Moscou instala "telas-espiãs" no metrô para vigiar passageiros

O metrô de Moscou quer equipar 85 estações com mais de 300 telas equipadas com o sistema de reconhecimento facial.
O metrô de Moscou quer equipar 85 estações com mais de 300 telas equipadas com o sistema de reconhecimento facial. AP - Sergei Kiselev

A prefeitura da capital russa pretende equipar 85 estações com mais de 300 dispositivos de reconhecimento facial em telas usadas para divulgar anúncios publicitários e informações sobre os trajetos. O projeto levanta questões sobre o respeito à privacidade no país, onde há um excesso de câmeras de vigilância.

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Daniel Vallot, correspondente da RFI em Moscou

As câmeras serão instaladas dentro das telas e não identificarão os passageiros, assegurou o porta-voz do metrô moscovita, entrevistado pelo jornal Kommersant, que revelou a existência do projeto. Mas, no edital de licitação, a prefeitura da cidade especifica que as câmeras devem ser equipadas com a tecnologia de reconhecimento facial. 

A empresa que administra o metrô da capital alega que o objetivo da tecnologia é "garantir a segurança dos passageiros", e contabilizar o fluxo de pessoas para evitar um "engarrafamento nos corredores e plataformas. Desta maneira, a polícia pode intervir mais rapidamente em caso de incidentes. O custo total do projeto, segundo o jornal russo, é orçado em 930 milhões de rublos, o equivalente a cerca de 69 milhões de reais. 

Coleta de dados pessoais

As telas-espiãs também podem servir para fins comerciais, como lembra a associação Roskomsvoboda, citada na reportagem do jornal Kommersant, que denuncia um possível envio dos dados coletados aos anunciantes. 

Com uma rede de mais de 100.000 câmeras de reconhecimento facial, a capital russa é uma das modernas no mundo nesse aspecto. Mas a utilização em massa de câmeras de vigilância gera polêmica: os equipamentos foram utilizados, por exemplo, para controlar a quarentena das pessoas contaminadas pela Covid-19. Elas também seriam usadas pela polícia para identificar e prender os opositores do regime durante as manifestações.

Projeto "Orwell"

 Câmeras desse tipo já foram instaladas em mais de 1.600 escolas e dezenas de milhares de outros equipamentos também poderiam estar conectados a esse sistema. As câmeras instaladas nas entradas, nos corredores ou nas escadarias das escolas deveriam permitir a identificação de todas as pessoas que entram nos estabelecimentos.

Mas, de acordo com o jornal RBK, os equipamentos também poderiam ser utilizados para verificar a presença ou a ausência dos alunos e professores em um determinado horário. O projeto foi batizado pelas autoridades de "Orwell", em referência ao escritor George Orwell, autor do célebre romance "1984", que descreve uma sociedade repressiva e sob vigilância permanente.

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