Israel teme consequências diplomáticas e instaura CPI sobre escândalo Pegasus

O software Pegasus da empresa NSO Group permite, se introduzido em um smartphone, resgatar fotos, contatos e até mesmo escutar as ligações realizadas pelo proprietário.
O software Pegasus da empresa NSO Group permite, se introduzido em um smartphone, resgatar fotos, contatos e até mesmo escutar as ligações realizadas pelo proprietário. JOEL SAGET AFP/File

As revelações sobre a utilização de um software espião para vigiar jornalistas, ativistas e até líderes de vários países geram apreensão em Israel, onde o programa foi desenvolvido e vendido, por uma empresa israelense. As autoridades do país temem que o escândalo mundial Pegasus leve a consequências diplomáticas. Uma CPI sobre o caso foi instalada nesta quinta-feira (22).

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Com informações do correspondente da RFI em Jerusalém, Michel Paul

O governo israelense tem a partir de agora um único objetivo: limitar os estragos potenciais desse escândalo. O ministro da Defesa Benny Gantz afirmou timidamente que “os países que compraram esse software devem respeitar as normas estipuladas no contrato de venda”. Ele garantiu que o governo “estuda neste momento todas as informações publicadas sobre o caso”.

Segundo a imprensa israelense, o governo nomeou uma equipe especial, formada por integrantes de várias agências de inteligência, para administrar as consequências das revelações sobre a utilização do Pegasus. A equipe também deve revisar a licença de exportação de programas ligados ao setor de cibertecnologia.

CPI

A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o caso Pegasus foi instalada nesta quinta-feira, indicou o deputado israelense Ram Ben-Barak. Ela será composta por integrantes de vários grupos do parlamento, detalhou o presidente da comissão de Relações Exteriores e da Defesa da Knesset (o parlamento de Israel).

“No final dos trabalhos, vamos avaliar se devemos propor correções”, esclareceu o deputado centrista e ex-diretor-adjunto do Mossad, o serviço de inteligência israelense.

Empresa nega acusações

Ao mesmo tempo, a empresa israelense que desenvolveu o software partiu para o ataque e nega categoricamente todas as acusações. “Uma investigação de amadores”, proclamou Shalev Hulio, CEO do NSO Group, em uma entrevista à rádio 103 FM. Ele fazia referência às revelações do último domingo (18) feitas pelo consórcio Forbidden Stories, com o apoio técnico do Security Lab da Anistia Internacional, mostrando que advogados, jornalistas, diplomatas, médicos, esportistas, sindicalistas, militantes e políticos foram espionados por governos de vários países.

Hulio garantiu a ética das transações comerciais de sua firma. “Para mim, isso é uma rede de mentiras. Trabalhamos atualmente com 45 países. Em 11 anos, nós nos recusamos a trabalhar com 90 países. Isso mesmo, 90 países”, afirmou.

Para o NSO, tudo foi feito para que o software Pegasus só pudesse ser utilizado para evitar atos terroristas e criminosos.

Escândalo mundial

A investigação de Forbidden Stories e da Anistia Internacional, revelada conjuntamente por um consórcio de 17 jornais do mundo inteiro, obteve uma lista de 50 mil números de celulares indicados pelos clientes do NSO e provavelmente espionados desde 2016. Ela descobriu que Pegasus vigiou ao menos 180 jornalistas, 85 ativistas de direitos humanos e 14 chefes de Estado, entre eles o presidente francês, Emmanuel Macron.

A vasta rede de espionagem revelada pela investigação internacional levou a ONG Repórteres Sem Fronteiras a exigir uma moratória sobre as vendas do programa espião. A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu maiores restrições à exportação de softwares de cibertecnologia e segurança. 

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