Afeganistão: Talibãs afirmam controlar vale do Panshir; resistência diz que luta vai continuar

Foto de arquivo, tirada em 2 de setembro de 2021. O movimento de resistência afegão e as forças antitalibã participam de um treinamento militar na área de Malimah, no distrito de Dara, na província de Panshir.
Foto de arquivo, tirada em 2 de setembro de 2021. O movimento de resistência afegão e as forças antitalibã participam de um treinamento militar na área de Malimah, no distrito de Dara, na província de Panshir. AFP - AHMAD SAHEL ARMAN

Os talibãs anunciaram nesta segunda-feira (6) que controlam completamente o último reduto de resistência e consequentemente todo o Afeganistão. Mas a Frente Nacional de Resistência (FNR) afirma que ainda tem “posições estratégicas” no vale do Panshir. A situação no Afeganistão está no centro do giro internacional do secretário de Estado americano, Antony Blinken, que chega nesta segunda-feira a Doha.

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O vale do Panshir é uma região recuada e de difícil acesso, localizada a 80 km ao norte de Cabul. Desde 15 de agosto, quando os talibãs tomaram o poder no país após uma ofensiva relâmpago, ele era o único e último local de oposição armada aos novos homens fortes do Afeganistão. Depois de combates intensos nos últimos dias, o Talibã garante controlar a região.

“Com essa vitória, nosso país está agora completamente livre do marasmo da guerra”, declarou em um comunicado o principal porta-voz do movimento fundamentalista islâmico, Zabihullah Mujahid.

Reduto antitalibã histórico, o vale do Panshir ficou mundialmente conhecido graças à atuação nos anos 1980 e 1990 do memorável comandante Ahmed Shah Massoud, assassinado pela rede Al Qaeda em 2001. A região é o berço da Frente Nacional de Resistência, liderada por Ahmad Massoud, filho do comandante Massoud, e até agora, a região nunca tinha caído em mãos “inimigas”.  

Em sua conta no Twitter, o FNR relativizou o anúncio da vitória Talibã no Panshir. A mensagem garante que a resistência ainda mantém “posições estratégicas" no vale e que a “luta contra os talibãs e seus aliados vai continuar”.

Inicialmente, após a tomada de Cabul e a retirada definitiva dos americanos do Afeganistão, houve discussões entre o Talibã e o FNR. Os dois campos diziam que queriam evitar os combates. Os líderes da resistência pediam a instauração de um sistema de governo decentralizado, mas nenhum acordo foi encontrado.

O porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, prometeu aos habitantes do Panshir que não haverá represálias.

Reabertura das universidades

No domingo (5) à noite, o FNR havia proposto um cessar-fogo devido as perdas pesadas que sofreu nos intensos combates durante o final de semana. O grupo indicou ter “proposto aos talibãs uma trégua nas operações militares no Panshir e de se retirar do vale, em troca da suspensão dos ataques das forças resistentes”. O FNR também reconheceu ontem a morte de seu porta-voz Fahim Dashty, um célebre jornalista afegão, e do general Abdul Wudod Zara.

No plano político, a composição do novo governo talibã se arrasta. Prometido para sexta-feira (3), a anúncio do nome dos homens que irão governar o país continua gerando grande expectativa. Os analistas estimam que os islamitas não esperam tomar o poder no país tão rapidamente e não tiveram tempo para negociar antes a formação do gabinete.

De volta ao poder após 20, os talibãs são observados de perto pela comunidade internacional. O movimento fundado pelo mulá Omar prometeu formar um governo “inclusivo” e a respeitar o direito das mulheres, ao contrário do que fizeram quando estiveram no poder entre 1996 e 2001. Mas até agora não conseguiram convencer parte da população.

As universidades privadas do país devem voltar a abrir nesta segunda-feira. Em um decreto publicado nesse final de semana, os fundamentalistas determinaram que as estudantes têm de usar niqab, deixando apenas os olhos de fora. Eles também confirmaram que, na medida do possível, as mulheres não teriam aulas na mesma sala que homens.

Giro internacional do secretário de Estado americano

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, é esperado nesta segunda-feira no Catar. O rico emirado árabe do Golfo, que tem relações estreitas com o Talibã, se transformou na plataforma da diplomacia internacional sobre o Afeganistão desde a tomada de Cabul.

Em Doha, Blinken deve expressar o “profundo reconhecimento” de Washington pelo apoio do Catar nas operações de retirada do Afeganistão de cidadãos americanos e afegãos que colaboraram com os EUA. Quase 50% das 123.000 pessoas que deixaram Cabul em duas semanas na ponte-aérea montada pelo exército americano fizeram uma escala em Doha.

Apesar do Talibã ter um escritório político no emirado, o secretário de Estado não deve se encontrar com nenhum representante do movimento. No entanto, um diálogo entre os americanos e os novos homens fortes do Afeganistão não parece completamente impossível no futuro.

Outro tema na pauta da viagem de Blinken é a reabertura do aeroporto de Cabul, fechado desde a saída definitiva dos americanos do país em 30 de agosto. O Catar, em colaboração com a Turquia, tenta obter a normalização do tráfego aéreo que é uma prioridade para a chegada da ajuda humanitária ao país. A retomada dos voos também é essencial para permitir a saída dos estrangeiros e afegãos que ainda não conseguiram deixar o país.

 

(Com AFP)

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