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Bolsonaro usa G20 para criticar vacinação obrigatória e protestos contra racismo no Brasil

Reunião de cúpula virtual do G20 organizada pela Arábia Saudita.
Reunião de cúpula virtual do G20 organizada pela Arábia Saudita. AP
Texto por: RFI
11 min

O presidente Jair Bolsonaro voltou a se manifestar neste sábado (21) contra a obrigatoriedade da vacinação contra a Covid-19. Desta vez, diante dos 20 líderes das maiores economias do mundo que participam da cúpula do G20 organizada pela Arábia Saudita. No Brasil, o assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Embora sejam favoráveis à vacina obrigatória reservadamente, os ministros da Corte não devem julgar o assunto este ano, pois querem debater o tema com a comunidade científica antes de se posicionar.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Bolsonaro também defendeu durante a cúpula uma ação coordenada em resposta à pandemia e o acesso universal, equitativo e a preços acessíveis dos tratamentos disponíveis contra a Covid-19.

"É com esse objetivo que participamos de diferentes iniciativas voltadas ao combate à doença. No entanto, é preciso ressaltar que também defendemos a liberdade de cada indivíduo para decidir se deve ou não tomar a vacina. A pandemia não pode servir de justificativa para ataques às liberdades individuais”, disse.

Para surpresa geral, o presidente brasileiro fez alusão aos protestos antirracistas no Brasil, após a morte do soldador negro João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado na sexta-feira (20) numa loja do Carrefour em Porto Alegre. Ele não falou abertamente sobre o caso, mas criticou os manifestantes que foram às ruas denunciar o racismo enraizado no país. No início de seu discurso, Bolsonaro disse que "há tentativas de importar" para o Brasil "tensões" raciais "alheias à nossa história”. Mas que ele, como “homem e como presidente”, enxerga a "todos com as mesmas cores: verde e amarelo!”.

Bolsonaro afirmou que há quem queira destruir a diversidade e a miscigenação brasileira que conquistaram a simpatia do mundo para "colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de 'luta por igualdade' ou 'justiça social”. Em sua avaliação, ”tudo" isso seria feito "em busca de poder.”

O presidente reconheceu que o Brasil tem os seus problemas." Mas destacou a existência de diversos interesses "para que se criem tensões entre nós.” "Um povo unido é um povo soberano. Dividido é vulnerável. E um povo vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável", afirmou Bolsonaro.

Abordagem "certa" contra a epidemia apesar de milhares de mortos

Segundo ele, "à medida que a pandemia é superada no Brasil, a vida das pessoas retorna à normalidade e as perspectivas para a retomada econômica se tornam mais positivas e concretas”. Mais cedo, em mensagem de vídeo gravada para os participantes do G20 ele defendeu a maneira como o Brasil enfrentou a pandemia. O presidente garante que o tempo está provando que estava “certo”.

Na sexta-feira, um dia antes dos pronunciamentos do presidente, o Brasil, que já era o terceiro mais atingido do mundo pela pandemia (perde apenas para Estados Unidos e Índia) em números absolutos, ultrapassou a marca de seis milhões de casos de Covid-19, com 168.600 mortes. Profissionais da saúde alertam para o aumento de contaminados em várias capitais nos últimos dias e pesquisadores acreditam que o país já atravessa a segunda onda.

"Desde o início, nós ressaltamos que era preciso cuidar da saúde das pessoas e da economia simultaneamente. O tempo vem provando que estávamos certos”, afirmou o líder brasileiro em um vídeo de 57 segundos, que a presidência saudita da cúpula divulgou junto com mensagens dos primeiros-ministros da Itália, Guiseppe Conte, do Reino Unido, Boris Johnson, da Espanha, Pedro Sanchéz, e do presidente da Turquia, Recep Tahyp Erdogan.

Em mais um capítulo da chamada diplomacia digital, os líderes das 20 maiores economias do mundo tiveram neste sábado a primeira rodada de reuniões no âmbito da cúpula. A partir das suas telas de computador, discutiram uma estratégia conjunta de combate ao novo coronavírus, o que consideram fundamental para a recuperação da economia global.

No evento paralelo sobre o “Preparo e resposta do mundo à pandemia”, lideres internacionais defenderam o papel da Organização Mundial de Saúde (OMS) durante a crise. Bolsonaro, o presidente americano, Donald Trump, e outros líderes, como o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, não participaram desta sessão. Ao longo deste ano, a atuação da OMS foi torpeada por Trump, que retirou os Estados Unidos da agência.

A mudança do clima também está no topo da agenda. O tema não foi mencionado por Bolsonaro, embora haja grande expectativa sobre as ações do Brasil nesta matéria. Ele defendeu, contudo, uma reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e cobrou dos países desenvolvidos "a ambição de reduzir os subsídios para bens agrícolas", esperando contar "com a mesma vontade com que alguns países buscam promover o comércio de bens industriais”. Segundo ele, é preciso evitar que se caia na armadilha de subsídios e políticas que distorçam o comércio internacional.

"A reforma da OMC, que já se fazia necessária antes da pandemia, torna-se, agora, elemento-chave para a recuperação da economia mundial”, afirmou.

Os encontros virtuais entre os líderes são fechados para a imprensa. O discurso de Bolsonaro foi divulgado pelo Palácio do Planalto.

