação no conflito de Karabakh de "terroristas e mercenários estrangeiros" da "Síria e da Líbia", duas áreas onde Ancara atua militarmente com seus aliados locais.

Já o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, cujo país é o principal aliado do Azerbaijão, disse nesta quinta-feira que um cessar-fogo em Nagorno Karabakh exige a retirada das forças armênias deste enclave separatista.

"Um cessar-fogo duradouro nesta região depende da retirada dos armênios de todo o território do Azerbaijão", afirmou Erdogan durante um discurso no Parlamento. 

A interferência militar de Ancara não foi estabelecida, com apenas a Armênia reivindicando-a até agora, acusando a Turquia de ter implantado seus aviões F-16, de fornecer pilotos de drones e especialistas militares.

Uma intervenção militar direta turca constituiria um importante ponto de inflexão e uma internacionalização do conflito, um possível cenário de catástrofe, em uma região onde muitas potências estão em competição.

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