Dez anos após Primavera Árabe, desilusão dos egípcios da Praça Tahrir continua

A Praça Tahrir, centro da Revolução Egípcia de 2011 que levou à renúncia de Hosni Moubarak.
A Praça Tahrir, centro da Revolução Egípcia de 2011 que levou à renúncia de Hosni Moubarak. © RFI/Véronique Gaymard
Texto por: RFI
5 min

Há exatamente dez anos, no dia 25 de janeiro de 2011, tinha início o movimento que levaria à queda do presidente egípcio Hosni Mubarak algumas semanas depois. Na sequência, o país elegeu um presidente islâmico, deposto pelo Exército. Desde então, o governo atual tem um histórico sombrio em termos de liberdades democráticas. Dez anos depois da Primavera Árabe, a RFI entrevistou um jovem que participou dos protestos na Praça Tahrir, no Cairo, que foi o centro do levante de 2011.

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Por Nicolas Falez

Taha Metwally nasceu e cresceu no Cairo. Ele tinha 22 anos em 25 de janeiro de 2011, quando participou da primeira manifestação anti-Mubarak. O rapaz se lembra "dos milhares de manifestantes nas ruas" e do slogan "Queremos pão, liberdade, igualdade, justiça!" que era entoado pela multidão e pelos habitantes da capital egípcia que, das varandas de seus apartamentos, encorajaram os manifestantes.

"Acho que naquela época todos na Praça Tahrir compartilhavam um sentimento de liberdade", diz Metwally. "Nós éramos apenas um, tínhamos o mesmo objetivo e devíamos continuar para ver o que poderíamos fazer...”

Entre o medo e alegria

Metwally também se lembra da violência que marcou a Revolução Egípcia, especialmente do ataque contra o acampamento da Praça Tahrir por partidários do poder, em 2 de fevereiro de 2011. Ele passou mal a primeira vez que sentiu o cheiro de gás lacrimogêneo. “Vi pessoas morrerem perto de mim. A Praça Tahrir estava cheia de crianças e mulheres, todos estavam com medo. E, ao mesmo tempo, vimos muitas pessoas tentando proteger o lugar. Mas é claro que é uma memória ruim, perdemos muita gente", conta.

Os protestos duraram até 11 de fevereiro, data da renúncia do presidente, e mais de 800 pessoas morreram na repressão ao movimento. Metwally também se lembra da alegria que tomou conta das ruas do Cairo quando Hosni Mubarak deixou o poder. Foi em um telão que o jovem acompanhou o último discurso do presidente egípcio e teve esperança de que a liberdade e a democracia estavam enfim chegando ao país. A eleição em 2012 do presidente islâmico Mohammed Morsi, seguida de sua queda iniciada também por protestos populares são acontecimento que Metwally vivenciou de longe, enquanto prestava o serviço militar.

O fim de uma revolução com a chegada do Marechal Sisi

A chegada ao poder, em 2013, de Abdel Fattah al-Sisi, marechal que depois se tornaria presidente, foi uma ducha de água fria. Metwally entendeu que a revolução havia fracassado: “Quando o ditador Abdel Fattah al-Sisi chegou, prendeu muitas pessoas, mas acho que ele encarcerou principalmente a liberdade. Todo mundo está com medo. Ninguém fala sobre política. O governo está tentando silenciar todo mundo”.

Ele assistiu à repressão contra opositores e organizações de direitos humanos. Militante em associações LGBT, Metwally cita particularmente a onda de detenções que se seguiu ao show do grupo de rock libanês Mashrou 'Leila no Cairo no outono de 2017. Dezenas de espectadores foram presos por agitarem a bandeira arco-íris, símbolo do orgulho gay.

"A França continua apoiando ditadores"

Há três anos, Taha Metwally vive exilado na França e fundou a ONG ANKH, que defende os direitos das pessoas LGBT, especialmente no Oriente Médio. O ativista denuncia o apoio do governo francês ao atual poder egípcio. Em dezembro de 2020, o presidente Sisi foi novamente recebido em Paris com toda a pompa de uma visita de Estado. O líder egípcio foi inclusive condecorado com a Grã-Cruz da Legião de Honra, a mais alta condecoração francesa.

O ex-manifestante da Praça Tahrir não esconde seu descontentamento com a proximidade exibida entre os líderes franceses e líderes pouco democráticos. “Houve 2011 (a Primavera Árabe), e mesmo assim a França continua acreditando que deve apoiar ditadores para ter estabilidade. Obviamente que é o contrário", salienta ainda Asmahan el-Badraoui, da Iniciativa Franco-Egípcia pelos Direitos e Liberdades.

Dez anos depois da Primavera Árabe, Taha não perde as esperanças. “Quando alguém rouba a liberdade de um povo, é claro que o povo não aceita. Estou convencido de que um dia milhões de pessoas voltarão às ruas. Um dia, voltarei a me manifestar na Praça Tahrir para pedir de novo o que esperávamos em 2011”.

Outro opositor do regime egípcio, hoje no exílio, é o escritor Alaa El Aswany. Censurado em seu país, perseguido por um tribunal militar, ele encontrou refúgio em Nova York. Em entrevista à RFI por ocasião do aniversário de dez anos da "Primavera Egípcia", ele disse que, apesar da ditadura atual, também mantém as esperanças em um futuro democrático para o Egito.

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