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Saiba por que a população da Tailândia está nas ruas protestando contra o governo e a monarquia

Governo reprime protestos pró-democracia, que ousam desafiar o poderosa monarquia tailandesa.
Governo reprime protestos pró-democracia, que ousam desafiar o poderosa monarquia tailandesa. AP
Texto por: RFI
8 min

Prisões de líderes da oposição, proibição de reuniões a partir de cinco pessoas e censura de mensagens contrárias ao governo: as autoridades da Tailândia endurecem o tom contra o movimento pró-democracia. Há meses os protestos que ousam desafiar a poderosa monarquia se intensificam no país.

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Carol Isoux, correspondente da RFI em Bangcoc e agências

O movimento pró-democracia exige a saída de Prayut Chan-O-Cha, no poder desde um golpe em 2014 e legitimado por controversas eleições no ano passado. A iniciativa também pede uma modificação da Constituição, posta em vigor em 2017, durante a junta militar e muito favorável ao exército.

Alguns manifestantes vão mais longe e exigem uma reforma da poderosa e extremamente rica monarquia, assunto tabu até recentemente no país, em que o soberano é protegido por uma das mais severas leis de lesa-majestade do mundo. Eles querem que o monarca não interfira nos assuntos políticos, a abolição da lei da lesa-majestade e que a Coroa devolva seus bens ao Estado - que o governo considera inaceitáveis.

Decreto de emergência

As autoridades tailandesas emitiram nesta quinta-feira (15) um decreto de emergência que proíbe "reuniões de cinco ou mais pessoas", assim como "mensagens on-line que possam prejudicar a segurança nacional" ou "gerar medo", declarou Sunsern Kaewkumnerd, um porta-vozes do governo tailandês. Os meios de comunicação foram orientados a não publicar informações que possam comprometer a unidade nacional.

O governo justificou a promulgação do texto, denunciando que as manifestações seriam "contrárias à Constituição" e também tinham o objetivo de impedir um cortejo real. Na quarta-feira (14), milhares de pessoas se reuniram em frente à sede do governo em Bangcoc, para exigir a renúncia do primeiro-ministro Prayut Chan-O-Cha.

Pouco depois do decreto de emergência entrar em vigor, nesta quinta-feira, policiais da tropa de choque esvaziaram o acampamento de manifestantes em frente à sede do governo, onde pretendiam permanecer por dias. Muitos já haviam deixado o local, ainda assim mais de 20 pessoas foram presas, informou o porta-voz da polícia, coronel Kissana Phathanacharoen. Entre os detidos estão Parit Chivarak, conhecido como "Pinguim", a universitária “Rung” e Anon Numpa, três líderes do movimento, uns dos mais agressivos contra a monarquia, afirmou uma fonte governamental.

Anon Numpa publicou em seu perfil no Facebook que foi levado de helicóptero para Chiang Mai (ao norte). Minha prisão "é uma violação dos meus direitos e a situação é muito perigosa para mim", escreveu ele. Outros líderes do movimento, incluindo Panusaya Sithijirawattanakul, de 22 anos, conhecida como "Rung", que também apóia a linha dura, foram presos, de acordo com imagens postadas on-line por ativistas.

Convocação para nova manifestação

Enfrentando a proibição de reuniões, "Rung" fez uma convocação, antes de sua prisão, para uma nova manifestação nesta quinta-feira, em Rajaprasong, o distrito comercial de Bangcoc, onde os Camisas Vermelhas, um movimento social anterior, se estabeleceram por meses em 2010, antes de serem violentamente reprimidos pelo exército.

"Não permitiremos que eles se reúnam, seria uma violação do decreto de emergência", advertiu Yingyos Thepjumnong, porta-voz da polícia. Soldados foram posicionados ao redor de diversos prédios do governo, de acordo com um dos porta-vozes do exército, o tenente-general Santipong Thampiya.

No entanto, centenas de manifestantes já começaram a chegar ao centro de Bangcoc, desafiando o decreto de emergência. "Libertem nossos amigos", gritam os ativistas.

Desafio sem precedentes à realeza

Na quarta-feira (14), mais de 10 mil manifestantes pró-democracia marcharam em direção à sede do governo para marcar o 47º aniversário do levante estudantil de 1973. Centenas de partidários favoráveis à monarquia, que foram saudar o cortejo real, se reuniram ao longo do percurso, fazendo reviver os temores de agitação em um país acostumado à violência política e que viu 19 golpes de estado ou tentativas de golpe desde o estabelecimento da monarquia constitucional em 1932.

