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Conheça as mulheres que podem mudar o destino da Europa em 2021

Dez mulheres que vão estar sob os holofotes na Europa em 2021
Dez mulheres que vão estar sob os holofotes na Europa em 2021 © Fotomontagem RFI/wikipédia/greennewdealuk.org/Instagram

Esse ano que está começando deve ser marcado por mulheres que abraçaram a política e o ativismo na Europa. Enquanto a chanceler alemã Angela Merkel se prepara para deixar o poder, uma nova geração de ativistas entra em cena para tentar transformar velhos paradigmas. Além de Merkel, os holofotes de 2021 devem estar direcionados para a líder da oposição bielorrussa Svetlana Tikhanovskaïa, a ativista antirracismo Assa Traoré em Paris, a militantes LGBTQI+ Olenka Shevchenko da Ucrânia e a ativista ambiental Fatima Ibrahim em Londres. Outros destaques devem ser a vice primeira-ministra da Bélgica, a trans Petra De Sutter, a comissária para direitos humanos do conselho da Europa, a sérvia Dunja Mijatovic, a primeira-ministra da Escócia Nicola Sturgeon, a líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen, além da escritora e ativista polonesa Klementyna Suchanow. 

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Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Bruxelas

Em um dos trechos de seu último discurso de Ano Novo como chanceler da Alemanha, Angela Merkel agradeceu os esforços de seus compatriotas durante a pandemia. "Sou grata pela disciplina com que a grande maioria das pessoas usa suas máscaras, como elas se esforçam para manter a distância. Para mim isso expressa o que torna possível a vida em sociedade: a consideração pelos outros, o senso de dar um passo atrás, a consciência do espírito público". Uma mensagem plena do bom senso que tanto caracteriza esta política que se tornou a mulher mais poderosa do mundo.

Por inspirar com frequência segurança em meio às turbulências, os alemães apelidaram Merkel de “mutti”, que significa mãe. Além disso, a figura da chanceler ajudou a projetar uma imagem não ameaçadora da poderosa Alemanha. Agora, a era Merkel está chegando ao fim, após 16 anos e quatro mandatos consecutivos. A chanceler alemã decidiu não concorrer às próximas eleições gerais que vão acontecer em setembro. Física com doutorado em química quântica, Merkel já avisou que pode voltar para a vida acadêmica após se despedir da carreira política.

Depois de 16 anos no poder Merkel se despede da cena política europeia em setembro.
Depois de 16 anos no poder Merkel se despede da cena política europeia em setembro. REUTERS - © Ralph Orlowski / Reuters

Não serão apenas os alemães que vão se sentir um pouco “órfãos”. A saída de cena de Merkel deixará também um grande vácuo nas complexas negociações da União Europeia, onde ela sempre teve um papel central e decisivo.

Seu biógrafo, Gerd Langguth, ressalta que apesar de estar sempre sob os holofotes, Merkel permanece um enigma. "É uma esfinge" por se manter discreta, "como aprendeu em seus anos sob a ditadura da Alemanha Oriental", escreveu. Nos últimos meses, sua condução do combate ao novo coronavírus deu a Angela Merkel uma taxa de aprovação de quase 80% no país. A primeira mulher a liderar o governo alemão enfrentou inúmeras crises, criou um estilo de governar e deixará, sem dúvida, um grande legado.

Para Shada Islam, analista sênior do conselho do think tank European Policy Centre e uma das mulheres mais influentes de Bruxelas, “é muito importante ter mais mulheres em posição de poder. Porém, essas mulheres têm que ser corajosas o suficiente para pensar de maneira transformadora, quebrando as algemas do patriarcado, as algemas do consenso. Elas precisam ousar para serem diferentes, e isso não é fácil”. Na entrevista que concedeu à RFI Brasil, Shada Islam ressaltou a importância das líderes em protestos contra ditaduras, como na Bielorússia, e em movimentos que responsabilizam o domínio do patriarcado, como é o caso da Polônia.

“Não é fácil ser uma líder e romper com esse pensamento que reduz tudo a uma só dimensão e quebrar as narrativas simples que dominam a política externa no momento. Nós somos bons, eles são ruins. Nós somos gentis, eles desagradáveis. Temos que garantir uma abordagem mais ampla para que não incluam somente mulheres brancas e que a diversidade de nossas sociedades esteja refletida. O fato não é apenas representatividade, mas conteúdo. No mundo de hoje, nós precisamos de pensamento autêntico, de mentalidade inovadora”.

Movimento “Black Lives Matter” ganha força na Europa

Figura emblemática da luta contra a violência policial na França desde a morte de seu irmão mais novo Adama, Assa Traoré continua mais do que nunca determinada em seu combate por justiça racial. “Por trás das palavras liberdade, fraternidade e igualdade, quando abrimos as cortinas, coisas horríveis estão acontecendo”, afirmou a ativista na revista americana Time, no mês passado. Eleita “Guardian of the Year 2020”, Traoré aparece na capa da publicação com seu olhar determinado e cabelos empoderados.

