ONU alerta para a "tragédia" de 2 milhões de bebês natimortos a cada ano

Kadiatu Sama, que não teve cuidados pré-natais e cujo filho nasceu morto, é consolada por uma enfermeira na maternidade do hospital público em Serra Leoa, Unicef/UNI32026/PirozziUNICEF/UNI32026/Pirozzi
Kadiatu Sama, que não teve cuidados pré-natais e cujo filho nasceu morto, é consolada por uma enfermeira na maternidade do hospital público em Serra Leoa, Unicef/UNI32026/PirozziUNICEF/UNI32026/Pirozzi © Unicef/UNI32026/PirozziUNICEF/UNI32026/Pirozzi

Quase dois milhões de bebês nascem mortos no mundo todo ano, ou um a cada 16 segundos, de acordo com um relatório divulgado nesta quinta-feira (8), uma "tragédia negligenciada" que poderia ser ainda pior com a pandemia de Covid-19. Isso representa quase 1,4% dos nascimentos em 2019, e mais de 2% dos nascimentos em 27 países, estimam ONU, Unicef, Banco Mundial e Organização Mundial da Saúde (OMS).

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O nascimento de um bebê natimorto refere-se à morte de um feto viável, seja durante a gravidez (morte no útero) ou durante o trabalho de parto (morte por parto). O relatório da ONU conta as mortes ocorridas após pelo menos 28 semanas de gestação (ou seja, no terceiro trimestre de gravidez), a fim de permitir a comparação entre dados de diferentes países.

Avanços foram feitos - em 2000, 2,9 milhões de bebês natimortos foram deplorados - mas "o progresso é lento", lamentam as organizações internacionais, em seu primeiro relatório sobre o assunto. Nos últimos 20 anos, essas mortes diminuíram 2,3% ao ano, enquanto, ao mesmo tempo, a mortalidade neonatal (de bebês com menos de um mês de vida) caiu 2,9% ao ano e a das crianças de 1 mês a 5 anos, cerca de 4,3%.

Entre as "principais dificuldades", o relatório aponta "a falta de investimento nos serviços" que tratam da gravidez e do parto, bem como "no fortalecimento das enfermeiras e parteiras". “Além dessas vidas perdidas, as consequências psicológicas e financeiras são graves e duradouras para as mulheres, as famílias e a sociedade”, explicou Henrietta Fore, diretora executiva da Unicef.

Os países pobres são mais afetados: enquanto os estados de baixa renda ou "renda média-baixa" representam 62% do total de nascimentos: 84% dos natimortos são registrados nestes lugares. A África Subsaariana e o Sul da Ásia, por si só, respondem por três quartos dos casos.

Cesárea de emergência

Em média, 40% dessas mortes ocorrem durante o trabalho de parto, proporção que sobe para quase 50% na África Subsaariana e na Ásia Central e do Sul, enquanto é de apenas 6% na Europa e América do Norte.

As causas são diversas: podem ser maternas (hipertensão, diabetes, doenças infecciosas, traumas, hemorragias) ou vinculadas a uma extrapolação do tempo de gravidez, a um nó no cordão umbilical ou mesmo a uma malformação fetal grave.

No entanto, "esta tragédia é evitável", sublinhou Henrietta Fore: "a maioria dos partos de natimortos pode ​​ser evitada graças a uma vigilância de qualidade, a cuidados pré-natais adaptados e a um pessoal qualificado".

A possibilidade de realizar uma cesárea de emergência pode, assim, decidir o destino de um feto em dificuldade, enquanto o manejo da hipertensão durante a gravidez, a prevenção da malária e o rastreamento da sífilis também podem evitar tragédias.

Mas a atual pandemia Covid-19 poderia, ao contrário, “piorar a situação”, alertou o relatório. "Em primeiro lugar, por causa do aumento maciço da pobreza causado pela recessão global", disse Mark Hereward, vice-diretor do Unicef ​​para dados e estatísticas.

“O outro motivo é a interrupção dos serviços de saúde, seja porque os profissionais de saúde são realocados para os pacientes afetados pela Covid-19, ou porque as pessoas têm muito medo” de contrair a doença para ir ao hospital ou ao médico, acrescentou.

O número atual de natimortos poderia, portanto, aumentar em 200.000 casos adicionais em um período de 12 meses, caso 50% dos serviços de saúde à gestante não fossem mais fornecidos.

Com informações da AFP

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