'Dizem que somos a nova Venezuela': brasileiros contam como sobrevivem à pior crise da história do Líbano

Adolescentes vasculham no lixo em uma rua de Beirute. Metade da população libanesa está vivendo abaixo da linha da pobreza devido a uma crise econômica sem precedentes. Foto de 17 de junho de 2021.
Adolescentes vasculham no lixo em uma rua de Beirute. Metade da população libanesa está vivendo abaixo da linha da pobreza devido a uma crise econômica sem precedentes. Foto de 17 de junho de 2021. AP - Hussein Malla

Escassez de alimentos, medicamentos, combustíveis, energia elétrica, queda do poder aquisitivo, desvalorização da moeda nacional diante do dólar. O Líbano vive a pior crise econômica de sua história. A trágica situação indigna a população, que volta a ocupar as ruas das principais cidades, em plena pandemia de Covid-19, para protestar contra um governo incapaz de encontrar saída para os problemas.

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Daniella Franco, da redação da RFI Brasil

O estudante de jornalismo Jad El Hattouni não mede as palavras para descrever a situação no Líbano: “tem coisas graves e tem coisas gravíssimas acontecendo aqui”. O jovem líbano-brasileiro que vive na capital Beirute lembra que a crise começou no final de 2019, devido a impostos que o governo determinou sobre combustíveis, tabaco e a telefonia online. Rapidamente, a insatisfação tomou o país e grandes protestos foram realizados ao longo de meses. A mobilização só foi pausada no início de 2020 devido à pandemia de Covid-19.

A explosão no porto de Beirute, em 4 de agosto de 2020, agravou a situação do país e a revolta dos libaneses com uma velha classe política marcada pela corrupção e pela inação. A crise econômica, política e social parecia ter atingido o ápice após a tragédia que deixou mais de 200 mortos. Desde então, o presidente do Líbano, Michel Aoun, e o primeiro-ministro interino do Líbano, Hassan Diab, continuam penando para tentar compor um governo, enquanto o gabinete demissionário do premiê designado Saad Hariri segue responsável pelo país.

“Falta comida, remédios, gasolina e diesel, energia elétrica, dinheiro. Estamos divididos entre quem tem dólar e quem não tem. Quem tem dólar ainda consegue viver, mas é muito difícil pra quem não tem. As pessoas estão esperando que os turistas venham para o Líbano para trazer dinheiro e aliviar a crise. Mas como os turistas vão vir pra cá diante de todas essas dificuldades, se não tem nem transporte, nem gasolina para eles poderem passear?”, questiona Jad.

O que o estudante de jornalismo relata faz parte da vida cotidiana dos libaneses, que enfrentam a falta de produtos e alimentos básicos nos supermercados, prateleiras vazias nas farmácias, racionamento de combustíveis – com filas quilométricas nos postos para abastecer os veículos – além de cortes diários de energia elétrica.

No último sábado (26), quando a lira libanesa atingiu seu nível mais baixo em relação ao dólar, manifestantes invadiram as ruas da capital Beirute e de outras cidades para protestar. Novos atos ocorreram na quarta-feira (30) em Tripoli, no noroeste do país.

O estudante de jornalismo Jad El Hattouni.
O estudante de jornalismo Jad El Hattouni. © Arquivo pessoal

A dolarização forçada da economia do Líbano impulsiona a inflação. Atualmente US$ 1 está valendo 1.512 liras libanesas, mas, no mercado negro, pode chegar a custar 17 mil liras libanesas. No ano passado, quando o país anunciou o primeiro calote do pagamento da dívida pública, o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma queda de 20% e a lira libanesa perdeu 85% de seu valor. O poder aquisitivo despencou, enquanto o preço de produtos básicos continua a aumentar de forma vertiginosa.

Com a crise, metade da população passou para baixo da linha da pobreza – uma situação inimaginável há alguns anos nesta que já foi uma das nações mais prósperas do Oriente Médio.

Os libaneses estão cientes que as perspectivas para o futuro não são otimistas. Segundo um relatório recente do Banco Mundial, a economia libanesa deve se reduzir cerca de 10% neste ano.

Colapso político do Líbano

Para Murilo Sebe Bon Meihy, professor de história contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em Oriente Médio, o colapso político é o responsável pela situação do país.

“Desde o fim da guerra civil no Líbano, nos anos 1990, esse sistema político não atende às demandas mínimas da sociedade civil. Ao contrário, estabelece um sistema de rodízio de oligarquias que utilizam o Estado para o enriquecimento próprio. Mesmo antes da crise, não havia fornecimento de energia elétrica estável ou oferta de água potável, ou seja, é um Estado que não consegue estabelecer minimamente as condições ideais para a maioria da população”, explica.

O professor enumera ainda fatores exteriores que contribuíram para a piora da situação no país, como o conflito israelo-palestino e a guerra na Síria, que resultaram na chegada de dois milhões de refugiados em um país de cerca de 6,9 milhões de habitantes. “Os refugiados não têm um status de cidadania que permita a eles ter empregos formais. Nesse momento em que metade da população está vivendo abaixo da linha da pobreza e um quarto dos libaneses enfrenta uma situação de miséria, as coisas ficaram mais difíceis”, reitera.

