“Subestimamos a brutalidade do regime”, diz opositora bielorussa Svetlana Tikhanovskaya à RFI

A opositora Svetlana Tikhanovskaya concedeu uma entrevista exclusiva à RFI e France 24.
A opositora Svetlana Tikhanovskaya concedeu uma entrevista exclusiva à RFI e France 24. AFP - JOEL SAGET

A chefe da oposição bielorussa Svetlana Tikhanovskaya está de passagem por Paris, onde busca novamente o apoio das potências ocidentais para combater o regime do presidente Alexander Lukashenko. Em entrevista exclusiva à RFI e France 24, ela insistiu que seu país não almeja romper relações com a vizinha Rússia e que a única prioridade agora à dar à população de Belarus a possibilidade de “escolher seu próprio destino”. 

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A opositora de 39 anos vive exilada na Lituânia desde que se candidatou para a eleição presidencial de 2020 em Belarus e foi derrotada por Lukashenko. Desde a vitória contestada do chefe de Estado, que está no poder há 27 anos, a repressão se intensificou em seu país e Tikhanovskaya se tornou um símbolo da resistência, fazendo campanha junto à comunidade internacional contra o líder bielorusso. 

Essa é a segunda visita da opositora a Paris desde que se exilou. No ano passado ela se encontrou com o presidente francês Emmanuel Macron e desta vez se reuniu com o chefe da diplomacia, Jean-Yves Le Drian. 

Um dos objetivos da viagem é buscar apoio para que a França utilize suas relações com a Rússia, aliada de Lukashenko, para pressionar o regime bielorusso. “Vejo que todos estão querendo nos ajudar, mas às vezes as condições não estão reunidas para isso”, disse Tikhanovskaya. 

Ao ser questionada sobre o papel de Moscou na crise em Belarus, a opositora frisou durante a entrevista que seu objetivo não é criticar Moscou. “Os bielorussos têm boas relações com a Rússia e não querem romper essas relações. Eles querem apenas poder escolher o destino de seu próprio país”, disse ela. “Façam abstração da Rússia e pensem em Belarus. Nós pressionamos o regime, e não as nossas relações com a Rússia. Não podemos misturar tudo”, martelou. 

Segundo Tikhanovskaya, é importante ressaltar que Belarus não está virando as costas para Moscou. “Os bielorussos não estão voltados para o Ocidente. Eles não querem entrar na União Europeia ou integrar o Otan, como diz a propaganda, que nos acusa de estarmos vendendo Belarus para o Ocidente. Não se trata de geopolítica”. 

Nova eleição é a única solução 

A opositora também ressaltou que outros aliados podem contribuir nas discussões. “Podemos ter outros países em volta desta mesa de negociações para que esse diálogo seja aberto. Por exemplo a Polônia ou a Lituânia, já que os interesses desses países também estão em jogo”, explicou. “A estratégia ideal seria pegar o que há de melhor nos diferentes países para, em seguida, implementar no nosso país. Nós, bielorussos, praticamente não temos experiência de democracia”, deplorou. 

Questionada sobre o que deu errado na tentativa de tirar Lukashenko do poder em 2020, Tikhanovskaya disse que todos pensavam que a situação mudaria rapidamente, mesmo após sua reeleição, principalmente por causa dos protestos que tomaram o país. “Acreditávamos que não era possível ignorar as centenas de milhares de pessoas que se manifestavam nas ruas. Mas subestimamos a brutalidade do regime. Foi o nosso erro. Há 27 anos vivemos nessa brutalidade e estávamos tão acostumados com ela que não a víamos mais”, desabafou. 

“Eu não faço nenhuma promessa. Digo apenas que vamos continuar nossa luta enquanto for necessário”, lançou. Segundo ela, a prioridade agora é “pressionar o regime para que ele entenda que a única saída é uma negociação com a população e uma nova eleição. Nós precisamos de uma nova eleição, livre e justa”. 

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