Apesar dos confrontos sangrentos, muçulmanos celebram fim do Ramadã em Jerusalém Oriental

Depois da primeira oração matinal na mesquita de Al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, muçulmanas enchem balões para comemorar o fim do Ramadã, o mês sagrado de jejum dos muçulmanos. 13/05/2021
Depois da primeira oração matinal na mesquita de Al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, muçulmanas enchem balões para comemorar o fim do Ramadã, o mês sagrado de jejum dos muçulmanos. 13/05/2021 AFP - AHMAD GHARABLI

A festa religiosa de Eid al-Fitr, que encerra o período de jejum dos muçulmanos e costuma ser um dia de alegria para os adeptos do Islã, acontece nesta quinta-feira (13) numa atmosfera de preocupação, devido à nova crise sangrenta entre israelenses e palestinos. Em Jerusalém Oriental, onde começou a escalada na semana passada, a tensão recuou nas primeiras horas da manhã. Milhares de fiéis se reuniram em paz na Esplanada das Mesquitas para a oração do Eid-el-Fitr. 

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Sami Boukhelifa, correspondente da RFI em Jerusalém

O bairro vizinho de Sheikh Jarrah, onde existe uma disputa territorial há décadas, com quatro famílias palestinas em perigo de serem despejadas em breve porque um grupo judaico ultranacionalista alega ser dono das terras onde elas moram, continua isolado pela polícia. Barreiras metálicas e agentes de plantão bloqueiam os acessos. Só os residentes podem voltar para casa.

O palestino Morad Atia mora nesse bairro. Ele voltava para casa no final da manhã, depois de ser libertado pela polícia. “Fui preso hoje cedo por ter chamado um policial de idiota”, relatou à reportagem da RFI. "A polícia israelense pode entrar em nossas casas e saquear nossos pertences, enquanto nós somos detidos por qualquer motivo. Veja como a nossa rua está triste. Ninguém está autorizado a vir aqui para nos desejar um feliz Eid", lamentou. 

“Aqui só temos que viver em paz”

Nos arredores do bairro de Sheikh Jarrah, judeus religiosos da comunidade de Satmar se reúnem quase todos os dias. O grupo se apresenta como "antissionista", por se opor ao Estado de Israel.

“Nós devemos viver em paz aqui. Não temos o direito de lutar contra as pessoas. A Torá [o livro sagrado do judaísmo] nos proíbe de fazer guerra. E não temos o direito de colonizar bairros árabes. Os judeus devem ficar em sua área”, disse Haim, com um chapéu na cabeça e uma longa barba cobrindo o rosto. Ele veio orar por seus vizinhos árabes.

A pressão dos ultraortodoxos israelenses para se apropriar de terras de famílias árabes tem aumentado. Segundo Xavier Guignard, especialista em questões palestinas e pesquisador do centro de pesquisas independentes Noria Research, existe uma radicalização da sociedade em Israel, que "não é mais capaz de fazer a menor concessão para viver em comunidade com os árabes". 

Os três dias da festa de Eid al-Fitr, no final do Ramadã, costumam ser marcados por orações, recolhimento nas mesquitas e momentos de confraternização alegres e pacíficos. Os muçulmanos se preparam para a ocasião comprando roupas novas, presentes, além de fazerem fartas refeições em família.    

Porém, com a nova escalada de violência, que já matou 83 pessoas na Faixa de Gaza, e deixou 480 feridos nesse território palestino, além de sete mortos em Israel, o clima é funesto.

Críticas e apelos pela paz

O presidente russo, Vladimir Putin, e o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediram nesta quinta-feira às partes que acabem com os confrontos mortais em curso. "Vemos que a prioridade é o fim da violência de ambos os lados e a segurança da população civil", disse a presidência russa em comunicado, ao término de uma reunião por videoconferência com o secretário-geral da ONU.

O rei Salman, da Arábia Saudita, criticou duramente Israel durante uma conversa telefônica com o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan. O rei saudita reafirmou estar "ao lado dos palestinos depois dos atos de violência cometidos por Israel em Jerusalém Oriental". 

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