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Quem se beneficia da exploração dos uigures nas plantações de algodão na China?

Um operário trabalha em um campo de algodão na cidade de Korla, na região autônoma uigure de Xianjiang, em 10 de outubro de 2006.
Um operário trabalha em um campo de algodão na cidade de Korla, na região autônoma uigure de Xianjiang, em 10 de outubro de 2006. AP - EUGENE HOSHIKO
Texto por: RFI
4 min

Longe dos holofotes, a repressão aos uigures continua em Xinjiang, no noroeste da China. De acordo com um novo estudo publicado nos Estados Unidos, mais de 500 mil pessoas de minorias étnicas chinesas são empregadas à força nas plantações de algodão. O autor deste relatório é o pesquisador alemão Adrian Zenz, conhecido por ter sido um dos primeiros a documentar a realidade dos campos de internação montados pelo governo chinês.

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RFI: Você já enfatizou, em muitos de seus relatórios, que o trabalho forçado imposto às minorias étnicas foi uma das principais armas do governo chinês em Xinjiang. O que você está revelando hoje é que esse sistema está enraizado na colheita do algodão. O que isso significa?

Adrian Zenz: Sabíamos que incluía o setor têxtil. Mas o que estamos provando hoje é que isso inclui a colheita do algodão com o emprego de mais de meio milhão de trabalhadores de minorias étnicas. Este padrão de trabalho forçado foi desenvolvido ao mesmo tempo que o processo massivo de emprisionamento nos campos de detenção. Mas estamos falando aqui sobre o grande número de uigures que ainda estão em liberdade. Eles são recrutados contra sua vontade e colocados para trabalhar visando mudar sua sociedade e cultura, a fim de aumentar o controle social do Estado. Tradicionalmente, os fazendeiros e pastores uigures são forçados a se transformar em empregados ou operários.

Por que o algodão em particular?

Até agora, os proprietários de plantações de algodão em Xinjiang têm tido dificuldade em recrutar pessoal, porque é um trabalho difícil e impopular, que exige que os funcionários durmam no local por dois a três meses, devido às horas de colheita - de manhã cedo à noite. Havia poucos voluntários. Hoje, essas plantações não precisam mais se preocupar. O governo simplesmente pergunta de quantos trabalhadores eles precisam e o Estado envia equipes de recrutamento para as aldeias. São as mesmas equipes que decidem se esta ou aquela pessoa deve ser enviada para os campos de reeducação.

Então, em sua opinião, os verdadeiros beneficiários são as empresas de Xinjiang, que produzem 85% do algodão colhido na China?

Claro, porque afeta o preço do algodão. Simplesmente porque os trabalhadores locais custam menos do que os trabalhadores pertencentes ao grupo étnico Han, a maioria na China, e que precisam ser trazidos de outras regiões de trem e cujas passagens são pagas pelas plantações. Isso beneficia os produtores e permite-lhes praticar preços muito baixos. Porque o algodão de Xinjiang tem sido cada vez menos competitivo no mercado mundial nos últimos anos, devido ao custo da mão de obra. Estamos falando de uma matéria-prima que é colhida manualmente. E mesmo que tentem mecanizar gradativamente essas instalações, 70% do trabalho ainda é feito manualmente, principalmente o algodão de alta qualidade, que só pode ser colhido manualmente.

Esses trabalhadores uigures, forçados a trabalhar nas plantações de algodão, recebem uma remuneração justa?

Eles são pagos por quilo de algodão colhido. Mas estamos falando de trabalhadores que muitas vezes são idosos e não têm experiência. O que significa que eles receberão muito pouco. É um trabalho exaustivo e mal pago. Os mais novos e aqueles que já possuem experiência podem sobreviver. O princípio é: quanto mais você arrecada, mais você recebe. E o pagamento é muito baixo.

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