Turismo da Covid: alemães viajam até a Rússia para serem vacinados com Sputnik-V

Centro de vacinação anticovid em Moscou.
Centro de vacinação anticovid em Moscou. © Daniel Vallot / RFI

Enquanto latino-americanos mais abastados voam para os Estados Unidos para serem imunizados contra a Covid-19, na Europa são cada vez mais frequentes os casos de alemães que viajam para a Rússia para receber uma dose da vacina Sputnik-V. No entanto, mesmo se agências começam a se especializar nesse tipo de turismo, o fármaco proposto por Moscou ainda não foi validado pelas autoridades europeias.

Publicidade

Com informações de Daniel Vallot, correspondente da RFI em Moscou

Uwe Kaim não está em Moscou para visitar o Kremlim ou fotografar a Praça Vermelha. No hall de seu hotel, no centro da capital russa, esse alemão acaba de voltar de seu principal compromisso da viagem: ser vacinado.

“Tenho 48 anos e não tenho problemas de saúde. Na Alemanha, como esse perfil, eu não teria nenhuma chance de ser vacinado tão cedo”, resume. “Até pensei em ir para a Sérvia. Mas eles anularam todas as vacinações de estrangeiros”, conta o alemão, como quem escolhe seu destino para as férias.

Kaim não é o único alemão a ser vacinado nas terras de Vladimir Putin. O governo russo, que vem promovendo o seu imunizante e afirma já ter exportado o produto para dezenas de países, parece querer atrair esse tipo de turista. A tal ponto que os primeiros a desembarcar no aeroporto de Moscou foram recebidos com festa ... e câmeras de televisão.

Pacotes econômico ou viagem de transiberiano

A viagem de Kaim foi organizada por uma agência norueguesa, que está se especializando no turismo de vacinas. A empresa aproveita a penúria de imunizantes na Europa, onde as doses demoram para ser entregues ou são administradas lentamente, e a reabertura das fronteiras russas para alguns países, entre eles a Alemanha.

A agência World Visitor propõe pacotes apresentados como “econômicos”, a partir de € 399. “Nesse caso, organizamos apenas as duas injeções”, explica Albert Siegl, responsável pelo programa. “Mas nossa oferta mais procurada é a de € 2 mil, que conta com os dois voos ida e volta [para as duas doses] e a hospedagem. Ou então temos uma opção por € 3 mil, na qual o turista pode ficar na Rússia entre as duas doses”, enumera. Mas para quem não quer fazer economia, a empresa propõe um pacote “de luxo”, a partir de € 8 mil, com direito a viagem no trem transiberiano.

Até agora apenas uma centena de turistas alemães foi vacinado graças ao programa da World Visitor. Mas a agência afirma ter cerca de mil reservas confirmadas para as próximas semanas.

A vacina russa ainda está em fase de validação pelas autoridades ocidentais, após um período de ceticismo assumido do resto do mundo, desconfiado dos anúncios do presidente Vladimir Putin, que lançou seu programa de imunização sem o aval da comunidade científica. Mas as poucos a situação vem se desbloqueando. Especialistas da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) começaram nesta segunda-feira (10) uma visita a Rússia para inspecionar as fábricas de produção da vacina Sputnik V, etapa prévia de uma eventual aprovação do uso do fármaco no bloco europeu.

Questionado sobre a eficácia da vacina russa, que ainda suscita debates e já foi rejeitada por alguns países, entre eles o Brasil, Uwe Kaim, o turista alemão, não hesita: “Na minha opinião, Sputnik-V é uma ótima vacina. Estou contente por ter feito”.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.