Manifestante morre e protestos contra junta militar de Mianmar continuam

A jovem Mya Thwate Thwate Khaing levou um tiro na cabeça durante um protesto reprimido com violência em Naypyidaw, capital administrativa de Mianmar, em 9 de fevereiro.
A jovem Mya Thwate Thwate Khaing levou um tiro na cabeça durante um protesto reprimido com violência em Naypyidaw, capital administrativa de Mianmar, em 9 de fevereiro. REUTERS - STRINGER
Texto por: RFI
5 min

Os protestos contra o golpe de Estado em Mianmar continuam e entram em sua segunda semana consecutiva neste sábado. A manifestante Mya Thwate Thwate Khaing, 20 anos, baleada na semana passada por um policial, morreu na manhã desta sexta-feira (19). Manifestações também acontecem em Paris.

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Com informações de Juliette Verlin, correspondente em Yangon e do serviço internacional da RFI

O incidente aconteceu há dez dias, durante uma manifestação contra o golpe em Naypyidaw, capital administrativa de Mianmar. Até então, a polícia usava canhões de água, gás lacrimogêneo e balas de borracha. Mas nesse protesto, um policial atirou contra os manifestantes. Mya se tornou um símbolo de resistência.

Na capital Yangon, onde o protesto ainda ocorre de forma pacífica, os manifestantes bloqueiam as ruas dirigindo lentamente para evitar a possível chegada de caminhões de soldados.

A determinação permanece intacta. As chamadas à greve estão aumentando, assim como as manifestações, inclusive em pequenas cidades sujeitas a uma repressão muito mais forte, longe das câmeras. A internet foi cortada novamente pela 5ª noite consecutiva.

Na manhã desta sexta-feira, ONGs que defendem os direitos LGBTQ em Yangon marcharam em direção ao templo Sule, no centro histórico da cidade. O cortejo reuniu manifestantes que usavam vestidos e sapatos de salto e fortemente maquiados, sob um sol forte e 30 graus de temperatura. Eles também denunciaram os policiais por não defenderem a população e prenderem manifestantes à noite, em suas casas.

Foi uma das procissões mais coloridas e variadas que Yangon já viu, misturando jovens e velhos, casais e amigos, vestidos elegantes ou modelos mais simples.

De acordo com Hla Myat Thun, fundador do Colors Rainbow, uma das principais organizações do movimento LGBT local, era importante organizar um protesto comunitário para mostrar apoio ao movimento contra a junta militar.

Quase 2.000 pessoas participaram, estima Hla Myat Thun. Assim que eles chegaram ao templo de Sule, um bloqueio policial os impediu de se aproximarem do local. Os manifestantes sentaram-se então na calçada, à sombra de um grande hotel, e continuaram a cantar.

Gandhi como modelo

Desde o golpe de 1º de fevereiro, mais de 520 pessoas foram presas. Entre elas, a ex-chefe de governo Aung San Suu Kyi, ainda em prisão domiciliar. Processada por motivos não políticos, ela deve comparecer ao tribunal em 1º de março.

“Estamos todos lutando para restaurar nossa democracia”, explica, sob condição de anonimato, um ex-membro da Liga Nacional para a Democracia (LND), pertencente à minoria étnica Karen. As pessoas estão unidas, independentemente da etnia, religião ou orientação política. Todos nós temos um objetivo comum: abolir a Constituição de 2008, que permite aos militares retomarem o poder por qualquer motivo. Todos nós aspiramos a uma nação democrática e federal. "

Monges protestam contra o golpe militar em Mianmar (16/02/21).
Monges protestam contra o golpe militar em Mianmar (16/02/21). AP

Para o ex-parlamentar, o exemplo a seguir está na Índia: “Gostaríamos de seguir o modelo indiano, o de Mahatma Gandhi, que à frente de um movimento de desobediência civil conseguiu sacudir o império colonial britânico. É um modelo que, em última análise, gostaríamos de transpor para o nosso movimento. A sociedade mudou: não é a mesma de quarenta anos atrás. Hoje temos gente muito jovem, muito bem organizada, conectada e educada. Eles votaram pela primeira vez e o voto universal é importante para eles. "

Manifestação em Paris em frente à embaixada de Mianmar

No exterior, o apoio da diáspora ao movimento de resistência também continua. Na quinta-feira (18), dezenas de pessoas se mobilizaram em frente à embaixada de Mianmar em Paris, para expressar insatisfação com o golpe de Estado que derrubou o governo de Aung San Suu Kyi.

Empunhando cartazes e com três dedos erguidos no ar em resistência, dezenas de birmaneses de todas as idades entoavam gritos de protestos na frente da embaixada.

Wunna, um estudante de doutorado de 27 anos, diz que lutará até o fim para que o povo birmanês recupere sua liberdade. “Eu cresci sob o regime militar. Eu cresci sob a ditadura. Nós não queremos mais isso. Naquela época, não esperávamos nada no futuro. Estávamos apenas tentando sobreviver. Não havia aspiração, nenhuma noção de esperança possível. Vamos realmente lutar por essa esperança. Queremos viver a vida que desejamos. E não queremos que nos tirem isso”, afirmou.

 

 

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