Aliados de Merkel que receberam propinas ameaçam sucessão da chanceler

Georg Nusslein (à esquerda) e Nikolas Lobel, os dois deputados conservadores alemães investigados por corrupção.
Georg Nusslein (à esquerda) e Nikolas Lobel, os dois deputados conservadores alemães investigados por corrupção. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas/ wikipedia

Dois deputados do grupo conservador (CDU-CSU) da chanceler Angela Merkel no Parlamento alemão, Georg Nusslein et Nikolas Lobel, são suspeitos de terem recebido propinas milionárias de fabricantes de máscaras, que negociaram contratos com o governo em meio à epidemia de Covid-19. Sob pressão, um deles já renunciou ao mandato.

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A popularidade dos conservadores sofre um revés a uma semana das eleições regionais em dois estados alemães, Baden-Wurttemberg e Renânia-Palatinado. Os dois pleitos são vistos como uma prévia das eleições legislativas de 26 de setembro, que devem designar um sucessor à chanceler alemã, no poder há mais de 15 anos.   

O parlamentar Nikolas Lobel, 34 anos, já envolvido em um enorme escândalo imobiliário em sua cidade, Mannheim (sudoeste), renunciou ao mandato de deputado nesta segunda-feira (8). Segundo uma reportagem da revista Der Spiegel, o representante do estado de Baden-Wurttemberg, membro da União Democrata-Cristã (CDU), teria ajudado um fabricante chinês de máscaras a identificar clientes na Alemanha. Por esta mediação, ele teria recebido € 250 mil, cerca de R$ 1,7 milhão. 

No domingo (7), Lobel já havia anunciado que não iria concorrer às eleições legislativas de 26 de setembro, que devem designar o sucessor de Merkel. Ontem, diante das repercussões do escândalo, ele cedeu o cargo. "Ser membro do Bundestag é uma grande honra e exige uma moralidade perfeita. Com minhas ações, não consegui atender a essa demanda e por isso gostaria de me desculpar”, disse Lobel em sua página no Facebook. 

O escândalo veio à tona em 25 de fevereiro, quando investigadores realizaram operações de buscas e apreensão de documentos simultâneas no comitê do deputado Georg Nusslein e nas dependências que ele ocupa no Parlamento alemão, em Berlim. O parlamentar, membro da União Social-Cristã (CSU) na Baviera (sul), tornou-se alvo de um inquérito aberto pelo Ministério Público de Munique, que suspeita que ele tenha atuado como intermediário na venda de máscaras para vários ministérios.

Nusslein, um especialista em questões de saúde no Parlamento, teria recebido € 660 mil de propina (cerca de R$ 4,6 milhões) de um fabricante de proteções faciais instalado em Offenbach (centro). O depósito foi localizado na conta bancária de uma empresa que pertence ao deputado de 51 anos, membro da Casa desde 2002.

Pressões por demissão

Para facilitar as investigações, a imunidade parlamentar de Nusslein foi revogada há onze dias. Nusslein se afastou da função de vice-líder da bancada da CDU-CSU no Parlamento. Também anunciou, na segunda-feira, que abandonava a ideia de disputar um novo mandato, em setembro, pela CSU. Por outro lado, ele disse que permanecerá no cargo de deputado até o fim da atual legislatura, em agosto. Uma escolha que é criticada pelo presidente da legenda, Markus Soder, que prefere a renúncia imediata para não prejudicar o partido nas eleições. 

Os dois casos de suspeita de corrupção afetam a popularidade da chanceler alemã, alvo de duras críticas pela lentidão da vacinação na Alemanha. Merkel também é cobrada por não ter planejado uma campanha de testes maciça da população, antes de começar a levantar progressivamente as restrições adotadas para conter a epidemia. 

De acordo com uma pesquisa publicada no domingo (7) pelo jornal Bild, 47% dos alemães dizem estar insatisfeitos com a gestão de Merkel neste momento, contra 43% de opiniões favoráveis. Um ano após o começo da epidemia na Alemanha, esta é a primeira vez que uma sondagem aponta que os alemães críticos à ação da chanceler são mais numerosos do que os que aprovam sua atuação. Merkel, que esperava deixar o governo de forma triunfal após mais de 15 anos no comando, tem seu legado arranhado na reta final. 

A mesma pesquisa publicada pelo Bild mostra que a coligação da chanceler (CDU-CSU) tem apenas 32% de intenções de voto atualmente, ou seja, menos do que receberam nas últimas eleições legislativas de 2017 (32,9%).

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