Crime organizado: megaoperação internacional prende mais de 800 pessoas

Europol indicou que buscas foram feitas em mais de 700 lugares e mais de oito toneladas de cocaína foram apreendidas.
Europol indicou que buscas foram feitas em mais de 700 lugares e mais de oito toneladas de cocaína foram apreendidas. AP - Mike Corder

Uma gigantesca operação internacional contra o crime organizado permitiu a detenção de mais de 800 pessoas, depois que foram decifradas mensagens entre bandidos que utilizaram, sem saber, telefones distribuídos pelo FBI, anunciaram nesta terça-feira (8) agências de inteligência.

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"Essas informações resultaram, na semana passada, em centenas de operações policiais em escala mundial, da Nova Zelândia e Austrália à Europa e Estados Unidos, com resultados impactantes", declarou o vice-diretor de operações da Europol, Jean-Philippe Lecouffe.

"Mais de 800 detenções, mais de 700 lugares com operações de busca e mais de oito toneladas de cocaína apreendidas", completou, em uma entrevista coletiva, um dos comandantes da agência de cooperação policial europeia que tem sede em Haia.

Os agentes também apreenderam 22 toneladas de maconha, duas de anfetamina, 250 armas de fogo, 55 carros de luxo e mais de US$ 48 milhões em diversas moedas e criptomoedas, segundo a Europol.

Durante três anos foram distribuídos milhares de telefones que deveriam passar despercebidos entre membros da máfia, dos sindicatos do crime organizado asiático, dos cartéis de drogas, entre outras redes ilícitas.

Codinome "escudo de Troia"

A operação internacional impulsionada pelo FBI (a polícia federal dos Estados Unidos), que recebeu o nome "Escudo de Troia", permitiu o acesso da polícia de 16 países a quase 20 milhões de mensagens que os criminosos trocaram por meio de aparelhos criptografados com o sistema Anom.

O diretor adjunto do FBI, Calvin Shivers, destacou que a operação permitiu salvar "mais de 100 vidas" ameaçadas.

A operação internacional começou depois que o FBI conseguiu infiltrar sistemas similares denominados "Phantom Secure" e "Sky Global", com os quais acessaram as comunicações de milhares de pessoas, incluindo suspeitos de crimes.

"O fechamento dessas duas plataformas criptografadas de comunicação criou um vazio importante no mercado de comunicações criptografadas", explicou a polícia da Nova Zelândia.

De acordo com documentos judiciais dos Estados Unidos citados pelo portal Vice, o FBI trabalhou com pessoas que conheciam os ambientes para desenvolver e distribuir os aparelhos Anom por meio da rede "Phantom Secure", com a entrega de 50 telefones, especialmente na Austrália.

Segundo a Polícia Federal australiana, apenas no país foram presas 224 pessoas, enquanto seis laboratórios de drogas foram fechados e as autoridades conseguiram apreender armas de fogo e o equivalente a US$ 35 milhões.

O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, disse que a operação "desferiu um duro golpe no crime organizado, não apenas no país, mas irá repercutir no crime organizado em todo o mundo".

A Suécia prendeu 155 pessoas; a Finlândia anunciou a detenção de 100; a Alemanha, 70; Holanda, 49, e a Nova Zelândia, 35.

A polícia no bolso

Os telefones celulares não tinham e-mail nem serviço de ligação ou GPS. Os aparelhos eram adquiridos apenas no mercado clandestino por US$ 2 mil. Além disso, era necessário um código enviado por outro usuário do Anom.

"Os criminosos tinham que conhecer outro bandido para conseguir um aparelho", afirmou a polícia australiana em um comunicado.

Para distribuir os dispositivos, a polícia utilizou pessoas que tinham influência nos círculos criminais, incluindo um traficante foragido na Turquia.

"Os aparelhos circulavam organicamente e se tornaram populares entre os criminosos, que confiavam na legitimidade do aplicativo porque figuras reconhecidas do crime organizado os defendiam", completou a polícia da Austrália.

Os criminosos influentes "colocaram a polícia federal australiana no bolso" de centenas de supostos bandidos", celebrou o comandante da força de segurança, Reece Kershaw.

Ação policial mais complexa até hoje  

Ao mesmo tempo, a polícia divulgou boatos sobre a suposta vulnerabilidade de um sistema rival, o "Ciphr". No total, 11.800 dispositivos foram distribuídos em todos os continentes. Austrália, Espanha, Alemanha e Holanda foram os países que mais receberam aparelhos.

A infiltração acabou em março de 2021, quando um blogueiro detalhou as falhas de segurança do Anom, apresentado como um dispositivo vinculado à Austrália, Estados Unidos e aos outros membros da aliança FiveEyes. A publicação foi apagada.

A polícia da Nova Zelândia, onde aconteceram 35 detenções, em sua maioria por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, informou que essa foi "a ação policial contra o crime organizado mais complexa do mundo até hoje".

(Com informações da AFP)

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