Portugal: brasileiros vão às urnas para defender democracia contra extrema direita

André Ventura, o candidato de extrema direita que disputa a presidencial em Portugal.
André Ventura, o candidato de extrema direita que disputa a presidencial em Portugal. © AFP/Patricia de Melo Moreira
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Os brasileiros residentes em Portugal, que segundo diferentes fontes seriam entre 300 mil e 400 mil imigrantes, acompanham com especial interesse os resultados da eleição presidencial deste domingo (24). Eleitores ouvidos pela RFI garantem que irão votar, apesar do agravamento da epidemia do coronavírus, para defender a democracia portuguesa contra a ascensão do populismo de direita.

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Enviada especial a Lisboa

Os brasileiros aptos a votar são aqueles que possuem a dupla nacionalidade luso-brasileira ou adquiriram direitos políticos pelo estatuto da igualdade. O voto é facultativo em Portugal, mas a presença do populista de direita André Ventura entre os candidatos ao Palácio de Belém tornou-se uma razão a mais para exercer esse direito.

Como a maioria dos portugueses, muitos brasileiros desaprovam as propostas de Ventura, um advogado de 38 anos, líder do Chega, partido antissistema criado há menos de dois anos. Ele defende a deportação de imigrantes legalmente instalados no país caso cometam delitos, mesmo leves, e quer rever os critérios vigentes de imigração para adaptá-los às necessidades da economia portuguesa.

Seu principal bode expiatório são os ciganos, mas seus ataques aos serviços de saúde e educação do Estado dão arrepios em muita gente que imigrou para a Europa para ter acesso a serviços públicos de qualidade. Ventura quer, entre outras medidas, a extinção do Ministério da Educação e a privatização do Sistema Nacional de Saúde português. Nas duas áreas, o Estado exerceria meras funções de regulamentação e inspeção, segundo o candidato. 

De acordo com as pesquisas, o atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa tem grandes chances de ser eleito no primeiro turno. Ventura aparece em terceiro lugar, atrás da socialista Ana Gomes, candidata independente. Porém, há empate técnico entre os dois, segundo algumas sondagens.

Eleição tem importância máxima para brasileiros, diz advogada

A advogada Caroline Campos, residente há três anos em Lisboa, tem a dupla nacionalidade luso-brasileira e vai votar pela segunda vez, depois das legislativas de 2019. A carioca vê uma mobilização maior do eleitorado nesta votação por causa da ascensão da extrema direita.

“Eu vejo que Portugal é um país muito democrático em termos de debate político. As sessões da Assembleia da República são transmitidas ao vivo e é uma vantagem haver esse papel muito forte”, opina. “O presidente da República tem o dever de garantir o bom funcionamento das instituições democráticas e tem exercido um papel fundamental ao defender essa visão nos debates da campanha, para que o povo possa exercer seus direitos de cidadãos”, diz a advogada. “Os brasileiros querem participar da vida política de Portugal até porque isso diz respeito à vida que eles vão viver; isso tem uma importância máxima para quem está morando aqui”, argumenta.

Caroline nota que o fluxo de brasileiros para Portugal continua muito forte, por conta da situação política e econômica no Brasil. “Com a epidemia, houve um movimento de regresso, algumas pessoas não conseguiram se manter, mas, mesmo assim, tem muitas pessoas querendo vir. Como a legislação portuguesa de estrangeiros oferece muitas possibilidades, a demanda de brasileiros por vistos continua nos acréscimos”, relata.

Marcelo, o professor protetor

O consultor de negócios e internacionalização de empresas Gerson Freire, 48 anos, faz parte da primeira geração de filhos de portugueses que imigraram para o Brasil nos anos 1920 e decidiram fazer o caminho de volta para Portugal. Ele nasceu e cresceu em São Paulo, mas trocou a capital paulista por Cascais em 2015. Neste domingo, ele vai votar em Rebelo de Sousa por considerá-lo a personalidade ideal para enfrentar a epidemia.

“Além de ser uma pessoa íntegra, equilibrada e moderada, ele é claramente de centro-direita no espectro político e representa a face aglutinadora que Portugal tanto precisa neste momento”, explica. Freire apreciou uma entrevista recente de Rebelo de Sousa, na qual ele se afirmou como “o presidente de todos os portugueses, mas também de todos os imigrantes e de todos que vivem em Portugal”.

“Ele entende essa dinâmica que Portugal é um país de imigrantes e lida com isso de maneira atenta e humanitária”, estima. Outro aspecto que o consultor de negócios admira em Rebelo de Sousa é seu carisma, a forma como ele representa bem Portugal no exterior e internamente. Segundo Freire, o chefe de Estado não hesita em exercer seu poder de veto quando vê que a Assembleia da República tomou alguma decisão equivocada. “Ele fez isso, recentemente, com a Lei da Nacionalidade, quando percebeu que alguns direitos de netos de portugueses estavam sendo subtraídos”, explica.

Para Freire, o grande envolvimento dos eleitores nessa campanha se deve a “algumas alterações e manutenções” desejadas pelos portugueses. “A pandemia mexeu com o inconsciente coletivo e mostrou o quanto é importante ter políticos que entendam o que o povo está passando, e o professor Marcelo entende isso”, afirma. “Portugal precisa começar a dar passos em direção à normalidade”, espera o luso-brasileiro.

Esquerda preocupada com a crise pós-pandemia

Durante a campanha, a Casa do Brasil de Lisboa (CBL), associação que defende os interesses de pessoas imigrantes e políticas igualitárias, promoveu sessões de debates com candidatos de esquerda. Foram convidados João Ferreira, apoiado pelo Partido Comunista Português, a eurodeputada feminista Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, e a socialista Ana Gomes. As duas mulheres aceitaram e, em dezembro, discutiram com imigrantes brasileiros, cabo-verdianos e de outros países lusófonos a situação de pessoas em situação de precariedade econômica e social.

Cyntia de Paula, presidente da CBL, diz que gostaria de ver um dos candidatos da esquerda no Palácio de Belém, “porque estaria mais alinhado à nossa missão”. A ativista lamenta que o estatuto da igualdade, quando outorgado, impede o beneficiado de votar nos dois países. “A pessoa precisa escolher onde vai votar”, lamenta Cyntia, o que acaba afastando muitos brasileiros da vida política em Portugal. “Acaba atuando mais quem tem a dupla nacionalidade”, observa. “É pena porque a participação política é muito importante tanto para o Estado que nos recebe quanto para nós, enquanto integrantes dessa democracia”, pontua.

“Tem havido um interesse crescente dos brasileiros que chegaram a Portugal, principalmente depois do golpe contra a presidente Dilma. Mesmo sem poder votar, muitos têm se envolvido nas campanhas dos candidatos em Portugal”, conclui.

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