Covid-19 na Índia: pobreza gera os excluídos "digitais" da vacinação

Um indiano conduz sua bicicleta para trasporte de passageiros em uma rua de Nova Déli. Em 6 de abril de 2021.
Um indiano conduz sua bicicleta para trasporte de passageiros em uma rua de Nova Déli. Em 6 de abril de 2021. REUTERS - ADNAN ABIDI

A epidemia de Covid-19 está fora de controle na Índia, com oficialmente mais de 90 mil mortes apenas no último mês. Para responder a esta crise, o governo intensifica sua campanha de vacinação, que se estende por duas semanas a todos os adultos maiores de 18 anos. Mas para receber uma dose, é preciso se cadastrar online antes de ir a um hospital, o que exclui dezenas de milhões de pessoas pobres no país.

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Por Sébastien Farcis, correspondente da RFI em Nova Déli

Naveen vende melões e melancias em um beco em um bairro popular no sul de Nova Déli. Sua atividade o expõe ao contato com pessoas todos os dias. Aos 50 anos, ele gostaria de ser vacinado, mas não sabe como. “Ouvi dizer que você tem que usar o telefone, mas não sei como funciona”, declarou ele, apontando para um telefone de modelo muito simples. “Eu irei quando for notificado."

Na Índia, as pessoas elegíveis para receber a vacina precisam se registrar online, o que envolve ter telefone ou computador, conexão à Internet e compreensão desse processo técnico. Esse procedimento, que pode parecer simples e prático para alguns, é praticamente inacessível a dezenas de milhões de indianos, os privando do direito à vacinação.

É o caso, por exemplo, de Nitin Kumar, que ganha um em torno de 88 rúpias indianas por dia (cerca de R$ 6), conduzindo seu riquixá, um tipo de bicicleta que permite o transporte de passageiros. “Não tenho telefone, não tenho identidade”, explica ele, “mas quem se importa? São os ricos que trazem o vírus de fora, mas são os pobres que sofrem”.

"Vacinar em frente às bombas de gasolina"

Os hospitais públicos ajudam as pessoas mais humildes, sem acesso a celulares ou internet, a fazerem seus cadastros para a campanha de vacinação, mas mesmo isso parece não ser o bastante para as camadas mais empobrecidas da população, como para Rajesh Kumar, que trabalha com transporte por bicicleta. "Mal tenho o que comer hoje em dia, não tenho tempo para perder com isso. O governo deveria nos vacinar onde trabalhamos, em frente às bombas de gasolina, por exemplo, isso nos ajudaria."

Hoje, apenas 3% da população indiana está totalmente vacinada.

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