Assa Traoré é o rosto do movimento “Vidas negras importam” na França.
Assa Traoré é o rosto do movimento “Vidas negras importam” na França. AP - Michel Euler

Assim como George Floyd, cuja morte escancarou o racismo da polícia dos EUA, as últimas palavras de Adama Traoré, no dia em que completava 24 anos, também parecem ter sido “eu não consigo respirar”. O jovem morreu sob custódia policial em 2016 em uma delegacia de Beaumont-sur-Oise, cidade situada em uma periferia a 45 km ao norte de Paris.

Até hoje a família Traoré, de imigrantes do Mali, luta por justiça. Uma investigação judicial concluiu que Adama sofria de uma doença cardíaca pré-existente, que teria causado sua morte na delegacia. Mas um relatório de peritos independentes contratados pela família concluiu que ele morreu devido ao peso dos três policiais que o mantiveram de bruços, pressionando o corpo do jovem, durante a operação de detenção.

Em junho do ano passado, diante da divulgação do laudo da perícia privada, dezenas de milhares de manifestantes voltaram a protestar contra a violência policial dirigida aos negros na França. A ação foi convocada pelas redes sociais através do comitê de apoio “A Verdade para Adama”. A luta de Assa Traoré por justiça racial prossegue com força, até porque o movimento criado por ela, que nasceu nas banlieus, os subúrbios pobres de Paris, tem ganhado não só o coração de Cidade Luz, como extrapolado as fronteiras do país e além.

Na imprensa francesa, Traoré é frequentemente associada à Antígona, vingando a morte de seu irmão a todo custo. Em entrevista à revista americana New Yorker, o sociólogo Geoffroy de Lagasnerie reage, dizendo que “a comparação é um pouco estranha. Enquanto Antígona quer assegurar um enterro apropriado para seu irmão, Assa Traoré está tentando garantir vida digna para jovens como Adama”.

Candidata da oposição em Belarus ganha Prêmio Sakharov

“Nós estamos destinados a ganhar e nós ganharemos” declarou a líder da oposição Svetlana Tikhanovskaïa ao receber o prêmio Sakharov de direitos humanos, em uma cerimônia no Parlamento Europeu, no mês passado. A ex-candidata à presidência de Belarus, vivendo agora no exílio na Lituânia, dividiu a premiação com outras três mulheres bielorrussas: Maria Kolesnikova, que está presa, Veronika Tsepkalo e a prêmio Nobel de literatura Svetlana Alexievitch, ambas exiladas.

Antes do exílio, a líder da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia frente aos protestos em seu país.
Antes do exílio, a líder da oposição bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaia frente aos protestos em seu país. AP - Sergei Grits

A trajetória de Svetlana Tikhanovskaïa é admirável. De mãe de família a símbolo da oposição bielorrussa, esta pedagoga de 38 anos teve sua vida virada de cabeça para baixo depois que seu marido, o blogueiro e dissidente político Serguei Tikhanovskï, começou abertamente a criticar o regime autoritário do presidente bielorrusso Alexandre Lukashenko em vídeos publicados no YouTube. Depois de anunciar sua intenção de se candidatar nas eleições presidenciais, o militante pró-democracia foi preso. Para mostrar solidariedade ao marido, Svetlana decidiu concorrer em seu lugar.

De Vilnius, capital da Lituânia, onde se refugiou desde que contestou o resultado das eleições de agosto passado, Svetlana Tikhanovskaïa continua não reconhecendo sua derrota nas urnas. Apesar das manifestações gigantes a favor da candidata, Lukashenko foi reeleito oficialmente com 80,2% dos votos. Apoiado por Moscou, o chefe de Estado se recusa a deixar o poder, que ocupa há 26 anos. Os bielorrussos voltaram às ruas para pedir a demissão do presidente, após a vitória que consideram fraudulenta e também para denunciar a repressão brutal. Lukashenko enviou o Exército para as ruas, alegadamente, para proteger monumentos.

Com o caos na Belarus, os líderes da União Europeia não reconheceram o resultado das eleições presidenciais na antiga república soviética e impuseram sanções contra o regime de Lukashenko. No mês passado, em resposta à brutalidade das autoridades bielorrussas o bloco europeu impôs o terceiro ciclo de medidas restritivas, e outras devem ser anunciadas em breve. Consciente da angústia vivida a cada dia por seus compatriotas, Svetlana Tikhanovskaïa expressou, na cerimônia de entrega do prêmio Sakharov em Bruxelas, o desejo que os bielorrussos presos ou que estão no exílio possam “voltar para casa”. Um sonho que ela compartilha mais do que nunca.

Mundo em transição, mulheres empoderadas

“Estamos vivendo em um mundo em transição e é preciso se ajustar à nova ordem. No caso da Europa, essa nova ordem se encontra onde a abordagem eurocêntrica patriarcal está sendo questionada e desafiada por outros países, pessoas e pela tecnologia”, analisa Shada Islam.

