Imagens photoshopadas de vítimas de genocídio causam revolta no Camboja

O artista irlandês Matt Loughrey coloriu fotos antigas de vítimas como parte de um projeto pessoal artístico. Sua decisão de adicionar sorrisos aos rostos de alguns dos que haviam sido assassinados gerou indignação.
O artista irlandês Matt Loughrey coloriu fotos antigas de vítimas como parte de um projeto pessoal artístico. Sua decisão de adicionar sorrisos aos rostos de alguns dos que haviam sido assassinados gerou indignação. © Reprodução Twitter / @Jacques_Pezet

Cambojanos que perderam entes queridos no genocídio perpetrado pelo Khmer Vermelho ficaram indignados neste domingo (11) com a escolha feita por um artista irlandês de adicionar sorrisos às fotos em preto e branco de vítimas do regime sanguinário.

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Instalada em 17 de abril de 1975, a ditadura maoísta do Khmer Vermelho, liderada por Pol Pot, caiu em 7 de janeiro de 1979 sob os tanques do Vietnã socialista. Entretanto, cerca de dois milhões de pessoas, ou cerca de um quarto da população, morreram de exaustão, fome, doença ou como resultado de tortura e execução no "Kampuchea Democrático".

O regime fotografou milhares de suas vítimas, incluindo aquelas enviadas para Tuol Sleng (S-21), a prisão central de Phnom Penh onde 15.000 pessoas foram torturadas antes de serem executadas pelo Khmer Vermelho.

O artista irlandês Matt Loughrey coloriu fotos antigas de vítimas como parte de um projeto pessoal artístico. Sua decisão de adicionar sorrisos aos rostos de alguns dos que haviam sido assassinados gerou indignação.

Uma seleção das fotos acompanhada de uma entrevista com Matt Loughrey foi publicada neste fim de semana no site norte-americano Vice News, gerando uma torrente de críticas no Camboja e nas redes sociais.

“Estou em contato com o museu para tornar essas fotos acessíveis a todos”, diz o artista nesta entrevista à Vice, referindo-se ao museu do genocídio agora instalado no local da prisão. Segundo ele, a recepção ao projeto até agora tem sido "excelente".

"Insulto às vítimas"

O artigo parece ter sido retirado do site da Vice neste domingo (11). Anteriormente, ele vinha acompanhado de uma declaração de isenção de responsabilidade da Vice, e de um texto que dizia que "Foi-nos relatado que os retratos restaurados publicados neste artigo foram alterados além da colorização. Estamos revisando o artigo e considerando ações corretivas". Matt Loughrey ainda não se pronunciou sobre a polêmica.

Norng Chan Phal, um sobrevivente do S-21 de 52 anos que perdeu seus pais nesta prisão, chamou o projeto de "um insulto às vítimas do Khmer Vermelho".

"Condeno veementemente essas fotos coloridas porque nenhuma das vítimas no S-21 jamais foi feliz", disse ele. “Nós, as vítimas que entramos no S-21, nunca tivemos a chance de sorrir. Não sou a favor de nenhuma modificação nas fotos. Estávamos sofrendo”, sublinhou.

 Para o Ministério da Cultura do Camboja, a manipulação das imagens realizada por Matt Loughrey "afeta seriamente a dignidade das vítimas" e a realidade da história do Camboja.

O projeto também viola os direitos do Museu do Genocídio Tuol Sleng, proprietário e guardião das fotos, acrescentou em um comunicado o ministério que pediu a Matt Loughrey e Vice para retirar as imagens photoshopadas sob pena de uma ação "em tribunal (nacional e internacional )

O deputado Hun Many, filho mais novo do primeiro-ministro cambojano Hun Sen, disse que ficou chocado, e escreveu um post no Facebook dizendo que "isso mostra claramente que esses indivíduos, especialmente os estrangeiros, não entendem a dolorosa tragédia do Camboja, e em particular as vítimas que sofreram tortura e assassinato na prisão de Tuol Sleng".

(Com informações da AFP)

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