Mercado clandestino do oxigênio cresce na Índia com aumento de casos de Covid-19

A comunidade internacional se mobilizou para ajudar a Índia. O primeiro carregamento de ajuda médica britânica, com 100 respiradores e 95 concentradores de oxigênio, chegou a Nova Délhi na terça-feira (27).
A comunidade internacional se mobilizou para ajudar a Índia. O primeiro carregamento de ajuda médica britânica, com 100 respiradores e 95 concentradores de oxigênio, chegou a Nova Délhi na terça-feira (27). © REUTERS/Adnan Abidi

A Índia continua lutando contra o aumento de casos de Covid-19 depois de bater um novo recorde mundial. Nas últimas 24 horas, foram registrados 362 mil contaminações e 3.200 mortes, muitas provocadas pela falta de oxigênio nos hospitais, que agora pode ser obtido no mercado clandestino.

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Sébastien Farcis, correspondente da RFI em Nova Déli

Mukesh Kashyap está destruído. Durante horas, ele procurou oxigênio para sua mulher, contaminada pela Covid-19, indisponível nos hospitais de Nova Délhi, que se recusaram a atendê-la. Em em estado grave, ela acabou morrendo. Foi somente após o drama que Kashyap entendeu que o oxigênio poderia ter sido obtido de uma outra forma.

"Há muitos intermediários que ganham dinheiro com isso", diz. "Há cinco horas, meu irmão me disse que um homem estava vendendo oxigênio em frente ao hospital Apollo. No hospital, não há mais oxigênio, mas alguém, em frente ao hospital, está vendendo. É horrível", diz.

A campanha de vacinação, que começou em janeiro, gerou um sentimento de segurança na população e a crença de que o pior já tinha passado, levando a um relaxamento das medidas de proteção. ONGs presentes no país, como a Médicos Sem Fronteiras, tentam ajudar da maneira que é possível.

"As equipes da Médico Sem Fronteiras estão presentes na Índia há muito tempo, com um grande programa de tratamento da tuberculose em Mumbai. Hoje a ONG continua esse trabalho, listando e diagnosticando os pacientes que vêm por outros motivos e acabam sendo diagnosticados com Covid-19", diz Emmanuel Baron, epidemiologista da Médicos Sem Fronteira.

"Apoiamos as estruturas de saúde, com profissionais, oxigênio, reforço na triagem e organização no atendimento. Também atuamos na prevenção das infecções hospitalares, levando material  às equipes. Essa ajuda é preciosa neste contexto", reitera. 

Falta de medicamentos

O mercado clandestino do oxigênio surgiu há duas semanas, diante da falta do produto e de outros medicamentos usados no tratamento contra a Covid-19, como o remdesivir.

A polícia da capital anunciou na terça-feira (27) ter detido três traficantes: um deles era diretor de uma UTI de um hospital e o outro fornecedor de material médico. Eles vendiam uma grande garrafa de oxigênio pelo equivalente a R$ 3.564 - cinco vezes a mais que o preço normal. 

Tanisha, enfermeira de um hospital em Nova Délhi, conta que deve cuidar de 15 a 20 pacientes por dia sozinha. "Cheguei hoje de manhã e um paciente morreu na minha frente porque eu não tinha oxigênio suficiente para salvá-lo. Todos os dias, vejo de 6 a 7 pacientes morrer", diz.

Segundo ela, não há mais leitos e muitas pessoas esperarem vários dias para receber atendimento. "É difícil para mim eu meus colegas, estamos cansados. Não temos nenhum reconhecimento, nossos salários são baixos. O hospital está nos devendo três meses de salário", declara.

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