Um exemplo é Klementyna Suchanow, escritora e co-fundadora do movimento “Greve das Mulheres”, na Polônia. A iniciativa é a base de um movimento feminista fundado em 2016 para defender os direitos das mulheres contra os planos do governo conservador para proibir e criminalizar o aborto em todas as circunstâncias. Apesar das restrições impostas pela pandemia, o movimento continua ativo nas redes sociais e com protestos dentro dos carros e em filas de pessoas respeitando o distanciamento social.

Na Ucrânia, a ativista LGBTQI+ Olena Shevchenko é uma voz importante dos direitos humanos no país. Ela é líder da ONG Insight e tem sido vítima de violentos ataques homofóbicos. Apesar das ameaças e agressões, ela se recusa a se silenciar. Para a ativista ucraniana, os direitos das mulheres e os direitos da comunidade LGBTQI+ têm sido os primeiros alvos de ataques conservadores e da extrema direita nos últimos quatro anos em seu país. Em entrevista à revista americana Time, Olena Shevchenko ressaltou que “nós estamos desafiando diversas regras em níveis diferentes, e eles vêem as feministas LGBT como os 'novos Marxistas'”.

A líder do partido de extrema direita na França, Reunião Nacional (RN, ex-Frente Nacional), Marine Le Pen, saiu fortalecida das últimas eleições europeias e é candidata às presidenciais de 2022. “Infelizmente Marine Le Pen será uma figura importante este ano por causa de sua enorme influência na França. De uma maneira direta ou indireta, Le Pen está influenciando a agenda do presidente Emmanuel Macron, mas é um fato que ela será uma grande protagonista na França e, através da França, na Europa”, lembrou Shada Islam.

Mulheres também lideram luta contra mudanças climáticas para salvar o planeta

Além da crise econômica e sanitária provocada pelo Covid-19, 2021 será também o ano da Conferência sobre o Clima da ONU, a COP-26, em Glasgow, na Escócia, em novembro, um novo marco nas negociações climáticas internacionais. A sueca Greta Thunberg, que acabou de completar 18 anos, deve continuar inspirando jovens ativistas a lutar pelo clima do planeta. Mas há outros exemplos de liderança, como Fatima-Zahra Ibrahim, 27 anos, que tem trabalhado com questões climáticas por uma década e é fundadora da ONG Green New Deal no Reino Unido.  

Estudantes fazem passeata contra mudanças climáticas
Estudantes fazem passeata contra mudanças climáticas © Hannibal Hanschke/Reuters

É de sua casa em Londres, que a ativista e militante pelos direitos humanos tem participado de lives para explicar como transformar radicalmente a sociedade que reflete desigualdade e criar novos empregos verdes. Filha de refugiados da Somália, Fatima nasceu no Canadá e se mudou ainda criança com a família para Londres. Na adolescência, ela já organizava conferências climáticas para jovens nas Nações Unidas. Depois estudou Direito Ambiental e hoje faz mestrado em Desenvolvimento na SOAS, uma importante universidade londrina. Recentemente, a jovem ativista ganhou o Global Citizen Prize, movimento de cidadãos engajados que lutam para pôr fim à pobreza extrema até 2030.

“Ser jovem, negra e muçulmana no início dos anos 2000 era bastante difícil”, admite. "Se você não estava fazendo política, a política estava definitivamente fazendo você. Então, eu não tive outra escolha do que me politizar e me engajar em protestos. Eu era perfeitamente consciente de como os líderes e adultos estavam falhando”. Fatima Ibrahim terá uma boa chance de lutar contra essas falhas durante a COP-26.

Escócia sonha realizar novo referendo e voltar para UE

Em 2021, a Escócia será anfitriã da conferência climática da ONU, mas o maior desafio deve ser um novo referendo sobre sua independência. A primeira-ministra escocesa, Nicolas Sturgeon, quer a Escócia de volta na União Europeia como nação independente. Sturgeon faz questão de lembrar que o Brexit aconteceu contra a vontade da “esmagadora maioria” dos escoceses no referendo de 2016.

A decisão de convocar um novo referendo cabe ao primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que recusa a idéia. Sturgeon pretende pressionar o governo britânico a autorizar a realização de um segundo referendo sobre a autonomia do país se seu partido vencer as eleições regionais em maio deste ano. Para a premier e líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP) cabe à Escócia, nação de 5,5 milhões de habitantes, decidir o seu futuro.

Desde 2018, quando assumiu o mandato de cinco anos como Comissária para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, a sérvia Dunja Mijatovic – a primeira mulher a ocupar o cargo – foi categórica ao afirmar que “os direitos humanos são universais e que nenhum país é irrepreensível em termos de os respeitar”.

No final do ano passado, a Bélgica nomeou a primeira vice-premiê transexual da Europa, Petra De Sutter, para o novo governo de coalizão do país. Ginecologista e integrante do Partido Verde no Parlamento Europeu desde 2019 - representando o Groen, o partido verde flamengo - De Sutter se tornou a pessoa trans com o cargo político de maior relevância no continente.

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