Salvo alguns confrontos passageiros, os dois lados mantiveram distância. "Novos confrontos entre partidários pró-monarquia e o movimento anti-establishment são esperados", adverte Thitinan Pongsudhirak, cientista político da Universidade Chulalongkorn. O recente aumento do vigor das autoridades ameaça "acentuar as reivindicações da juventude", que ocupa as ruas há meses, podendo levar a tensões.

Um carro com a rainha Suthida a bordo, que não conseguiu evitar o percurso da manifestação, foi parado e dezenas de manifestantes pró-democracia, que levantaram três dedos na frente de seu veículo, inspirados no filme "Jogos Vorazes". O gesto remete à resistência, em vez da saudação habitual à realeza. No dia anterior, outros ativistas já haviam feito o mesmo gesto durante a passagem do rei Maha Vajiralongkorn. As atitudes de desafio à autoridade real são inéditas.

Vajiralongkorn, que ascendeu ao trono em 2016, após a morte de seu pai, o venerado rei Bhumibol, é uma figura controversa. Em poucos anos, ele fortaleceu seus poderes, assumindo o controle direto da fortuna real. Suas frequentes estadas na Europa, mesmo em meio à pandemia do coronavírus, também levantaram polêmicas.

Quem é Rung, rosto do movimento antigoverno

“Rung” (que significa arco-íris, em tailandês), cujo nome verdadeiro é Panusaya Sithijirawattanakul, é o principal rosto do movimento antigoverno. Ela foi presa nesta quinta-feira, horas depois da promulgação do decreto de emergência. Antes da detenção, diante de uma multidão de jovens reunidos em um campus universitário no subúrbio da capital, com os olhos envoltos em óculos redondos, ela subiu ao palco e enumerou com voz firme dez demandas pela reforma da monarquia.

A jovem e seus amigos pedem a revogação da lei de lesa-majestade, por mais transparência nas finanças reais e pela não interferência do monarca nos assuntos políticos. "Eu sabia que depois (disso) minha vida mudaria para sempre", disse ela à AFP em agosto, no dormitório da universidade, de onde desde então dificilmente saia por medo de represálias.

Ela diz que seu objetivo não é "derrubar ou se livrar da monarquia", mas permitir que o sistema "se modernize, para torná-la mais adequada aos nossos tempos". O rei da Tailândia é quem garante a unidade do reino, que viu 12 golpes de estado desde 1932, e de seu sistema oligárquico composto por aristocratas, oficiais do exército de alta patente e uma elite empresarial de maioria sino-tailandesa. Com isso, muito além de seu status de monarca constitucional, ele tem uma influência considerável que exerce mais frequentemente nas sombras.

Nascida em 1998 perto de Bangcoc, a estudante que se descreve como introvertida e solitária, cresceu em uma família de classe média longe da turbulência política que abalou seu país: a derrubada do empresário Thaksin Shinawatra em 2006 e a crise política que se seguiu com dezenas de mortos e centenas de feridos quatro anos depois.

Ela tinha apenas 15 anos quando, em 2014, um novo golpe de estado foi orquestrado contra Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksin, pelo general Prayut Chan-O-Cha, que desde então foi legitimado por eleições polêmicas em 2019. "Isso me radicalizou, disse a mim mesma que o exército não tinha o direito de governar o país, que tudo que se passava era propaganda", afirma.

Lembranças da infância

Uma memória da infância a marcou para sempre. Quando um cortejo real passou por sua casa e a polícia a forçou a sair para a rua e se ajoelhar na calçada. Esse acontecimento "forjou minha consciência (...). Ninguém deveria ser mais importante ou ser colocado acima dos outros".

Eu penso que "eu ultrapassei os limites da maneira como podemos falar sobre a monarquia". Agora, "não me importo de ficar presa (...) estou pronta. Se eles quiserem, que venham", declarou em agosto. Antes de sua prisão nesta quinta-feira, Rung já havia sido indiciada por "revolta", crime passível de sete anos de prisão no país.

Pelo menos nove ativistas pró-democracia que fugiram da Tailândia desde o golpe de 2014 desapareceram nos últimos dois anos, de acordo com a ONG Human Rights Watch.

 

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