Na abertura do evento, o rei saudita e anfitrião da cúpula Salman bin Abdulaziz Al Saud afirmou que os países precisam se preparar melhor para pandemias no futuro, reabrir as economias e fronteiras para facilitar o movimento de mercadorias e pessoas. O comércio, disse ele, é o motor para a recuperação da economia global.

Neste domingo será divulgada a declaração final do grupo. Espera-se uma pregação da moratória da dívida dos países mais pobres.

Veja o discurso de Jair Bolsonaro para os líderes do G20:

"Senhoras e Senhores,

Antes de adentrarmos o tema principal desta sessão, quero fazer uma rápida defesa do caráter nacional brasileiro em face das tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história.

O Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Brancos, negros e índios edificaram o corpo e o espírito de um povo rico e maravilhoso. Em uma única família brasileira podemos contemplar uma diversidade maior do que países inteiros.

Foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo. Contudo, há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de "luta por igualdade" ou "justiça social". Tudo em busca de poder.

Não somos perfeitos. Temos, sim, os nossos problemas. Existem diversos interesses para que se criem tensões entre nós. Um povo unido é um povo soberano. Dividido é vulnerável. E um povo vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável.

Como homem e como Presidente, enxergo todos com as mesmas cores: verde e amarelo! Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. O que existem são homens bons e homens maus; e são as nossas escolhas e valores que determinarão qual dos dois nós seremos.

Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história.

Após essa breve introdução, é uma satisfação participar desta reunião e poder, mais uma vez, trocar experiências com os parceiros do G20, grupo que representa dois terços da população mundial, 90% do PIB e 80% do comércio internacional.

Infelizmente, devido à crise sanitária, não foi possível nos encontrarmos pessoalmente. Porém, graças à brilhante e criativa atuação da Arábia Saudita, e em particular do Príncipe Mohammad bin Salman, a distância não tem prejudicado nossa busca por resultados que gerem bem-estar e prosperidade para os nossos países.

Durante nossa última reunião extraordinária, em 26 de março passado, nos comprometemos a tomar todas as medidas necessárias para combater a pandemia e, ao mesmo tempo, proteger e estimular a economia global.

Também lançamos o compromisso de evitar a interrupção dos fluxos de comércio e das cadeias produtivas globais, buscando promover a cooperação internacional. Embora longe do ideal, estou convicto de que estamos obtendo êxito nessas iniciativas. Juntos, estamos superando uma das mais graves crises sanitárias da história recente. Estamos vencendo as incertezas, as dificuldades logísticas e, inclusive, a desinformação.

O Brasil se soma aos esforços internacionais para a busca de vacinas eficazes e seguras contra a Covid-19, bem como adota o tratamento precoce no combate à doença.Apoiamos o acesso universal, equitativo e a preços acessíveis aos tratamentos disponíveis. É com esse objetivo que participamos de diferentes iniciativas voltadas ao combate à doença. No entanto, é preciso ressaltar que também defendemos a liberdade de cada indivíduo para decidir se deve ou não tomar a vacina. A pandemia não pode servir de justificativa para ataques às liberdades individuais.

Na esfera econômica, nossos países injetaram, em conjunto, mais de 10 trilhões de dólares na economia mundial. Nossos Ministros de Finanças e Presidentes de Bancos Centrais acordaram o “Plano de Ação de Apoio à Economia Global” e a “Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida”.

Essas medidas contribuíram para assegurar a devida liquidez aos mercados e conferir alívio fiscal aos países mais vulneráveis. Evitamos, dessa maneira, que os efeitos da pandemia fossem ainda mais devastadores.

As medidas tomadas pelo nosso Governo atenderam mais de 65 milhões de brasileiros com um auxilio emergencial. Com socorro a mais de 400 mil pequenas e medias empresas, preservamos cerca de 12 milhões de postos de trabalho. Também injetamos vultosos recursos nos estados e municípios e, desta forma, reduzimos os índices de pobreza. Com essas medidas, garantimos a sobrevivência e a dignidade de milhares de famílias brasileiras, justamente as mais necessitadas.

Por isso, queremos dar continuidade ao programa de reformas estruturais para fortalecer e estimular ainda mais o crescimento sustentado do Brasil.

Senhoras e Senhores,

A reforma da OMC, que já se fazia necessária antes da pandemia, torna-se, agora, elemento-chave para a recuperação da economia mundial. O Brasil defende avanços nos três pilares da OMC: negociações; solução de controvérsias; e monitoramento e transparência. Também esperamos que o Órgão de Apelação possa voltar à plena operação o mais rápido possível.

Na reforma da Organização, queremos que a ambição de reduzir os subsídios para bens agrícolas conte com a mesma vontade com que alguns países buscam promover o comércio de bens industriais.

Adicionalmente, o processo de reforma da OMC deverá contemplar o estímulo aos investimentos e a criação de condições justas e equilibradas para o comércio internacional, não só de bens, mas também de serviços.

Por isso, proponho que nossos Ministros debatam e compartilhem melhores práticas sobre como lidar com esse tema, evitando-se cair na armadilha de subsídios e políticas que distorçam o comércio internacional.

Tenho certeza de que nossa atitude coordenada frente aos desafios da pandemia será, mais uma vez, fundamental para a recuperação econômica mundial.

Não há tempo a perder. Conto com o apoio de Vossas Excelências para darmos início às mudanças necessárias, em especial no âmbito da OMC. Juntos, vamos fortalecer nossas economias e gerar mais bem-estar e prosperidade a nossas populações.

Muito obrigado."

 

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