COP26: sob ameaça de um desastre climático global, líderes mundiais se reúnem em Glasgow

Boris Johnson e António Guterres em Glasgow, Escócia, onde acontece a COP26 (1/11/21).
Boris Johnson e António Guterres em Glasgow, Escócia, onde acontece a COP26 (1/11/21). AP - Alastair Grant

Mais de 120 líderes mundiais se reúnem em Glasgow a partir de segunda-feira (1) em uma "última chance" para enfrentar a crise climática e alertar sobre um desastre global que se aproxima. As expectativas são grandes para a COP26, após os compromissos tímidos alcançados pelo G20 em Roma. Jair Bolsonaro segue na Itália e será representado pelo ministro Joaquim Leite, do Meio Ambiente.

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Observadores esperavam a reunião no final de semana na capital italiana dos líderes dos países do G20, que entre eles emitem quase 80% das emissões globais de carbono, daria um forte impulso à cúpula da COP26 em Glasgow, que foi adiada por um ano devido à pandemia.

As principais economias do G20 se comprometeram no domingo com o objetivo principal de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais - a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris de 2015.

Eles também concordaram em encerrar o financiamento para novas usinas de carvão no exterior - aquelas cujas emissões não passaram por qualquer processo de filtragem - até o final de 2021.

Mas isso não convenceu as ONGs, o primeiro-ministro britânico ou as Nações Unidas.

"Embora eu acolha o novo compromisso do G20 com soluções globais, deixo Roma com minhas esperanças não realizadas - mas pelo menos elas não estão enterradas", disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pelo Twitter.

"Avançamos (no G20). Chegamos a em uma posição razoável para a COP26 em Glasgow, mas será muito difícil nos próximos dias", disse Boris Johnson no domingo. “Se Glasgow falhar, então tudo falha", alertou o premiê britânico.

O encontro de Glasgow, que vai até 12 de novembro, vem na esteira de eventos climáticos extremos em todo o mundo, ressaltando os impactos devastadores resultantes de 150 anos de queima de combustíveis fósseis.

Os atuais compromissos dos signatários do acordo de Paris - se fossem cumpridos - ainda levariam a um aquecimento "catastrófico" de 2,7 graus Celsius, segundo a ONU.

A COP26 marca a "última e melhor esperança de manter 1,5° C ao alcance", disse o presidente da cúpula, Alok Sharma, ao abrir a reunião no domingo.

"Se agirmos agora e juntos, podemos proteger nosso precioso planeta", disse.

Grupos de defesa do clima expressaram desapontamento com a declaração divulgada no final da cúpula do G20.

“Esses chamados líderes precisam demonstrar um comprometimento maior. Eles têm outra chance para isso”, disse Namrata Chowdhary, da ONG 350.org.

Experctativas sobre a Índia

Enquanto a China, de longe o maior poluidor de carbono do mundo, acaba de apresentar à ONU seu plano climático revisado, que repete uma meta de longa data de pico de emissões até 2030, a Índia está agora no centro das expectativas.

A Índia ainda não apresentou uma "contribuição nacionalmente determinada" revisada, mas se o primeiro-ministro Narendra Modi anunciar novos esforços para reduzir as emissões em seu discurso na segunda-feira, isso poderia colocar mais pressão sobre a China e outros países, disse Alden Meyer, um especialista em clima e energia do grupo de reflexão E3G.

Outro grande ausente da COP26 será Vladmir Putin, que há alguns anos declarou: “quem vai reclamar de alguns graus a mais?”, lembra a correspondente da RFI em Moscou, Anissa El Jabri.

Mas recentemente, diante de vastos incêndios na Sibéria e degelo do permafrost (tipo de solo que permanece com temperatura igual ou inferior a 0°C por dois ou mais anos) na Sibéria, Putin anunciou, para surpresa geral, a neutralidade de carbono até 2060. Uma guinada, mas a seu ritmo, diz a correspondente.

"Não no ano que vem. Não no mês que vem. Agora."

Outra questão urgente é o fracasso dos países ricos em desembolsar US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020 para ajudar as nações em desenvolvimento a reduzir as emissões e se adaptar - uma promessa feita pela primeira vez em 2009.

Essa meta foi adiada para 2023, agravando a crise de confiança entre o Norte, responsável pelo aquecimento global, e o Sul, vítima de seus efeitos.

“O financiamento do clima não é caridade. É uma questão de justiça”, lembrou Lia Nicholson, representante da Aliança dos Pequenos Estados Insulares, bastante vulneráveis ​​às alterações climáticas.

As previsões do painel de especialistas em clima da ONU (IPCC) de que o limite de um aumento de 1,5 Celsius poderia ser alcançado 10 anos antes do esperado, por volta de 2030, são "aterrorizantes", disse ela, especialmente para aqueles na linha de frente da crise climática que estão já sofrendo as consequências em um mundo que se aqueceu cerca de 1,1 grau Celsius.

Embora os presidentes da China e da Rússia não sejam esperados pessoalmente, dezenas de outros chefes de Estado e de governo, desde o presidente dos EUA, Joe Biden, a líderes da UE, e o australiano Scott Morrison, estão viajando para Glasgow.

Suas palavras e ações serão examinadas de perto, em particular pelos jovens ativistas que viajaram para a Escócia, apesar dos obstáculos devido à pandemia.

"Como cidadãos de todo o planeta, pedimos que enfrentem a emergência climática", declararam em uma carta aberta. Entre os signatários está a ativista sueca Greta Thunberg, que chegou no domingo de trem.

O presidente Jair Bolsonaro não participa da COP26. O Brasil será representado pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite enquanto Bolsonaro continua sua viagem pela Itália. O governo do Brasil espera convencer o mundo de que passou a levar a sério o desmatamento da Amazônia e que integrou um planejamento de crescimento verde na sua economia. Mas, na prática, o maior compromisso do país com a comunidade internacional chega atualizado "para pior" no evento.

Nesta segunda-feira, o presidente brasileiro vai à Anguillara Vêneta, cidadezinha com 4 mil habitantes na região do Veneto no nordeste da Itália, onde nasceu seu bisavô Vittorio Bolzonaro. O presidente brasileiro receberá o título de Cidadão Honorário do Município dado pela prefeita Alessandra Buoso, da Liga, partido de extrema direita.

(com AFP)

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