Brasileiras relatam “caos indescritível" na Índia, com cremações a céu aberto e hospitais sem oxigênio

Sala de eventos se transforma em centro médicos para pacientes da Covid-19 em Nova Delhi (India). (28/04/2021)
Sala de eventos se transforma em centro médicos para pacientes da Covid-19 em Nova Delhi (India). (28/04/2021) Prakash SINGH AFP

As cenas na televisão estavam tão impressionantes que a enfermeira Márcia Alexandrina Carvalho Kumar, moradora de Lucknow, na Índia, precisou ver com os próprios olhos para acreditar. "Passamos de carro na área do crematório e a visão é indescritível. São piras e mais piras [de corpos]. É uma coisa surreal. Se me contassem, eu não acreditaria”, descreve a brasileira, que vive há mais de 20 anos no país, novo epicentro da pandemia de Covid-19.

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Lúcia Müzell, da RFI

O aparecimento de variantes mais contagiosas no território indiano fez o número de vítimas disparar de maneira descontrolada. Dia após dia novos recordes de mortes são batidos, chegando a 3.700 no último sábado (1°). Os crematórios das grandes cidades não conseguem dar conta da alta da demanda.

“Os governantes tentam esconder o número de pessoas cremadas. Mas como você faz para encobrir uma pira enorme que está queimando? São centenas por dia. As pessoas fazem filas com os seus mortos na rua, sentadas no chão, debaixo de um calor de 40 graus”, conta Marcia, de 52 anos. "Os mortos não poderiam estar expostos ao calor porque estão apodrecendo. Eu não tenho nem palavras para descrever. A situação está fora de controle."

A situação mais crítica encontra-se em Nova Délhi e Mumbai, onde faltam leitos, medicamentos e os cilindros de oxigênio são vendidos a preço de ouro nos hospitais.

"A pandemia é uma lente de aumento para problemas que sempre existiram aqui, só que agora, a coisa explodiu." Márcia interrompe o depoimento para conter a emoção. “O sistema de saúde indiano entrou em colapso total. As pessoas estão desesperadas. Quando elas conseguem oxigênio, ouvem um 'boa sorte' porque quando acabar aquele cilindro, não terá mais – e não tem mais para onde correr para conseguir.”

A enfermeira Márcia Alexandrina Carvalho Kumar é moradora de Lucknow e vive na Índia há mais de 20 anos.
A enfermeira Márcia Alexandrina Carvalho Kumar é moradora de Lucknow e vive na Índia há mais de 20 anos. © Arquivo pessoal

Distanciamento social na Índia “é impossível”

Do outro lado do país, a tradutora Layla Correa Mishra, de 43 anos, percebe que a segunda onda avassaladora de Covid-19 está se aproximando de Kota, na região do Rajastão, noroeste da Índia. Os hospitais ainda têm vagas e o governo regional adotou um lockdown parcial, partir das 11h, para tentar evitar o pior. "Tudo fecha e você só encontra vendedores de legumes ou de leite nas ruas. Isso gera aglomerações. O distanciamento aqui na Índia é impossível: é muito populoso, tudo tem muita gente”, afirma a carioca, que trocou o Rio de Janeiro pelo país asiático há cinco anos.

"Os trens, metrôs e templos estão sempre lotados, com muita gente sem máscara. É um caos. No Brasil, os meus pais nem querem ver televisão porque estão apavorados com a situação aqui. Mas se você parar para pensar na proporção de pessoas que tem aqui e no Brasil, a situação das mortes lá está muito pior”, compara Layla.

Layla Correa Mishra está ansiosa para tomar a vacina contra a Covid-19.
Layla Correa Mishra está ansiosa para tomar a vacina contra a Covid-19. © Arquivo pessoal

A também tradutora Debora Blanche Daher reconhece os esforços da Índia para atrasar ao máximo a explosão do coronavírus. Em 2020, rígidos lockdowns conseguiram manter o número de contaminações e mortes relativamente baixos, em uma população de mais de 1,4 bilhão de habitantes, seis vezes maior que a do Brasil. O contexto social e sanitário na Índia, com pouco acesso a água e esgoto encanados, também é incomparavelmente pior que o brasileiro.

 

“No começo, eu achava que que a Índia tinha tudo para ser o caos na Terra na pandemia, mas o lockdown durou muitos meses e não tinha ninguém na rua. As pessoas usavam máscaras, obedeceram muito mais do que os brasileiros”, avalia a moradora de Vrindavan, a cerca de 150 km de Nova Délhi.

