Início de retirada definitiva de soldados americanos do Afeganistão abre período de incertezas

Soldados alemães que integram as tropas internacionais da Otan no Afeganistão. Foto de 29 de março de 2012,
Soldados alemães que integram as tropas internacionais da Otan no Afeganistão. Foto de 29 de março de 2012, AFP - JOHANNES EISELE

Após 20 anos de guerra no Afeganistão contra os rebeldes talibãs, todos soldados americanos vão deixar o país. A retirada dos últimos militares estrangeiros presentes no país começa neste sábado (1°) e deve prosseguir até 11 de setembro, aniversário dos atentados contra os Estados Unidos que motivaram a intervenção no Afeganistão. As tropas da Otan, que adotaram o cronograma estabelecido por Washington, começaram a deixar o país na quinta-feira (29).

Publicidade

Ainda estão mobilizados no Afeganistão 2.500 soldados americanos, além de 16.000 civis que prestam serviço para os militares. As tropas estrangeiras no país são completadas com 7.000 soldados da Otan, que dependem do exército americano para o transporte de homens e equipamentos.

Além dos americanos, entre os 36 aliados que integram a força internacional, os países mais comprometidos são Alemanha (1.300 soldados), Itália (pouco menos de 900), Reino Unido (750) e Turquia (600).

A retirada foi prevista no acordo de Doha de fevereiro de 2020 entre a administração do ex-presidente Trump e os Talibãs, e abre um período de grandes incertezas. Desde o anúncio da saída de tropas estrangeiras do país, a violência tem aumentado e os ataques talebãs contra policiais e soldados afegãos são quase cotidianos. Mais de cem pessoas foram mortas nas duas últimas semanas.

Nessa sexta-feira (30), pelo menos 21 pessoas morreram e 90 ficaram feridas na explosão de um carro-bomba em Pul-e-Alam, capital da província de Logar (leste). O ataque, atribuído ao grupo rebelde, teve como alvo uma pousada onde viviam dezenas de pessoas.

Forças afegãs

Desde 2015, a Otan treina as forças de segurança afegãs para garantir segurança no país após a saída dos aliados. Mas no momento em que essa missão de apoio chega ao fim, o chefe do comando central do Exército dos Estados Unidos, General McKenzie, está preocupado. Ele teme que o exército afegão não tenha capacidade para combater a violência, sem o apoio do exército e dos serviços de inteligência da coalizão internacional que, há anos, lhe dá uma vantagem sobre os rebeldes talibãs.

Há o temor de que a retirada das forças da Aliança Atlântica leve o Afeganistão a uma outra guerra civil ou permita que os talibãs, derrotados no final de 2001, voltem ao poder.

“O grupo rebelde fecha aos poucos o cerco e quando o último soldado americano e as forças da Otan deixarem o Afeganistão em setembro, dou apenas algumas semanas no máximo para o atual governo cair “, prevê Jean-Charles Jauffret, professor emérito de História Contemporânea da Escola de Ciências Políticas de Aix-en-Provence, entrevistado pela RFI.

População afegã inquieta

A retirada definitiva das tropas estrangeiras é mal compreendida por grande parte da população afegã, especialmente pelos moradores das grandes cidades como Cabul, relata a correspondente da RFI no país, Sonia Ghezali, que entrevistou várias pessoas nas ruas da capital.

O vendedor de flores Mohammad Azim tinha uma loja que foi fechada há vários anos por falta de clientes. “A retirada é uma coisa muito ruim”, disse o florista. “Eles deviam sair quando as pessoas se sentissem seguras, um pouco mais tranquilas", propôs.

Torpikay, que passeava com suas duas filhas, teme que a retirada das tropas estrangeiras facilite o retorno ao poder dos talibãs, um regime autoritário que ela conheceu. “A situação das mulheres era muito ruim naquela época”, explica a afegã. “Não tínhamos direitos. Só podíamos sair de casa se estivéssemos acompanhadas por um homem. As coisas mudaram. Hoje podemos sair quando queremos. Não tenho que esperar meu marido sair do trabalho para ir ao médico, comprar remédios, fazer compras. Eu posso ir com minhas filhas. Nós somos livres", descreve a mulher.

Sua filha Mina, que trabalha na Autoridade de Aviação Civil, não acredita em retorno dos talibãs. “Impossível”, afirma categoricamente. “Os jovens não querem voltar aos tempos sombrios do nosso passado porque estudamos e, naturalmente, queremos trabalhar e ser livres. Isso é mais importante do que a retirada dos soldados estrangeiros”, acredita.

Mina espera que nada mudará em sua vida. Já sua mãe, não tem tanta certeza. “Não sou tão otimista; sei do que os talibãs são capazes!"

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.