Além de ineficaz, a classe política libanesa não se desvencilha da corrupção, deixando o povo refém de representantes que se perpetuam no poder há décadas. A complexidade da divisão de cargos políticos entre vários grupos religiosos também prejudica a articulação e a renovação dos governos. Desde o fim da guerra civil, acordos estabeleceram que o presidente deve ser cristão maronita, o primeiro-ministro, muçulmano sunita, o presidente do parlamento, muçulmano xiita – um frágil equilíbrio traduzido na inação dos últimos governos.

“A ponta deste problema é o sistema eleitoral libanês. Esse modelo, que data da independência do Líbano, nos anos 1940, reproduz a presença dessas oligarquias no poder. A liberdade do cidadão de escolher livremente o seu candidato é limitada por um sistema de representação específico. Os libaneses votam em listas distritais relacionadas à sua comunidade religiosa. Ou seja, essa democracia vinculada ao elemento confessional, que era o antídoto do Líbano nos anos 1940, hoje é o seu veneno”, sublinha.

Libaneses em êxodo

“Dizem que somos a nova Venezuela”, diz a estudante líbano-brasileira Nessryn Khalaf, de 25 anos. A jovem foi aprovada para um mestrado na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e deixou o Líbano há alguns meses. No entanto, a vida fora do país também não tem sido fácil.

À RFI, a jovem relata que tem contado com a ajuda de tios que moram no Kuwait, já que o governo libanês está bloqueando o dinheiro da população nos bancos para evitar a fuga de capital. Prevendo as dificuldades, antes de se mudar para Oxford, a jovem se preparou e juntou dinheiro trabalhando durante um ano em cinco empregos no Líbano.

“Mas quando eu ia transformar em libras, não dava quase nada. E agora está ainda pior porque o valor do dólar subiu muito nos últimos tempos. E isso está afetando todo mundo que eu conheço que está hoje no Líbano trabalhando. Meus amigos libaneses estão recebendo US$ 50 por mês, mas como é possível sobreviver com isso?”, pergunta.

A estudante líbano-brasileira Nessryn Khalaf (primeira, da esquerda para a direita), com a mãe e os irmãos.
A estudante líbano-brasileira Nessryn Khalaf (primeira, da esquerda para a direita), com a mãe e os irmãos. © Arquivo pessoal

De longe, Nessryn sofre com todas as dificuldades enfrentadas pela família e os amigos. “Meu pai teve que vender o carro dele para pagar a faculdade do meu irmão. Minha mãe viajou recentemente ao Brasil porque minha vó ficou doente e, ao voltar de lá, trouxe o que pôde de na mala: desodorante, sabonete, feijão, arroz… Eles não conseguem mais comprar nada disso no Líbano. Até remédios ela trouxe do Brasil porque tudo está em falta no Líbano”, conta.

Nessryn revela que se a situação não melhorar, sua família está cogitando a possibilidade de se mudar definitivamente para o Brasil. O caso dela não é exceção. A líbano-brasileira Suriana Kamil Izzeddine, professora de línguas formada em Relações Internacionais, diz que a demanda por aulas de idiomas estrangeiros aumentou nos últimos meses. Sem enxergar luz no fim do túnel, muitos libaneses não veem outra saída a não ser deixar o país.

“O número de jovens que está indo embora é absurdo. É muito triste. A situação está insustentável. São médicos, engenheiros, arquitetos, gente de todas as áreas e uma quantidade enorme de pessoas que vêm me procurando para ter aulas de português, espanhol e italiano só pra sair daqui”, conta.

Deixar o Líbano é uma possibilidade que a professora e o noivo não descartam. A vó de Suriana, também líbano-brasileira, está de malas prontas para se mudar para o Brasil.

A jovem se revolta pelo fato de a parcela mais rica da população não estar sendo afetada pela crise. “As praias, restaurantes, boates estão lotados. Os ricos não estão sentindo a crise. As disparidades ficaram muito mais visíveis nos últimos tempos. A classe média, por exemplo, está praticamente desaparecendo. Ou temos gente muito rica ou muito pobre”, lamenta.

A líbano-brasileira Suriana Kamil Izzeddine, professora de línguas estrangeiras.
A líbano-brasileira Suriana Kamil Izzeddine, professora de línguas estrangeiras. © Arquivo pessoal

O que mais entristece Fatima Souza, profissional liberal líbano-brasileira, é a falta de esperança da população. “Com a crise financeira, os bancos bloqueando o dinheiro do povo, a desconfiança na classe política, a falta de acesso a alimentos, medicamentos básicos e combustíveis, e tudo isso somado à explosão no porto de Beirute, que jamais foi esclarecida ou teve responsáveis punidos, o Líbano está em queda livre. As pessoas estão reféns dessa situação e elas não veem uma saída. O país está em queda livre”, descreve.

No entanto, Fatima, que tem uma filha adolescente, está radicada no país e não vê outra possibilidade senão permanecer e continuar buscando alternativas. Atualmente, ela tenta desenvolver projetos com o objetivo de gerar novos empregos no Líbano.

“É uma espécie de missão que eu me dei, para deixar como legado. Quero transformar esse momento negativo em uma espécie de mola propulsora para construir algo a partir dessa tragédia que estamos vivendo, algo rumo a um futuro melhor”, projeta.

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