Vírus que originou Covid-19 começou a circular em outubro de 2019, mostra estudo

Foto do Instituto de Virologia de Wuhan, em 3 de fevereiro de 2021.
Foto do Instituto de Virologia de Wuhan, em 3 de fevereiro de 2021. © AP - Ng Han Guan

O vírus que originou a Covid-19 pode ter começado a se propagar na China dois meses antes do primeiro caso ser identificado na cidade chinesa de Wuhan. É o que mostra uma nova pesquisa publicada pela revista científica Plos Pathogens nesta quinta-feira (24).

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De acordo com a pesquisa, a data mais provável para a emergência do vírus é 17 de novembro de 2019. Até agora, acreditava-se que o Sars-Cov-2 provavelmente tinha se propagado no mundo todo em janeiro de 2020. O primeiro caso oficial de Covid-19 foi detectado na China em dezembro de 2019. 

A primeira hipótese associou a emergência do vírus ao mercado de Wuhan, onde eram comercializados frutos do mar e animais silvestres. Mas, alguns dos primeiros casos, afirma o estudo, não tinham nenhuma relação com o mercado, que recebeu a visita de uma equipe da OMS (Organização Mundial da Saúde), encarregada de investigar o aparecimento da doença que gerou uma das piores epidemias da história da humanidade.

Outras pesquisas sugerem que o Sars-Cov-2 circulava há mais tempo. Um estudo publicado pela China em parceria com a Organização Mundial da Saúde, no final de março, afirma que o vírus pode ter contaminado humanos antes do início da epidemia em Wuhan.

Em uma outra pré-publicação divulgada pelo instituto americano Fred Hutchinson Cancer Research Center, de Seattle, a cientista Jesse Bloom analisou os dados de sequenciamento genético que haviam sido apagados dos arquivos chineses após a detecção dos primeiros casos de Covid-19 na China. Eles revelaram que as amostras recolhidas no mercado de Wuhan "não eram características" do Sars-Cov-2. O vírus identificado era uma variante de um microorganismo diferente, que já circulava em outras regiões do país.

O NIH, órgão que reúne os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos, confirmou que essas amostras foram analisadas em março de 2020 e depois apagadas, a pedido dos investigadores chineses. Os pesquisadores alegaram que iriam atualizar os dados e apenas arquivar o material. Para muitos observadores internacionais, a ocultação das informações é a prova de que a China tentava dissimular as origens da Covid-19.

Nesta quinta-feira (24), um outro estudo realizado por cientistas australianos na revista científica Reports, baseado em informações genéticas, revelou que o Sars-Cov-2 se conecta aos receptores humanos mais facilmente, em comparação a outras espécies animais. Isso sugere que ele já estaria adaptado ao homem quando foi identificado pela primeira vez. 

Segundo a pesquisa, é possível que um outro animal não identificado, que apresentasse uma afinidade mais forte com o vírus, tenha servido de intermediário, mas a hipótese de que o Sars-Cov-2 possa ter escapado de um laboratório também não pode ser descartada. 

Cientista chinesa nega que vírus escapou

No dia 15 de junho, a cientista chinesa que dirige o laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan, de onde o vírus poderia ter escapado, negou que sua instituição fosse a culpada pelo desastre sanitário.

Em entrevista ao jornal The New York Times, Shi Zhengli declarou ser inocente, mas disse que não pode apresentar provas, "já que elas não existem."  O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ordenou no mês passado que agências de inteligência investigassem a origem da pandemia, incluindo a teoria do vazamento de laboratório.

A hipótese já havia sido levantada durante a pandemia, mas foi rejeitada e considerada como uma teoria da conspiração. No entanto, a teoria vem ganhando força recentemente. Relatos indicam que três pesquisadores do Instituto de Virologia de Wuhan adoeceram em 2019 depois de visitar uma caverna de morcegos na província de Yunnan, no sudoeste da China.

Shi é especialista em coronavírus de morcegos e alguns cientistas disseram que ela pode ter conduzido os chamados experimentos de "ganho de função", nos quais os cientistas aumentam a força de um vírus para estudar melhor seus efeitos sobre os hospedeiros.

De acordo com The New York Times, em 2017 Shi e seus colegas do laboratório de Wuhan publicaram um relatório sobre um experimento similar. O documento descreve a criação de novos coronavírus de morcegos híbridos, incluindo pelo menos um que era quase transmissível para humanos – para estudar sua capacidade de infectar e se replicar em células humanas.

No entanto, em um e-mail que acompanha o artigo, Shi disse a experiência difere dos experimentos de ganho de função, pois não buscam criar um vírus mais perigoso. Em vez disso, a equipe dela tentava entender como o vírus poderia pular de uma espécie para outra.  "Meu laboratório nunca conduziu ou cooperou na realização de experimentos de ganho de função que aumentam a virulência dos vírus", se defendeu a cientista.

(RFI com AFP)

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