Covid 19: Índia bate novo recorde de casos e enfrenta escassez de oxigênio

Transferência de paciente em meio à pandemia de Covid-19 para um hospital em Ahmedabad, oeste da Índia.
Transferência de paciente em meio à pandemia de Covid-19 para um hospital em Ahmedabad, oeste da Índia. © REUTERS - AMIT DAV

A Índia registrou quase 315.000 novos casos de Covid-19 em 24 horas, um novo recorde mundial que deixa os hospitais de Nova Delhi no limite de suas capacidades e diante de uma preocupante escassez de oxigênio. O país contabilizou também 2.074 mortes em 24h. Esse é o maior número de mortes diárias no mundo hoje, à frente do Brasil. 

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Com Sébastien Farcis, correspondente da RFI na Índia

Desde o início da pandemia, a Índia registra 15,9 milhões de infectados, o que significa que é o segundo país com o maior número de casos, atrás apenas dos Estados Unidos e à frente do Brasil (14,12 milhões de casos).

Mas o Brasil, com 212 milhões de habitantes, tem um balanço de 381.000 mortos, o dobro da Índia, onde vivem 1,3 bilhão de pessoas.

Com as 2.074 novas mortes registradas, o balanço oficial da epidemia no país chega a quase 185 mil vítimas fatais. O número de casos e mortes proporcionalmente à sua população, no entanto, continua sendo consideravelmente menor na Índia que em vários países.

Busca por oxigênio

Jitin Sheti está esperando há dois dias por uma cama de hospital em Nova Delhi para sua esposa, doente com Covid. Nesse intervalo, ele precisava encontrar uma maneira de dar oxigênio a ela. "Tive que encontrar um cilindro de oxigênio por meio de meus contatos pessoais, é claro, porque é muito difícil obtê-lo", disse ele. E é caro. "Seu nível de oxigênio é 88 e seu caso está se deteriorando", acrescenta. 

O oxigênio está faltando em toda a Índia. Os maiores hospitais têm suprimentos para apenas algumas horas. Em Lucknow, capital do estado de Uttar Pradesh, um hospital privado tinha apenas 15 minutos de estoque na quarta-feira (21) e não havia mais cilindros disponíveis na cidade, segundo autoridades locais. Em Nashik, no sul, um vazamento de oxigênio matou 24 pacientes em minutos.

A Índia aumentou sua produção de oxigênio nas últimas semanas, mas não rápido o suficiente. Atualmente, mais de um em cada dois pacientes com Covid precisa agora do produto, uma média acima comparada à onda anterior.

A partir desta quinta-feira (22), a produção para setores não essenciais será encaminhada para hospitais. No entanto, para muitas famílias que procuram oxigênio desesperadamente nas redes sociais, pode ser tarde demais. “A pessoa que precisava morreu”, explica uma mulher ao telefone, antes de desligar.

Esse aumento exponencial de Covid-19 na Índia, com quase 3,5 milhões de novas contaminações desde o início do mês, é atribuído especialmente a uma "dupla mutação" do vírus.

Qual é a variante indiana?

Depois das variantes britânica, sul-africana e brasileira, a indiana também preocupa por suas características e pela rápida deterioração da situação de saúde na Índia, embora não haja indícios até o momento de que seja mais contagiosa ou mais resistente às vacinas.

Esta variante, chamada B.1.617, foi vista no oeste da Índia em outubro de 2020.

É classificada como uma "mutante dupla" porque contém duas mutações potencialmente preocupantes, relacionadas à proteína spike que permite que o SARS-CoV-2 penetre no corpo humano.

A primeira, E484Q, lembra a das variantes sul-africana e brasileira, suspeitas de tornar a vacinação menos eficaz e aumentar o risco de reinfecção.

A segunda, a L452R, também está presente em uma variante detectada na Califórnia e pode ser capaz de causar aumento na transmissão.

É a primeira vez que ambas as mutações foram detectadas em uma variante com difusão significativa.

Falha imunológica

A preocupação é, portanto, que essa variante seja mais resistente às vacinas destinadas a combater cepas anteriores da Covid-19 e, ao mesmo tempo, seja mais contagiosa.

"A mutação 484 pode ser parcialmente responsável por uma falha imunológica, mas não é suficiente por si só. Ela deve eventualmente estar associada a outras mutações que não vemos na variante indiana", disse o virologista francês Bruno Lina.

"Em uma ou duas semanas, teremos uma estimativa mais quantitativa da reação da variante à vacina", disse Rakesh Mishra, do Centro de Biologia Celular e Molecular da Índia.

Além disso, a situação na Índia, diante de uma explosão de infecções e mortes, preocupa muitos países que estão tentando mitigá-la com campanhas massivas de vacinação.

Países europeus restringem o acesso de viajantes

O Reino Unido restringiu na segunda-feira (19) assentos em voos desse país aos seus residentes, depois de confirmar 103 casos da variante "indiana" em seu território.

Por sua vez, a França incluiu na quarta-feira (21) a Índia na lista de países cujos viajantes devem passar pela quarentena obrigatória.

Mas até agora nada prova que essa variante seja responsável pelo agravamento da epidemia na Índia.

“No momento, não foi estabelecida nenhuma ligação entre o surgimento desta variante e a recente degradação da situação epidemiológica”, destacou a agência de saúde pública francesa em sua última análise sobre o assunto, datada de 8 de abril.

“É possível que esta degradação se deva, pelo menos em parte, às grandes aglomerações que ocorreram recentemente em todo o país e à adoção insuficiente de medidas de prevenção entre a população em geral”, afirma a agência de Saúde Pública francesa.

Além disso, meses depois de ser detectada, essa variante ainda não se tornou predominante no país, ao contrário da britânica, por exemplo. Mesmo no estado de Maharastra (centro), onde surgiu, representou apenas entre 15 e 20% das amostras sequenciadas em março, segundo o Ministério da Saúde. E é ainda mais minoritário no resto da Índia.

(Com AFP)

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