Mianmar: pelo menos seis pessoas morrem em protestos pró-democracia

Na cidade de Rangoun, em Mianmar, manifestantes contrários à junta militar são violentamente reprimidos pelas forças de ordem, neste domingo, 28 de fevereiro de 2021.
Na cidade de Rangoun, em Mianmar, manifestantes contrários à junta militar são violentamente reprimidos pelas forças de ordem, neste domingo, 28 de fevereiro de 2021. REUTERS - STRINGER

Pelo menos seis manifestantes foram mortos e muitos outros foram feridos neste domingo (28) em Mianmar pelas forças de segurança que dispersaram manifestações pró-democracia, a repressão mais violenta aos protestos que tomam o país desde o golpe militar que derrubou do poder a líder civil Aung San Suu Kyi, em 1º de fevereiro.

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Diante de manifestações completamente pacíficas, as autoridades vêm intensificando o uso da força para dispersar as manifestações com gás lacrimogêneo, canhões de água, balas de borracha e até mesmo munição real.

De acordo com Nyi Nyi, um ex-deputado do partido de Aung San Suu Kyi, entre as vítimas fatais deste domingo está um manifestante de 23 anos, morto em Yangon. Outras três pessoas morreram e cerca de 20 ficaram feridas na cidade costeira de Dawei, no sul do país, de acordo com o relato de um voluntário de resgate e informações da mídia local.

Pyae Zaw Hein, voluntário de resgate, declarou à AFP que as três vítimas foram "atingidas por munição real", enquanto os feridos foram atingidos por munição de borracha. "Pode haver muito mais mortes se continuarmos a receber feridos", acrescentou.

Dois jovens de 18 anos foram mortos em Bago, cidade 80 quilômetros a nordeste de Yangon, de acordo com profissionais de saúde. Em Mandalay, na região central, um manifestante, gravemente ferido por um projétil que perfurou seu capacete e se alojou em seu cérebro, está em estado crítico.

Este é o dia mais mortal desde o golpe, que já somava pelo menos cinco mortos, vítimas da repressão aos protestos pró-democracia. O Exército informou que um policial foi morto tentando dispersar uma manifestação.

“Escandalosa e inaceitável”

"A forte escalada no uso de força letal (...) é escandalosa e inaceitável e deve ser interrompida imediatamente", alertou Phil Robertson, vice-diretor da divisão da Ásia da Human Rights Watch.

Em Rangoon, as forças de segurança dispersaram rapidamente as manifestações deste domingo. Mas não se sabe se houve uso de munição real. "A polícia começou a atirar assim que chegamos. Não houve uma palavra de aviso", relatou Amy Kyaw, uma professora de 29 anos.

Em muitas ruas da cidade, os manifestantes se protegeram atrás de barricadas improvisadas ou escudos caseiros, enquanto a polícia disparava gás lacrimogêneo, de acordo com os noticiários nas redes sociais.

A repressão a jornalistas também é violenta. Um deles foi espancado pela polícia e preso em Myitkyina, ao norte do país, de acordo com a mídia local. Outro jornalista foi alvo de balas de borracha na região central do país. No sábado (27), pelo menos três jornalistas foram presos, incluindo um fotógrafo da agência americana Associated Press e um cinegrafista e um fotógrafo de duas agências birmanesas, Myanmar Now e Myanmar Pressphoto, respectivamente.

Centenas de prisões

Ao todo, mais de 850 pessoas já foram presas, acusadas ou condenadas desde o golpe, de acordo com uma ONG Assistance Association for Political Prisoners (AAPP), que ajuda presos políticos. Mas esse número pode explodir neste final do fim de semana, com a mídia oficial relatando 479 prisões apenas neste sábado.

A repressão vem sendo condenada por muitas capitais estrangeiras, com Estados Unidos e União Europeia denunciando a violência das forças de segurança e pedindo a retirada da junta militar.

Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1991, não foi vista em público desde sua detenção. Sob prisão domiciliar na capital, Naypyidaw, ela foi acusada de importações ilegais e de violar as restrições relacionadas à contenção da crise do coronavírus. Uma audiência está prevista para segunda-feira (1°).

Apesar de diversos pedidos, seu advogado, Khin Maung Zaw, não teve permissão para ver sua cliente. "Como advogado, tenho toda a confiança no tribunal e no princípio de um julgamento justo", disse ele à AFP. "Mas, neste momento, tudo pode acontecer."

A junta demitiu neste sábado seu embaixador nas Nações Unidas, Kyaw Moe Tun, em seguida ao seu espetacular rompimento com a junta militar. "Precisamos da ação mais forte da comunidade internacional para encerrar imediatamente o golpe militar, acabar com a opressão das pessoas inocentes e restaurar o poder do Estado ao povo", declarou Kyaw Moe Tun em uma sessão especial da Assembleia Geral da ONU. O porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, revelou que a organização não foi formalmente informada da demissão do diplomata.

Os últimos levantes populares no país, de 1988 e 2007, foram reprimidos com derramamento de sangue. O país já viveu sob o regime militar por quase 50 anos, desde sua independência, em 1948, e o golpe de Estado encerrou uma frágil transição democrática de dez anos.

Com informações da AFP.

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