"O indiano sabe que não terá acesso a um hospital. As pessoas são muito pobres e são mais temerosas de ficarem doentes. Elas não são inconsequentes como os brasileiros”, diz a paulista, de 35 anos.

Paulista Debora Blanche Daher se mudou para a Índia com o marido dias antes do início da pandemia no país.
Paulista Debora Blanche Daher se mudou para a Índia com o marido dias antes do início da pandemia no país. © Arquivo pessoal

Debora chegou ao país pouco mais de um mês antes da pandemia, e nem cogita retornar ao Brasil, onde acredita que a situação está ainda mais dramática. "Eu me sinto muito mais em segurança aqui do que eu me sentiria no Brasil. Eu sei que o governo vai ser duro quando tiver que ser duro e vai relaxar quando der para relaxar. O erro foi ter permitido as festividades do Ano Novo indiano e de Khumba Mela, em março”, reconhece.

A realização do maior festival hindu, celebrado a cada três anos, é apontada como o fator que resultou na propagação exponencial da doença. Milhões de pessoas de todo o país se reuniram por 48 dias em Haridwar, sem qualquer precaução sanitária.

"Essa segunda onda está bem preocupante. Estamos vendo vários conhecidos ficando muito doentes ou morrendo. A doença chegou de vez agora, com as variantes”, diz Débora, que garante só sair de casa quando não tem escolha e realiza a maioria das compras, inclusive essenciais, pela internet.

“A verdade é que nós, como estrangeiros, temos medo de ter que ir parar num hospital indiano. Não podemos pensar na hipótese de ter de ir para o hospital. Se faltou oxigênio no Brasil, faltaria na Índia, que é extremamente pobre, carente de tudo.”

Reabertura foi cálculo político de Modi

As ambições políticas levaram o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a não proibir a realização do Khumba Mela, apesar dos riscos. O premiê nacionalista hindu visa a reeleição para um terceiro mandato. Por isso, sucumbiu à pressão pela reabertura do país, depois de quase um ano de um fechamento com consequências dramáticas para os trabalhadores informais, que representam cerca de 80% dos ativos do país.

Em 2020, o duro impacto econômico do lockdown nas metrópoles levou milhões de indianos miseráveis a retornarem, a pé, para as suas casas no interior. “Não tinha trem, nem ônibus. Esse monte de gente saía caminhando, aglomerado, para os seus vilarejos que ficam a 300, 500 quilômetros de Délhi – sem comida, sem sapatos, abaixo de um calor insuportável de 42 graus. Muita gente morreu”, relembra a administradora Vanessa Argenton, residente em Jamnagar, no oeste da Índia, há três anos.

"Foi muito, muito triste, e agora acho que estão evitando repetir essa situação, para não ter mais mortes pelo lockdown do que pela Covid. O primeiro-ministro tá mais preocupado com as eleições que com Covid”, frisa a catarinense.

A administradora Vanessa Argenton está na Índia há três anos para um tratamento médico e conheceu o marido, também brasileiro, no país.
A administradora Vanessa Argenton está na Índia há três anos para um tratamento médico e conheceu o marido, também brasileiro, no país. © Arquivo pessoal

O resultado da reabertura é que a Índia passou de 9 mil contaminações diárias, em fevereiro, para 350 mil, no fim de abril. “O governo cantou vitória antes da hora. Não contava que a segunda onda seria muito pior do que a primeira”, observa a enfermeira Márcia.

O maior temor é que a doença agora se espalhe pelo interior do país, onde a infraestrutura médica e hospitalar é, muitas vezes, inexistente. Nos vilarejos, as mortes sequer são contabilizadas, denuncia Márcia, que também critica o avanço lento da vacinação. O país é o maior exportador mundial de insumos para a fabricação dos imunizantes contra o coronavírus, mas até agora, apenas 10% da população recebeu uma dose da vacina.

Superstições atrapalham vacinação

Márcia ressalta que as crenças exacerbadas do povo indiano também dificultam o combate à doença. “Muitas pessoas não querem tomar vacinas por todo o tipo de superstições, principalmente os homens, que acham que pode afetar a virilidade, a fertilidade”, sublinha a brasileira.

"Quando tinha vacina, as pessoas estavam se recusando a tomar. E agora que a a situação piorou não tem vacina suficiente. Não sei onde vamos parar, porque a India está de mal a pior.”

Layla Correa Mishra não vê sob este prima: aos 43 anos, a tradutora de Kota deve receber a primeira dose do imunizante nesta segunda-feira (3). “A vacinação aqui no Rajastão está muito mais organizada, parece de primeiro mundo”, comemora. “Vão abrir para todos os maiores de 18 anos, o que nos deixa numa situação mais segura.”

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