Vacinação contra Covid-19 começa na Índia com desconfiança da população e imenso desafio logístico

Mulher indiana recebe primeira dose da vacina contra a Covid-19 neste sábado (16) em Mumbai.
Mulher indiana recebe primeira dose da vacina contra a Covid-19 neste sábado (16) em Mumbai. REUTERS - FRANCIS MASCARENHAS
Texto por: RFI
5 min

A Índia iniciou neste sábado (16) uma das maiores campanhas de vacinação do mundo contra a Covid-19. O país de 1,3 bilhão de habitantes planeja imunizar 300 milhões de pessoas até julho. Para dar prioridade à sua população, o governo indiano informou ontem que não poderá entregar dois milhões de doses da vacina da AstraZeneca/Oxford ao Brasil, como estava previsto.

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A campanha de imunização contra o novo coronavírus representa um imenso desafio para as autoridades indianas, por conta das deficiências crônicas de infraestrutura no país e problemas de segurança.

A Índia é o segundo país mais afetado pela Covid-19, depois dos Estados Unidos. Ao menos 10 milhões de casos foram oficialmente notificados desde o início da pandemia, embora a taxa de mortalidade seja uma das mais baixas do mundo. Os indianos não escapam das campanhas de desinformação e fake news que circulam nas redes sociais e nutrem uma enorme desconfiança em relação às novas vacinas. Uma pesquisa recente revelou que 69% dos entrevistados não tinham pressa em se vacinar.

Os 30 milhões de profissionais da saúde, também os mais expostos à doença, serão prioritários nesta primeira fase da vacinação. Na sequência, virão 270 milhões de pessoas com mais de 50 anos ou altamente vulneráveis ​​ao coronavírus.

O primeiro-ministro Narendra Modi inaugurou a campanha, fazendo um discurso virtual transmitido da sede do governo em Nova Délhi. A programação previa para este primeiro dia a imunização de 300 mil pessoas.

A campanha é baseada em duas vacinas: Covaxin, desenvolvida pela Bharat Biotech e pelo Conselho Indiano de Pesquisa Médica; e Covishield, uma versão desenvolvida pelo grupo farmacêutico AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford. Os dois imunizantes são produzidos pelo Serum Institute of India, depois de terem sido aprovados "com urgência", no início de janeiro. Em ambos os casos, estão previstas duas doses.

"100% segura"

O controlador-geral da agência reguladora de medicamentos, V.G. Somani, tentou tranquilizar a população, afirmando que as vacinas "são 100% seguras". "Eu nunca daria a aprovação se houvesse a menor preocupação com a segurança", disse.

Na capital, 81 postos de vacinação receberão o público prioritário quatro dias por semana (sábado, segunda, terça e quinta-feira), anunciou a prefeitura local. Cerca de 240 mil trabalhadores da área da saúde já se cadastraram para receber a primeira dose da injeção. As autoridades estimam que é possível imunizar cerca de 8.000 pessoas por dia.

Cerca de 150 mil funcionários em 700 distritos foram especialmente treinados em todo o país para participar dos esforços de vacinação. A Índia realizou vários exercícios de preparação nacional envolvendo, em particular, a simulação do transporte dos frascos e a aplicação das injeções. As autoridades dizem que vão aproveitar a experiência adquirida com as eleições e as campanhas de vacinação contra a poliomielite e a tuberculose. Mas especialistas estimam que o desafio atual é de outra ordem de grandeza. "Foi um exercício em escala muito menor", lembrou Satyajit Rath, do Instituto Nacional de Imunologia. "A vacinação contra a Covid-19 é profundamente exigente", acrescentou.

Em um país imenso e pobre, com redes rodoviárias muitas vezes deficientes e um dos sistemas de saúde mais mal financiados do mundo, a operação representa um desafio colossal. Uma das fontes de preocupação é com o armazenamento das vacinas, que requerem temperaturas baixas.

O país conta com quatro "mega depósitos" para estocar as doses e transportá-las para centros de distribuição em diferentes estados, em veículos com temperatura controlada. Porém, a etapa final pode ser muito mais difícil de executar.

Desconfiança e ceticismo

O governo indiano pretende gerenciar todo o processo usando tecnologias digitais, como o aplicativo governamental CoWIN, entre outras ferramentas. Mas já existem várias falsificações do instrumento. Além disso, as autoridades planejaram um forte esquema de segurança, que mobiliza milhares de policiais para garantir o transporte das vacinas em todo o país.

A Índia registra mais de 150 mil mortes provocadas pela Covid-19 e sua economia é uma das mais afetadas do mundo pela pandemia. Milhões de pessoas perderam seu meio de subsistência, num país recordista em salários miseráveis e trabalho informal. A taxa de infecção caiu drasticamente nos últimos meses, embora os especialistas temam uma terceira onda epidêmica após uma série de festividades religiosas que atraem multidões.

A chegada da vacina traria uma luz no fim do túnel, se não fossem as dificuldades de acesso para uma população tão numerosa e as campanhas de desinformação na internet.

Com informações da AFP

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